sábado, 14 de junho de 2014

Resenha de "Adeus às armas", de Ernest Hemingway

A Bertrand Brasil prestou um grande serviço à comunidade ao reeditar este e outros romances de Ernest Hemingway. O projeto gráfico da coleção é simples e bonito, inteiramente pertinente à obra do célebre autor norte-americano. Em "Adeus às armas", 402 páginas, Papa Hemingway apresenta sua versão da Primeira Grande Guerra Mundial: irrompe no texto de 1929 o assombro daqueles campos de batalha, que fez tremer tantos e pobres soldados, condenados pelo homem a matarem-se mutuamente. O livro narra as aventuras de Frederic Henry no front italiano durante os momentos finais daquele confronto, que cerca por todos os lados o jovem tenente e Catherine Barkley, a enfermeira por quem se apaixona. Apesar da guerra, os dois amantes entendem que não têm outra escolha senão viver seu amor e tentam vivê-lo da melhor forma possível, com toda a esperança de que são capazes.

Aquele que se aventurar por este clássico da literatura mundial será apresentado à impotência dos soldados diante da cadeia de comando, perceberá sua revolta e o medo que sentiam da punição que o exército impõe aos desertores. Não há piedade alguma na guerra, nem mesmo para os apaixonados, os amantes que se contentem com emocionantes juras de eterno amor. O ódio conquista o território e ninguém pode vencê-lo, talvez se possa escapar dele, fugir pelo mundo atrás de uma utópica felicidade. Vencer neste romance não é assassinar o inimigo com um tiro no peito, nem mesmo enfrentá-lo a baioneta com estóica coragem, vencer em "Adeus às armas" é evitar o sacrifício e buscar o amor, é atrás dessa vitória que o tenente Henry quer seguir. A mulher que ama é a enfermeira Catherine, que trata dele durante uma licença médica em que precisa curar seu joelho quase destroçado por um morteiro.
   
Gostaria de poder contestar o amor que une o casal, demasiado doce e meigo para os tempos ególatras em que vivemos. Mas entendo que ele foi de fato a resposta que a realidade da guerra exigia da nossa humanidade. Contra o horror das mortes e mutilações, um amor que se projeta tanto no outro que tende a causar estranheza no duro coração contemporâneo. Hemingway parece dizer: o amor encontra seus caminhos sempre. E é assim que o mestre autor nos atinge em cheio, com um casal de apaixonados perdido na Itália das trincheiras e bombardeios, um amor que emociona ao resistir contra o desespero, tentando sobreviver enquanto procura as fronteiras além das quais a vida adquire o sentido de uma paz perfeita.

A soberba de nosso tempo pode impedir que o leitor visite o passado retratado em "Adeus às armas" e chegue a esta minha conclusão. Mas ela é para mim imperiosa: quando os sentimentos que nos são mais caros parecem sumir no lamaçal da violência, ergue-se como a única sabedoria possível um amor profundo e puro como o do tenente Henry e da enfermeira Catherine. Serão testados, porque a guerra não os tolera, poucos serão os que abrirão para eles caminhos no terreno malogrado da devastação. Estarão sozinhos, chegarão até as últimas páginas sozinhos, como se fossem na verdade os dois únicos merecedores do que restava daquele mundo.

Publicada no CABANA DO LEITOR. Confira esta e outras resenhas em http://cabanadoleitor.com.br/

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