quinta-feira, 12 de junho de 2014

Cavalos











"vou nos poros das curvas,
não escapo do colo branco
nem do umbigo pintado    
com as cores do Brasil."

Eu esperava o ônibus na Cinelândia, pensando no que fazer com o resto do meu dia, quando passaram os peêmes montados a cavalo, em ordenadas fileiras de três, ocupando uma das faixas da avenida Rio Branco. Não consegui ignorar os cavalos, que animais de império!, passavam impondo aos motoristas e pedestres uma aura majestosa, a boa impressão vinha dos tempos das carroças, de antes das carroças. Coisa muito antiga.

Faz um tempo estive no Hipódromo da Gávea e lá a aura era outra: nas corridas o cavalo adquire uma aura de puro atleta, os músculos não estão sujeitos à parca mobilidade de um batalhão de polícia em desfile pelas ruas, lá o cavalo não é imagem que intimida, no hipódromo os cavalos são postos à prova, seus corpos em close se movem inteiramente, quase se podem sentir seus gigantescos corações bombeando sangue por todas as artérias e veias. E lá eles competem entre si, existe um sentido honesto nos cavalos que correm, que é obviamente diferente de quando eles são lançados contra tumultos. Para as corridas eles são bem cuidados, são empurrados por um pequeno jóquei em direção ao disco final, à glória da vitória. Contra os tumultos, não há o que dizer, é claro que não existe glória alguma, muito pelo contrário.

No hipódromo o pessoal aposta nos animais que farão a diferença nos páreos, uns ganham dinheiro com os azarões, outros jogam dinheiro fora com os favoritos. É uma lógica um tanto perversa, mas os cavalos seguem correndo, como se alheios à jogatina, os melhores querem mesmo é ganhar. Como é que será que incutem uma vontade vencedora no coração de um cavalo? A maior parte dessa vontade já nasce com ele, eu acho que sim, aposto que gostam de correr, mas os prados, cadê os prados? Incrustado na zona sul carioca, ao lado da Lagoa Rodrigues de Freitas, o único prado desta cidade é um jockey clube que aceita apenas sócios de quatro cascos que corram para vencer. Para dar uma corridinha ali sem compromisso não dá. Sacanagem com a maioria dos cavalos.

Na minha última experiência sobre o lombo de um cavalo descobri o que é essa tal corrida dos cavalos, a égua disparou com um de meus pés fora do estribo, eu no risco de uma queda séria, fomos assim cem metros até que a valente resolvesse me dar sossego. Naquele breve trajeto, ainda que com um medo terrível, pude sentir o vento frio no rosto, a paisagem da serra se deslocando, a comunhão com o vigor daquela égua. Ficou na memória. Junto com as emoções do tempo de criança, em que meus pais permitiam que eu passeasse montado sobre os cavalos mansos de Vassouras, no interior do estado.

Nunca fiz amizade com nenhum cavalo, cavalo de quatro cascos, durante a minha vida conheci alguns médiuns que se diziam cavalos. Esses eu sempre achei um pouco estranhos, receber os santos os deixava com as costas rígidas, os olhos saltavam das órbitas e os braços cumpriam movimentos desnecessários. Serviam às entidades com gosto, haja tensão!, não vou julgar, mas mantive meu ego afastado. Em uma noite de muita bebedeira, um amigo ator resolveu imitar um cavalo recebendo santo, mandou muito bem, quase lhe dei um tapa na cara.

Cavalos de personalidades famosas tiveram nomes que também entraram para a história: Incitatus de Calígula, Bucéfalo de Alexandre, Rocinante de Don Quixote, Herói do Fantasma, Tornado do Zorro. Lembro que houve um superdotado nos anos oitenta que se chamava Itajara e  ganhou tudo pelos hipódromos do país, tanto que seu nome saltou das páginas do turfe para a consciência coletiva do grande público. Aposentou-se em 1987 e deve ter vivido seus últimos anos no luxo, comendo ração quentinha, inseminando éguas lindas e gerando uma prole igualmente extraordinária. Nada mal para um cavalo, final feliz.

É o que eu desejo de coração desta Copa que amanhã inicia.

Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Confira esta e outras crônicas em http://rubem.wordpress.com/

Nenhum comentário:

 
;