quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Pancada de amor dói sim

Estava no supermercado quando levei aquele golpe nos meus calcanhares: o carrinho guiado por um cliente provocou a dor, atingiu-me em cheio enquanto eu procurava uma boa marca de cerveja na prateleira. Sorte que calcanhar não chega a ser meu ponto fraco como foi para Aquiles, consegui manter nas mãos a garrafa bojuda que segurava, mas não contive a imprecação. Voltei-me para meu agressor, como não? Eu estava irritado, olhei para ele. O homem estava bastante arrependido, de fato, desculpou-se exageradamente, minha irritação até passou, o encontro se prolongava e ele insistia, em busca de um perdão quase lógico.

Perdoei logicamente, fui embora tendo dito que aceitava suas desculpas, a dor daquele momento tinha desaparecido, prossegui atrás do que precisava das prateleiras. Acabei por lembrar de alguém que teria xingado o homem de tudo quanto é nome feio, uma mulher muito querida, faz tempo que não a vejo, faz tempo que não conversamos.

Ela era uma que caminhava com altivez de dar gosto e desejo, detinha nas mãos seu destino como poucas que conheci, representava muito bem a beleza neste pequeno planeta onde se movem sete bilhões de pessoas. No meio da multidão alerta - multidão que nunca dorme, ao contrário do que pensam alguns - minha amiga sabia conquistar o que desejava, seus sucessos ajudavam a conhecer seu caráter, seus imperativos morais. Tinha poucos desses, mas poucos importantes, era uma mulher especial.

Não cheguei a detectar nela a capacidade de culpa que tolhe os movimentos, suspeito que tivesse, de alguma forma, de algum jeito, notei ainda que se enraivecia quando a cobravam sobre o assunto, agia como se a podassem, podavam mesmo, a sociedade metia nela seus estupendos grilhões, como faz com todo mundo. Ela se indignava, tinha essa raiva genuína, de perigo que contém a beira do mundo. Mas viver é muito perigoso, já dizia Riobaldo em "Grande sertão: veredas". Temos que ser igualmente vivos, conforme os confrades, ou sofreremos de qualquer mal, vocês viram na tevê, nem quero comentar, livres de verdade seremos quando formos lançados sobre as areias de uma praia de alguma ilha deserta. Uma ilha que não existe mais, eu acredito, disseram. Talvez não devesse crer nisso, mas naquele dia eu corria atrás de cerveja engarrafada, não dava para sonhar com ilha deserta.

A ilha que minha amiga construiu para que aproveitasse a vida tem de ser bela feito ela, fiquei imaginando enquanto perambulava pelos corredores do supermercado, enquanto organizava as compras no meu carrinho, enquanto sentia um resquício de dor nos meus calcanhares e lamentava o descuido do meu agressor. Que adiantaria xingá-lo? Há algo de mau nisso, descarregar-me sobre o pobre que acredita cegamente que o perdão é quase lógico. Talvez a soberba de minha amiga, de se saber tão repleta de qualidades, daquelas admiráveis, tenha trazido para ela os desafios merecidos, o caminho é de obstáculos para qualquer um, às vezes tento ser um que pode imaginar tudo, mas a imaginação vem tão lotada de sentimentos que preferi naquele dia dedicar-me só à prosaica missão de fazer compras. Que minha amiga viesse apenas em forma de memória perspicaz, representante do meu presente e nada mais, aquela mulher no passado exatamente como o presente exige, por obra da autopreservação.

O incauto homem que me agredira nem sabia do que escapara, sou capaz de rojões, pode acreditar, e com o carrinho na fila ainda reconheceu:

- Hoje está dando tudo errado. 

Também não era para tanto, poucas emoções podem ser tão graciosas quanto o carinho por alguém que se admirou com desejo feroz, a paixão arrefece, abrem-se os caminhos, desejo e memória vieram então assaltar-me enquanto escrevo e o que eu não sei é onde guardá-los depois de me servir deles. Tarefa de cronista, porque ainda que eu escreva, escrevo também para contar dessas forças, mas nem sempre é possível leveza, crônica, crônica, leve foi a pancada nos meus calcanhares. Aliás, me corrijo: não foi nada leve, não foi leve mesmo. Foi pancada forte, senti aqui no coração.

Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Confira esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

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