quinta-feira, 3 de abril de 2014

A célula pequena















"eu não quero, por favor
vou ficar quieta,
não me machuque não." ***

A célula ficou pequena. A conclusão feita ao computador diante da planilha eletrônica no fim do expediente ganhou força inesperada no horizonte daquele início de noite. Como se escapasse das bancas de jornal fechadas, esta crônica veio rondar-me enquanto eu caminhava pela Avenida Calógeras em direção à Santa Luzia e então Cinelândia. A célula ficou pequena. Minha célula. Pequena?

Deve ser minha vaidade, eu pensei, gostaria de ser um gigante. As pessoas caminhavam apressadas, mesmo o ar circulava como quem não queria conversa, os passos da multidão atropelavam a reflexão, eu teimava. Seguiria dali para o meu apartamento, para a célula dos meus delírios esquisitos, teria sido o meu cantinho a ficar pequeno e provocar assim o sentido maior daquela afirmação? Talvez algum sonho tenha brilhado com a imagem de uma casa maior. Coisa antiga. A tendência hoje são cubículos de 35 metros quadrados, onde se acha que o inquilino poderia levar uma vida confortável. A célula pequena não podia ser minha casa portanto, tenho mais espaço lá.

O ônibus cheio reafirmava a minha necessidade de descobrir uma origem para aquele desconforto semântico, passei em revista as amizades. Posso ter conquistado pouco nessa área, um punhado de bons amigos, mas nas redes sociais consigo me comunicar com muitos outros seres, pessoas como eu, expandindo-se e retendo-se conforme os padrões de seus desejos e receios, cada qual em sua célula com seu microfone e suas caixas de som, falando, ouvindo, avaliando o quanto de si toma parte deste mundo. Somos todos células pequenas do enorme corpo social, tanta gente e justo eu querendo ser um improvável gigante. Procurei dentro do ônibus pela janela.

Escrever frequentemente isola o sujeito, não é uma obrigação, mas a célula costuma mesmo ficar menor, ler então nem se fala, ler e escrever requerem uma solidão sem igual, um vigia noturno é mais feliz mergulhado na noite perigosa com os olhos semiabertos. A célula pequena é necessária à concentração, que mede e liberta palavras para muito além de si mesma. É um paradoxo irresistível. Meu ônibus se inclinava nas curvas e eu junto com os outros passageiros, meu destino de manada, eu saio, bebo, converso, gosto de conversas boas.

Faz bem entender que inegavelmente o corpo a que esta célula pertence é o planeta Terra, para a maioria de nós traz uma exigência de respeito, de consciência. Nas viagens continentais tão comuns a célula se expande com o conhecimento que acumula das culturas, o planeta é um caldeirão onde se tocam todos os costumes, as histórias de 7 bilhões de pessoas. Uma célula pequena talvez precise viajar.

Saltei do ônibus no meu ponto, uma curta caminhada me aguardava até em casa, o povo se distribuía pelas calçadas, uns academia, outros supermercado. Eram os últimos afazeres antes de se entregarem a uma janta perfeita. Depois da janta, a cama, onde me recolhi ainda incerto quanto ao meu tamanho.

Eu sou a célula que brilha dentro de mim cheia de vida, em mim que sinto medos de doença grave. A célula que sou exigia mais do dia seguinte, mais que o trajeto de casa para o trabalho, talvez fosse pequena porque sua vontade demandava aventuras, viva a liberdade como algo novo, era a sua máxima. A cidade se oferece para todos os bolsos, pela manhã esta célula seria outra.

É a estratégia do sono, é quando ele costuma chegar, impedindo que os ventos da criatividade soprem sobre a imaginação de quem considera sua célula pequena como aquela da planilha eletrônica. Será que viria alguém doutrinar-me enquanto rebelde? Psicólogos, economistas, artistas, querendo-me sossegado? Esta cidade tem o mar de paixões que fervem, tem os bares onde as conversas se complicam, tem cinemas e teatros onde as nossas histórias são contadas. Procurei resistir ao sono, inquieto quanto ao que fazer com esta célula inteiramente pequena com ares de gigante.

Então levantei-me, apaguei a luz do quarto. Uma noite longa me esperava, passei a noite acariciando minhas ilusões estimadas e meus sonhos tão secretos.

*** O poema é de protesto: mulher nenhuma merece ser estuprada.

Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Confira esta e outras crônicas em http://rubem.wordpress.com/

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