quinta-feira, 6 de março de 2014

De volta ao Maracanã












"a camisa mais bonita salta na arquibancada,
é o meu desejado gol, o encontro
os beijos que escurecem as luzes refletoras."

Fim da reforma do Maracanã e o velho estádio Mário Filho passou a exercer uma atração gigantesca, como se eu fosse nesta cidade e perto dele um corpo no espaço sujeito às leis de gravitação universal. Só me restava obedecer à lógica de sua massa incontestável e atravessar a cidade até aquele ponto nevrálgico, onde multidões de torcedores se rendiam ao seu apelo formidável.

Bastava escolher um jogo, deixei passar a Copa das Confederações, tinha que ser portanto o segundo jogo do meu Flamengo na Libertadores. Feito uma estrela, o Maracanã brilha naquela região da cidade, os arredores se iluminam desde os bares próximos até os mais afastados. Fui parar no Siri antes do jogo, fui conferir a quantas anda a qualidade da casquinha famosa, fui apreciar também o camarãozinho no alho. A mente não fugia da partida, do meu time, do estádio reformado.

Em outra era o Maracanã foi o maior do mundo, dizem que couberam ali duzentos mil torcedores, isso em tempos em que a cidade não tinha metade do seu atual tamanho. Fico imaginando o seu impacto no trânsito da época, não sei se há relatos, enfim não se queixavam. São os novos tempos, crescemos e infelizmente o poder público apenas finge que percebeu, a cidade sofre com os congestionamentos diários, sem aviso, em qualquer lugar. Naquela noite, contudo, o trânsito até que fluiu direitinho, não sei se me acostumei com o mal, a cidade estava tranquila.

Era uma noite serena, a partida seria tarde, e ao leitor já ocorreu certamente que esse programa não é para qualquer um. Não é mesmo, o preço do ingresso dói, depender de táxi dói, só não doem a casquinha e o camarãozinho do Siri, eu trabalho para isso. Mas o povo mesmo tem que assistir pela televisão, o Maracanã perdeu fiéis.

Vai precisar ganhar outros, uma galera capaz de arcar com a despesa de um estádio que sempre foi conhecido pelo custo alto de sua operação. Antes o torcedor que pagava uma graninha para ver o seu time era praticamente jogado na arquibancada, onde péssima educação, hostilidade e a sujeira do espaço faziam uma combinação difícil de suportar para quem sonhava em levar a família. O Maracanã de hoje encorpou com os serviços, há quem trabalhe para que a entrada seja ordeira, na passagem para a inferior leste montaram uma área que lembra um complexo de cinema, quem vai se surpreende, nada a ver com a arena que conhecíamos, até o banheiro é banheiro de gente. Civilização padrão FIFA.

Inclusive nos preços do cachorro-quente, da pipoca, da água. Cerveja só sem álcool, na Copa a cerveja normal vai comparecer. Cigarro não vi ninguém fumando, se sair da arquibancada sem camisa o pessoal pede para vestir a camisa. Cadeira mais ou menos limpa para sentar, esqueça o lugar marcado (ainda bem!), quatro telões enormes que não reprisam os gols, o gramado tão pertinho que dá para olhar no olho dos que de costas para a partida observam a torcida. Não achei o tradicional cara do radinho, sempre tinha um cara com o radinho no ouvido passando informações, o radinho é da hora.

Mas a questão da torcida dá o que pensar, desprovido das camadas populares, que tal será esse novo público do Maracanã? Mais consumista e educado, terá que ser igualmente apaixonado. Você que conhece o Maracanã de outros carnavais sabe, o show é da torcida. É por causa dela que o sujeito gasta o que poderia economizar, é por causa dela que eu estufo o peito ao vestir o manto sagrado, é por causa dela que a gente se rende com gosto à atração pelo estádio. Seja qual for o duelo entre os times idolatrados, tomara que o novo público do ex-maior do mundo esteja à altura da tarefa. Caso contrário, o que será dos nossos jogos de futebol? Não tem jeito, será preciso paixão.

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