quarta-feira, 23 de julho de 2014

Dicas práticas para a criação de um Estado













Diz Noam Chomsky que os Estados Nacionais são ou serão a nova fronteira deste mundo, onde os cidadãos, transformados em meros consumidores pelas poderosas megacorporações supranacionais, travarão contra essas a milenar luta pelas questões que dizem respeito a todos os homens. Nada mais pertinente então que comentar o ato heróico de Jeremias Heaton, americano que fincou uma bandeira desenhada pela filha de sete anos em Bir Tawil, território localizado em algum ponto entre o Egito e o Sudão (não reinvindicado por nenhuma dessas nações), acabando por fundar assim o Reino do Sudão do Norte, razão pela qual espera que sua filha Emily seja reconhecida como princesa.

Encantado com a iniciativa de Jeremias, eu não poderia deixar de parabenizá-lo aqui pela conquista empreendedora e aproveito para expedir via internet, por meio desta crônica, minhas dicas para que o Reino do Sudão do Norte vingue diante do julgamento da comunidade internacional.

Jeremias, a primeira coisa a ser feita é pôr de pé uma delegacia, projeto básico, não precisa muito, precisa conter uma mesa e uma espaçosa cela. Direcione o grosso deste primeiro investimento para a compra de armas, que não se estabelece hoje uma autoridade sem o apoio de uns bons e modernos rifles automáticos, algemas e facas de porte. Uma bazuca também é essencial, para a defesa de seus poderes de Chefe do Estado, no caso de insubordinação dos oficiais delegados é só mirar na delegacia e mandá-la para os ares.

Resolvida a questão da delegacia e de seus oficiais, recrutados entre os interessados de todo o planeta, urge executar outra tarefa da mais alta importância (importantíssima), é a hora em que se vasculhará todo o território atrás de súditos que deverão ser conscientizados da nova realidade: terão agora que recolher impostos. Esta etapa do processo de criação de uma identidade nacional é vital e tudo precisa ser feito para que se evite a violência, o novo cidadão tem que ser informado das enormes vantagens de fazer parte de um Estado Nacional, terá para sempre quem construa escolas, hospitais, quem construa estradas, quem trabalhe pela ordem pública em seu favor. Tais promessas devem bastar para que 95% dos súditos encontrados sejam convencidos, nos outros naturalmente será necessário baixar a porrada. Um tempinho de cadeia para esses também não será mal.

Depois desse recenseamento territorial, com os coletores de impostos atuando firme, será preciso decidir o que fazer com a riqueza arrecadada. É claro que o único projeto possível para um governante responsável é forjar o símbolo do poder adquirido, que deverá brilhar incontestável para o fascínio e o reconhecimento das massas: erguer-se-á um suntuoso palácio, vasto, rico, que ateste a grandeza do reino e a beleza de seu propósito. Hordas de jovens ávidos pelos empregos correrão para os guichês de contratação, loucos por empreitada que lhes pague um bom salário. Salário bom, pequeno, aquilo que der, nada de mais, o bastante para que eles retornem à noite para suas casas e possam dizer para seus pais contentes que já têm emprego e não vão mais desperdiçar o tempo de suas vidas namorando sob o céu ou virando uma na birosca da esquina.

Quando o palácio estiver pronto, será o momento de divulgar a façanha e para isso será convocada a imprensa internacional, para que ela ateste as qualidades de seu Estado e de seu povo admirável. Registra-se a nova pátria na Organização das Nações Unidas e pronto.

Creio que depois destas providências, Jeremias Heaton, a máquina funcionará sozinha. É óbvio que vez ou outra Vossa Majestade terá de lidar com eventuais distúrbios e com as graves ambições de alguns aliados, correrá algum perigo verdadeiro, terá que agir com sabedoria, prender um aqui, outro ali, punir de forma exemplar os mais abusados. Receio que sua posição será um tanto instável enquanto não houver democracia, mas Vossa Majestade poderá adiar bastante essa decisão, basta pensar bem na sucessão e conseguir um bom casamento para sua filha.

O povo será com certeza louco pela princesa.    

Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Leia esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com/

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