domingo, 4 de maio de 2014

O início, o fim, eu no meio









"quer me ler, não quer me ler
quer ou não quer, diga sim
quer o jantar frio na mesa?"

(Imagem:http://bastaqsim.blogspot.com.br/2010/08/plataforma-democratica-em-uma.html)

Recentemente acompanhei a inauguração da lápide do pai falecido de um amigo. No mesmo dia, nasceu a filha de um amigo meu, mas acabei não indo visitar a recém-nascida na maternidade. Outro amigo observou então, ainda no cemitério, que era uma dádiva o meu dia, pois no espaço de vinte e quatro horas eu testemunhava o fim de uma vida e o início de outra. Sou um cara meio durão e desatento, o presente não me ocorreu na ocasião e o comentário acabou ficando para hoje.

Apesar de não ser bem um religioso, eu aprecio igrejas, especialmente quando vazias, é um ambiente que me fascina bastante, o silêncio, a atmosfera de introspecção. Pasmem mas o mesmo posso dizer de cemitérios, não chego a meditar por lá, pois me parece bastante medonho, apenas deixo a solenidade das cerimônias de luto me impressionarem. Penso nas tradições que cultivamos, no momento do fim elas trazem um conforto danado, aquelas regras tentam nos mostrar o caminho da paz, faça isso e faça aquilo, quem sente o transtorno de perder um ente querido certamente agradece.

Não estou falando das necessárias questões que envolvem dinheiro, chamo atenção apenas para essa paz que acolhe a ausência,  não esquece,  acolhe. Chega o momento em que temos de buscá-la, nem que seja para compará-la com o nosso estado de espírito, que anuncia claramente: é o fim de todos nós. Tenho amigo que diz não temer a morte, eu tenho um medo terrível dela, mas acredito que ao vislumbrar seu sorriso indescritível só nos resta sorrir-lhe igualmente de volta. Rapidinho, que manter a pose por muito tempo no caso pode não ser uma boa política.

Já quando entro em uma maternidade, o assunto é outro: é a explosão do universo desta vez se manifestando diante de mim, tive a oportunidade de cobrir um parto quando fiz uma matéria para o jornal do meu bairro, o bebê não era meu e ainda assim a emoção foi  incrível. As mães são criaturas abençoadas e não há elogio que torne aquela hora mais verdadeira, de uma simples barriga nasce outra chance para nossa humanidade, surge uma nova história que será escrita com amor e vontade, com determinação e temperança. O mundo precisa, o que seria de nós se não fosse a vida a mover as cordas a cada nascimento, alimentando a eterna cadeia de eventos que nos trouxe até aqui? Tudo muda, mudamos nós.

Um bebê, dois bebês, três bebês e teremos uma turma boa que frequentará os mesmos playgrounds, os campos de pelada, as academias, as corporações. É natural achar que vai dar merda, já deu por muito tempo, mas quem sabe? Talvez essas crianças se deem conta que no planeta cabem todos comendo muito bem se repartirem o pão, que a natureza pode ser a maior aliada da espécie se tratada com respeito, que violência conduz à violência sempre, e que de boas intenções o inferno está cheio.

Como conviveremos com crianças assim? É uma resposta que nos escapa, serão os novos revolucionários? Serão importantes reformistas? Serão vítimas dos jogos vorazes que poderosamente praticamos do nascer ao pôr do sol de cada dia? Brincamos de criá-las sem saber o que vai acontecer, são lindas criaturas que emocionam desde que nascem, mal sabem que precisamos delas com fervor de perfeitos fanáticos, queremos para elas as maiores felicidades. Fazemos tudo por amor.

Por amor nos deu lindas mas também terríveis histórias, não quero lembrar o que já fizemos em nome do amor, dá tanta coisa que a balança poderia tombar, para qual lado não se sabe. Sei que continuamos por aqui, o que é um bom sinal.

Quando nasce um bebê, nascemos e o melhor ser humano que há em nós segura mais fortemente o bastão. Só que muitas vezes não. 

PS.: Parabéns à Editora Oito e Meio, pelos três anos de idade completados ontem, o trabalho foi bem feito. 

Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Confira esta e outras crônicas em http://rubem.wordpress.com/

2 comentários:

rita bivar disse...

Excelente crônica. Adorei e me identifiquei embora goste muito do futeboll do Brasil. Oxalá tenha sempre um cronista como voce de plantão quando quero algo novo. Sucesso!

Marco Antonio Martire disse...

Valeu, Rita! É bom ver a galera de Manaus por aqui, tenho fascínio por essa cidade. Qualquer dia desembarco por aí.

 
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