sábado, 22 de fevereiro de 2014

Rio diferente em 2050




"encontra tatuagens
e o corpo no protesto
beija a praça brilha
o mar sal no dorso."

Agora que alcançamos 2050, posso dizer que a cidade do Rio de Janeiro está diferente. O calor continua igual, verão é assim sempre, mas seria injusto não comentar que caminhar a pé pelo meio da avenida Rio Branco foi uma conquista para os pedestres. Entre os prédios altos, aquele largo vale de árvores onde se convive com skatistas radicais e ciclistas velozes, aquele vale tecnocrático brilha, ainda que os mais sortudos já não frequentem tanto o centro da cidade, preferem trabalhar de casa em contato virtual com seus colegas e as empresas. Talvez por isso a região esteja outra vez largada, há pichações, mal-educados mijam nas raízes das árvores e o pessoal faz queixa da ameaça constante dos pivetes.

Outra diferença: gosto de ver o veículo sobre trilhos cruzar aquela região, vir do aeroporto internacional naquele ritmo engasgado de trem chinês e alcançar o que foi um dia o nosso outro velho aeroporto. Tão antigo o aeroporto que transformá-lo em museu da aviação também foi uma boa sacada. Os pobrezinhos que nunca viajaram de avião podem sentir hoje o gostinho de se erguer no ar durante vinte minutos à bordo daqueles mostrengos de sei lá quantas toneladas, o avião decola, voa uns vinte minutos e volta, até festa neles se faz, o povo aluga o monstro, se embriaga e pousa feliz da vida. A garotada que eu conheço adora.

Mas o Aterro do Flamengo não está legal, o movimento cresceu e o parque deu uma piorada, deixaram vingar as barraquinhas dos ambulantes e a quantidade de lixo triplicou de tamanho. É uma senhora diferença, a baía sofre e eu lembro que até hoje não conseguiram despoluir aquele nosso pedaço de mar. As tentativas custaram bilhões, uns safados enriqueceram, quanto de esporte o pessoal não praticaria naquelas águas? Hoje pretas, se fôssemos menos gananciosos estariam azulzinhas.

Hoje vamos de metrô até o Recreio e Jacarepaguá, mas obras nos morros nenhuma. Eu me lembro quando a polícia e seus especialistas tomaram algum espaço dos traficantes, a promessa era integrar as favelas nos morros à cidade. Pois a cidade continua partida, quem sonha com o bem-estar dos mais pobres? Nas favelas os poderosos policiais são de uma intolerância terrível com os cidadãos, todo dia morre alguém que a comunidade considera injustiçado, de vez em quando eles descem e queimam ônibus, aterrorizam quem ama se divertir nos shoppings. O rico continua o rico e o pobre continua o pobre. Digo isso porque o assunto aqui é a diferença.

O estádio do Maracanã, que reunia o povo de baixo e o de cima pertinhos um do outro, depois da Copa do Mundo de 2014 foi reintroduzido à rotina da cidade. Mas o valor dos ingressos subiu obedecendo a uma lógica de mercado insana, neste país do futuro obedecemos essa lógica sem questionar, ninguém levanta de um restaurante por causa do preço, a frequência do Maracanã deu uma elitizada.

E na praia, outro lugar que celebra o convívio da diferença, tiveram que construir os diques. O nível do mar tinha subido um pouco, foi comprovado, bateu então a compreensível paranóia na cidade, especialmente na gente endinheirada que mora de frente para o mar. A verba para os diques saiu rapidinho, os surfistas reclamaram para cacete, fizeram passeata contra o capitalismo e o escambau. Foi inútil, os diques mudaram a cara da nossa praia. Tem quem diga que ficou bonito, com o tempo a gente se acostuma.

O pessoal não se acostumou com as passeatas diárias? O Rio em 2050 mudou mesmo, toda hora se quer protestar, protesto para lá, protesto para cá. Bom mesmo se não houvese motivo para protesto e eu ouso dizer que ficamos diferentes mas ficamos iguais. Quer saber qual é a notícia do ano? Copa do Mundo por aqui de novo, dizem que em 2058. O pessoal da periferia não quer e reclama com toda razão, os preços dos aluguéis vão disparar.

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