segunda-feira, 28 de julho de 2014

Resenha de "Azul e sombra", de Marília Passos

"Azul e sombra", 208 páginas, lançamento deste último junho da Editora Oito e Meio, é a estréia de Marília Passos como romancista. O livro conta a história do advogado Ricardo, homem conquistado pelas emoções de uma grave infância, quando contribuiu decisivamente para o lamentável destino da família. A intensidade e a influência daqueles momentos são tão fortes no Ricardo adulto e bem sucedido que o protagonista não consegue criar laços de afeto, vive para o trabalho e para as prostitutas do Rio de Janeiro. Sua soberba profissional é tal que julga ignorar bem os traumas enquanto aproveita os prazeres mundanos que o dinheiro proporciona. Mora sozinho em um belo apartamento da orla, trabalha diariamente com um crápula em forma de gente, o Ricardo para o Ricardo se basta. Nada quer com a irmã, única parente viva que lembra ter.

É um retrato honesto do homem contemporâneo, este ser relegado em favor de outras questões homéricas, que surge no romance de Marília Passos como objeto de crítica enérgica. Apenas o sucesso não chega para a vida satisfatória, há que se encarar os problemas, Ricardo os varre para as sombras. O acaso insiste, aborda o advogado, põe incríveis mulheres no caminho, mas seus bloqueios se mostram maiores, inexiste inclusive o desejo de tentar. Amar é apenas uma palavra na confortável escuridão.

Na feitura deste romance, Marília optou por um narrador onisciente que lida ainda timidamente com uma velha questão literária: o que não escrever? Marília arrisca e resiste a comentar os passos de seu soturno protagonista, tenta deixar que a mera observação do personagem lance a luz de que o leitor precisa, Ricardo é uma alma que requer o leitor, parece perdido e se move aterrorizado quando olha para dentro. Para contar sua história, a autora dividiu "Azul e sombra" em pequenos capítulos e partes, a leitura é ligeira e seus cortes lembram o cinema. Esta característica, contudo, impede que o romance cresça na primeira parte como deveria, pois os curtos cortes de cena apresentam vários personagens que poderiam ser podados em prol do protagonista, em quem todo o interesse de ação se concentra. Fica a expectativa de que em um próximo trabalho a autora vá além e aposte em profundidade já nas páginas do princípio, para que seus futuros personagens possam aproveitar-se de uma atmosfera mais densa.

"Azul e sombra" funciona bem como estréia, Marília Passos demonstra que é uma escritora de coragem, não foge dos temas relevantes de seu tempo, o homem contemporâneo então em questão. Como Ricardo, nós homens estamos perdidos sem o olhar que nos retira das sombras monumentais, a crítica é inteiramente pertinente, frequentemente somos um caco mal montado de carne e osso que vibra enclausurado diante das mulheres. Por mais que Ricardo tente, não engana ninguém, toda e qualquer mulher onisciente sabe: está condenado à luz de sua criadora. Uma luz que escreve, tem nome e neste romance se chama de azul.

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