domingo, 23 de março de 2014

Para sempre









"Imaginei sentir nela a bravura de minhas paixões."

E viveram felizes para sempre. A frase povoa o universo das fábulas que tanto li durante meus primeiros anos, dava a entender que a vida seguiria a partir daquela expressão simplesmente reta e alegre. Em si é uma afirmação perfeita, quer expressão melhor que o "para sempre" a substituir o término da jornada, o nosso encontro com aquela deusa vestida de negro e armada de uma foice? O "para sempre" viceja tão carregado de belas coisas e sentimentos que fica difícil não ansiar por ele, vivemos em busca do "para sempre" o tempo todo.

O ser humano alimenta uma obsessão pela eternidade, assim nossos amores são infinitos, nossas obras têm que ser perenes e as idéias têm que ser permanentes. Temos pouca ou nenhuma predileção por mudança, refiro-me à mudança que significa realmente algo, não me venha com essa de que trocou de celular. Existe um tanto de árvore em nós, metemos nossas raízes no mundo e esperamos que advenha o melhor, assim metemos o "para sempre" em nossa história sem parar, não mexa!, quero que fique desse jeito, está tão bonito.

A estratégia costuma ajudar enquanto não vêm as tempestades. Quando sobrevêm as paixões humanas com sua carga de irracionalidade a ilusão se desfaz. Somos quebradiços, somos poeira cósmica, somos uma estrutura de células coesa graças ao acaso da evolução. Deus é fé, é a eternidade falando, o povo adora. Acontece que a luta pela sobrevivência afasta o "para sempre" terrivelmente, sofremos, pois ninguém aceita o  perrengue de não saber o dia de amanhã. Claro está que nunca se sabe mas a ilusão tem demanda.

No clássico do cinema "A felicidade não se compra", o diretor Frank Capra põe o pessoal para pensar, assim como o personagem George Bailey, que lamenta a própria sorte parado em uma ponte, flertando com as águas ferozes do rio. Seu "para sempre" lhe deu uma família, mulher e filhos adorados, porém sua ambição da juventude exigia muito mais, viagens, aventuras no estrangeiro. Em um momento de extrema dificuldade, George questiona amargamente suas escolhas, a tarefa do seu anjo da guarda é recolocar seus sentimentos no rumo certo. Seu "para sempre" precisa ser restaurado, do contrário é infeliz.

Outro filme que trata essa idéia é o recentíssimo "Nebraska", de Alexander Payne. Não há "para sempre" que resista no coração de um senhor idoso quando ele acredita ter ganho na loteria, contra todos da família ele parte determinado em busca de seu prêmio ilusório. Mas engana-se quem pensa que o velho ruim da cabeça quer mudar de vida, não quer, o que mais emociona é ouvi-lo dizer que persegue o prêmio para que possa deixá-lo para os filhos.

Não sei quanto a vocês, mas eu às vezes fecho com o "nunca mais". É uma resposta àquela repetição que nos faz mal porque contém péssimas experiências, sinto que essa expressão também anda comum por aí. "Para sempre" ao menos carrega uma esperança, que coisa boa a esperança! Viver é muito mais um exercício de esperança do que negação pura e simples. Mas diante de tantos estímulos nocivos, saber negar possibilidades que surgem a cada instante é uma sabedoria valiosa. Eu aceito.

Só não aceito que ponham a culpa do "para sempre" errado nos escritores, nos contadores de histórias, nos roteiristas. A imaginação também é rainha do cotidiano e todos são responsáveis por sua própria história, as escolhas têm seu preço, que muitas vezes não desejamos pagar. A vida é tão plural que comporta os mais loucos amores, as mais insanas ambições e os maiores desatinos, que cada um encontre a sua resolução e encaixe o seu "para sempre" no lugar certo, no lugar que ele merece, o que não é fácil, mas vai uma dica: o "para sempre" costuma ficar logo antes do ponto final.

Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Confira esta e outras crônicas em http://rubem.wordpress.com/

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