quinta-feira, 29 de maio de 2014

Halls











"tem o corpo que viaja pelo Atlântico
e tem pernas que sacodem fora as areias do mar."

Perto de casa tem a banca de jornais que vende a um real e vinte centavos. Já na rua onde trabalho a concorrência é maior e os preços variam: lá tem outra banca de jornais onde se vende o drops de Halls por um e cinquenta; cerca de cem metros depois, duas barracas de camelôs disputam os que consomem balas e biscoitos, uma vende o Halls a um real, e a outra vende a oitenta centavos. Escolher entre tantos pontos de venda é difícil, embora a escolha pareça óbvia, se os produtos são iguais, compra-se no mais barato. Mas nem tudo é simples, explico os meus porquês.

Pensar na diferença de valor (que chega a quase 100%) é inevitável e nestes tempos em que os preços enlouqueceram soa como obrigação cívica. É preciso combater esse abuso a que o cidadão está exposto, tem gente querendo enriquecer usando a lógica do bilhete premiado, e o bilhete premiado somos nós, os desavisados que ousam comprar os mais simples artigos sem antes consultar os preços. Estou falando para o sujeito comum. Se o leitor é daqueles sortudos que trocam de carro ano a ano e despertam já no fim da manhã com um mergulho refrescante na piscina, vai ter que desculpar a modéstia deste cronista. Não, não é o caso de sorte ser defeito, mas é que adoro Halls desde a infância. Também refresca pra caramba.

Minha preocupação com os preços do Halls reflete a impressão que tenho da economia, mas tem a ver também com meu jeitinho de fazer as coisas, eu compro Halls muitas vezes sem olhar o preço. Já paguei até três reais por um drops de Halls no cinema, mas então era para ver um filme, caso de necessidade, quem é que consegue não saborear uma bala durante uma sessão de cinema? Dá até neurose isso.

A banca perto de casa tem a qualidade de ser salvadora, é a ela que recorro quando preciso de uns trocados para o ônibus, mando um vintão no Halls e o jornaleiro não reclama, volta o troco que garante a condução de metade da semana. Nunca tentei com cinquenta, acho que seria sacanagem total com o trabalhador, o que eu teria que comprar para o jornaleiro me voltar o troco de uma nota de cinquenta com gentileza? Com gentileza, que é o que eu peço pelas manhãs, quase tão bom quanto um banho de piscina, fica longe só do mergulho no mar. Pelo mar eu poderia suportar a cara feia do jornaleiro.

Quando os trocados do ônibus estão em ordem, fica o dilema adiado até a chegada no trabalho. A banca de jornais lá é a que tem o preço maior, mas fica mais perto e aí entra em ação a lógica que me conduz pela calçada, meu tempo parece cronometrado, minha energia está calculada, caminhar cem metros atrás de um desconto de centavos parece um esforço com o qual é impossível lidar, o que manda é o comando da pressa a concluir que a diferença é irrisória.

É preciso ser cidadão para avançar pela calçada até as barracas dos camelôs, quem faz isso ou parecido, com o mesmo espírito de economia, mereceria ser ministro e poderia até ostentar respeitosamente terno e gravata diante das câmeras de tevê durante o Jornal Nacional. Pobre do cobrador de impostos, desse meu jeito acaba perdendo o emprego! Mas quem é que pensa na sua viúva?

Pois diante das tais barracas dos camelôs fico com a última dúvida: compro a um real ou compro a oitenta centavos? Eis minha última resposta: as moedinhas de centavos são um saco, quase não servem mais para nada, só para ficarem tilintando no bolso de trás da calça. Quando não tenho paciência para elas, compro a um real. E lembro de Pedro Luis & A Parede que cantavam: é um real aí, é um real aí, é um real. Agora só o Halls.

Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Confira esta e outras crônicas em http://rubem.wordpress.com/

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