sábado, 23 de agosto de 2014

Uma questão de brasilidade


- Mas se não fosse aquela pancada no Neymar a história seria outra.
- A Copa já foi, agora quero saber de eleição.
- Mas como foi forte a pancada, quebrou a coluna!
- Quero saber desses políticos cadê as escolas, eu quero escola pra as nossas crianças, criança precisa de escola boa, entendeu? Ensino de qualidade, pra poder fazer uma faculdade.
- O Neymar já tá jogando... não é que sarou rápido?
- Sarou porque tem condição de hospital bom, tem doutor letrado todo dia à disposição, doutor que frequentou escola de verdade, foi pra faculdade, você sabe quanto tempo demora pra formar um médico? No mínimo, seis anos, sabe o que é estudar a mesma coisa seis anos? Seis anos na sala de aula, estudando o corpo da gente, copiando toda a matéria, revisando, fazendo prova, passando em prova! Não é moleza não.
- Mas o Neymar é privilegiado, não é craque à toa. Se ele estivesse em campo contra a Alemanha o Brasil teria vencido.
- Alemanha, Alemanha, você sabe o que é a Alemanha? É um monte de gente organizada, com direito a café, almoço e jantar todos os dias, com direito a escola, a médico, a professor e médico. Tá pensando que lá é esta bagunça que é aqui? Lá tem ordem, tá ouvindo? Lá é que devia estar escrito "ordem" na bandeira, se aqui fosse um país bom, mas aqui a palavra é só pra constar, é só pra mostrar que tem.
- O Neymar cantava o hino em todos os jogos, eu vi, cantava direitinho.
- Que hino, cantar hino é fácil, isso qualquer um faz, eu quero ver é dizer a tabuada inteirinha, eu quero ver é ler a notícia direitinho, sem errar uma vírgula, quero ver você depois explicar o que leu, absorver a notícia, entendeu? Esse povo não sabe ler, pior, não sabe ouvir, você fala e ele não entende, não compreende a realidade, o mundo.
- É mesmo, quando o jogador de futebol, que nem o Neymar, viaja pra fora aprende muito, né?
- Aprende porque lá se ensina, porque lá não tem desnutrido doido pela merenda do recreio enquanto a professora dá a lição. Sem comida não se faz a ligação de um neurônio com outro, sacou? O cérebro, a mente da gente, é puro neurônio, se o corpo não está alimentado as idéias não ligam uma na outra.
- Mas jogador de futebol é diferente, são alimentados, jogador de futebol pensa rápido.
- Se você pensa direito, você entende as coisas, fica fácil, entende a roubalheira que é este país, fica evidente que nem o Sol, até cega. Estamos sendo roubados, todo dia roubam a gente, nosso dinheiro do imposto, metem a mão na nossa grana pra viver de frente pro mar, no luxo, metem a mão na grana escolar que seria pra ensinar a gente a pensar direito, na nossa grana do hospital que seria pra gente ficar são e poder pensar direito.
- Sei...
- A vida do povo é só sobreviver, não sobra tempo pra mais nada, pra lutar por um país melhor, só dá tempo à noite de despencar na cama e dormir, sumir deste mundo e sonhar.
- Sabe o que eu sonho? Sonho com o Brasil campeão do mundo outra vez. Quando ganhou a última, eu tava desempregado, nem deu pra comemorar. Queria que o Brasil fosse campeão, aí seria que nem carnaval, só voltaria pra casa três dias depois. Se não tivessem quebrado o Neymar, teria sido este ano, mas machucaram o garoto.
- Carnaval e futebol, é disso que o povo gosta.
- Gosto mesmo, gosto pra cacete de futebol e carnaval.
- Eu gosto é do Brasil. O Brasil podia ser um país diferente, muito melhor de se viver.
- Eu também gosto do Brasil. Puxa a cordinha aí, parceiro, vou descer no próximo ponto.
- Vai com fé.
- Fé em Deus sim.


Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Confira esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

2 comentários:

Kamilla disse...

Ah, que bacana! Só faltou a malandragem brasileira de pedir pro motorista abrir a porta fora do ponto do ônibus. Parabéns pelo texto e pela visão, Marco!

Marco Antonio Martire disse...

Obrigado, Kamila! Sua presença aqui me alegra, fico até lisonjeado, venha sempre! Abração!

 
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