sexta-feira, 18 de abril de 2014

O relógio













"vinha às seis da tarde fotografar meu juízo
com um jeito quente e guardava o sol o sol
de cada imagem nos olhos amendoados."

(imagem: www.colorindodesenhos.wordpress.com)

Aquele homem não perdeu só o relógio. Era professor de educação física, o que me leva a imaginar que cultivava uma relação prazerosa com o corpo e o espelho, que ao acordar nascia dentro dele todas as manhãs o sentimento de dever para consigo, aquela resolução silenciosa que nutre o sujeito de autoestima enquanto o carrega para a academia.

Sabe-se lá porque usava relógio, talvez fosse presente da mulher e tenha sido dado durante uma festa de aniversário com a turma. Entre goles de cerveja e petiscos (cujo consumo controlava com a moderação de um atleta) recebera o presente todo contente, vaidoso, uma peça que era praticamente uma jóia. Retribuíra o mimo da esposa com o que se conhece dos apaixonados: beijos, abraço, a turma da festa zoando o amor do casal. Aquele homem não perdeu só o relógio.

Em "Os imperdoáveis", filme dirigido por Clint Eastwood, último faroeste a ganhar um Oscar de melhor filme, isso lá em 1993, o pistoleiro interpretado pelo velho Clint diz: "é uma coisa terrível matar um homem. Mata-se também tudo o que ele é, mata-se tudo que ele poderia vir a ser."

Mas não estamos no velho oeste, estamos em uma metrópole civilizada onde as coisas custam os olhos da cara. Chegará o tempo em que custarão mesmo, seremos ameaçados pela possibilidade de perdermos os olhos com que nascemos, olhos que irão sobreviver no rosto de um safado capaz de pagar o preço do mercado negro. Adotaremos então como defesa óculos escuros até em noites de chuva.

Por enquanto, os marginais procuram pelos relógios. Acredito que sejam fáceis de levar, o bandidinho se aproxima e arranca o relógio do pulso alheio com movimento treinado, foge em correria. É a melhor forma de ser roubado, não existe quase contato, fica só o susto, a perplexidade de se descobrir inerte em meio à multidão que prossegue. Outra forma de perder o relógio é ser ameaçado de frente com alguma arma, quem controla o preço que sujeitos perigosos põem naquela peça que se usa com capricho no pulso? Dê-se uma chance de contestar o preço e diremos que o relógio não vale nada, pode levar, pode levar, qualquer um quer mais é momentos como aquele em que o recebeu de presente, quer mais beijos, mais abraços, mais carinho. Na hora do assalto, o valor em dinheiro salta rapidinho para o último lugar da nossa tabela, queremos é sair daquela encrenca com vida. O marginal vai embora com o relógio, foi-se o relógio, ficaram os dedos.

Mas o homem a que me referi no começo desta crônica não perdeu só o relógio, sua história mereceria um luto colossal, e em algum lugar desta cidade, talvez no local do infeliz assalto, o poder público deveria montar guarda de verdade, dia e noite, sem dormir, como punição pelo que deveria proporcionar ao cidadão e não proporciona. A história de um assalto com perda de vida fica tão banalizada no jornal que só com estatísticas ela ganha o efeito de exigir providências, ainda assim somente paliativos. Talvez um monumento.

Um monumento que honre o seu tempo. Chame-se o artista, escolha-se a imagem e ela expressará a relação entre os relógios em nossos pulsos e os anos que vivemos aqui na Terra. A obra terá que sobreviver ao sol e às horas cinzentas, à violência e à ignorância, terá que ser limpa sempre pois o público não vai tolerar vê-la pichada. Será um monumento maciço, que fará justiça a todas as alegrias de que o professor foi privado ao ser assassinado por causa de um relógio. Será mais um daqueles monumentos, teremos que esquecê-lo porque encará-lo será lembrar que não cobramos o suficiente as autoridades, será lembrar que do amanhã não temos notícia e que precisamos abraçar e beijar quem merece hoje, precisamos fazer amor com paixão hoje.

Aquele homem não perdeu só o relógio.

Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Confira esta e outras crônicas em http://rubem.wordpress.com/

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