domingo, 29 de junho de 2014

Ela é insana

Vou chamá-la por aqui de a insana, prosônimo que a galera lhe concedeu depois de muito admirá-la enquanto dançava nas pistas de dança. Nós a encontrávamos na pista quase sempre, quase porque de repente ela sumia e os espertos já sabiam, não valia nem a pena gastar o tempo de azaração procurando: alguém já tinha chegado nela e recebera um sim, fora o casal portanto para lugares mais escuros, curtir tranquilamente o amasso.

Azaração, chegar nela, amasso, que palavras! Ainda se diz isso? Esta crônica começa me custando caro.

Acho que da minha galera ninguém pegou (olha mais uma palavra: pegou), pelo menos não me lembro, teria que promover uma enquete para descobrir, longe obviamente das respectivas esposas. Lembrar por que a chamamos de insana também é difícil, da minha parte creio que por causa do jeito incrivelmente sensual, parecia não fazer força para causar essa impressão, dançava assim, caminhava assim, até falava assim, e deixava o pessoal louco com o seu desfile pela noite.

Lembro de ser um adolescente bobão com os hormônios à flor da pele e um dia eu e a insana pegamos o ônibus juntos a caminho da praia. Sentamos lado a lado no coletivo e demoramos a trocar conversa, eu realmente fui um tímido e não sabia o que conversar, por qual assunto enveredar na prosaica intimidade do banco de um ônibus. Acabei dizendo qualquer coisa e a conversa fluiu mais ou menos, eu suando a rodo. Sempre achei desde moleque que conversar com garotas fosse difícil, com homem se falava de futebol e mulher, com garotas se falaria de quê? Não sei até que ponto essa dificuldade forjou minha atual condição de cronista, acho que tem tudo a ver, aprendi a contar histórias, concluí então que era do que as garotas gostavam.

Os anos passaram e eis que na última semana encontro a insana no supermercado, brincando com a filhinha que senta sorridente sobre o carrinho de compras. Uma cena banal de nosso tempo, amadurecemos, mas nenhum sinal de marido ou namorado à vista, eu mais experiente, mais senhor de mim, mais seguro? Só rindo. Não consegui dizer nada, foi como se voltasse ao banco daquele ônibus, foi pior, não esbocei outra reação que o olhar babaca de quem a desejava desde o passado. Sim que conversáramos uma vez no ônibus durante uma ida à praia, tínhamos já algo em comum, eu com minhas histórias na cabeça... Que nada! Diante daquela bela mulher, serena em seu hábito de fazer as compras de supermercado, travei com o mesmo jeito adolescente de um dia. Que ela tivesse marido ou namorado, que ele marcasse nossa conversa bem de perto, teria sido muito mais digno.

Certamente a insana no supermercado pensou: esse continua o mesmo, continua me fitando com o mesmo ar guloso, o tempo é engraçado, umas coisas nunca mudam. Pensou com toda razão. Como é difícil admitir, não mudei no fim das contas, continuo sendo o mesmo tímido da adolescência, diante daquele ser de desejo eu calava feito um menino. Pior, se fosse menino, daria as costas para ela e sairia correndo atrás de uma bola, que estamos em plena Copa do Mundo. Diante da insana eu voltei a sofrer com as espinhas e com o corpo de magricela, com meus silêncios estúpidos e com minha cruel ignorância. Que experiência o quê! A experiência foi para o espaço naquele supermercado, foi parar em Marte, foi parar em Júpiter, como se não houvesse qualquer assunto possível entre nós dois. Que eu tentasse o mesmo assunto daquela manhã no ônibus... quando sentamos lado a lado e conversamos sobre algo, lembrança que na época serviu como um tesouro, porque à noite nas pistas de dança, enquanto outros a conquistavam, eu ao menos com aquele triunfo podia combatê-los secretamente.

Quando saltamos do ônibus naquele dia de nossa adolescência, seguimos cada um para um point diferente da praia de Ipanema. A praia ficava ainda mais incrível quando ela mostrava o seu biquíni.

Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Confira esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

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