quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

A coragem nossa de cada dia









"era a menina linda
o corpo de estocada
fora de meu peito
assustou o mundo." 

O tempo das cavernas já se foi e com ele os anos daquelas caçadas perigosas onde a coragem firmou-se como um atributo exclusivo masculino. Abandonamos também aqueles duelos idiotas em que o sujeito perdia a vida por causa de uma ofensa aparentemente ridícula. Avançamos: as mulheres estão aí mostrando que a coragem nunca foi tão feminina, e a questão da ofensa agora ficou para os tribunais, o ofendido leva para casa teu carro se o juiz estiver em um daqueles dias.

Está certo que as guerras persistem entre nós e é obviamente preciso ter culhões para enfrentar um campo de batalha com um fuzil nas mãos. Só que as guerras deveriam terminar como aquelas caçadas, como os duelos. A indústria de armamentos prospera no mundo, o que infelizmente diz muito sobre nós. Toda guerra é uma covardia danada, é aquela ação para impor pela força o que não conseguimos com argumentos razoáveis. Há exceções, é claro, há sempre quem precise se defender, mas defender de quê? Quem decide se ataca ou defende não costuma estar na linha de frente, eis o que desejo falar sobre guerras. Dois filmes que assisti recentemente expõem este ponto de vista: "Sangue de heróis", de John Ford e "Glória feita de sangue", de Stanley Kubrick.

Hoje eu lembrei do famoso rosto daquela menina afegã, estampado na capa da revista National Geographic em 1985, quando eu e ela  tínhamos mais ou menos a mesma idade. Seu nome é Sharbat Gula e vivia no Paquistão como orfã refugiada, escapando da ocupação soviética no seu país de origem. Em 2002, rodaram um documentário entitulado "Search for the afghan girl" e uma foto mais recente foi divulgada da Mona Lisa afegã. Procure pelas duas fotos na internet, compare. Eu acho que aquilo é coragem.

Fiquei longíssimo dela com minha experiência de outra noite, quando peguei um táxi em Ipanema e rumei em direção ao túnel Rebouças. Na altura do Corte do Cantagalo, sobre o viaduto, me deparei com um engarrafamento mas continuei concentrado nos livros que tinha comprado. Senti então o motor morrer, o táxi descer e o impacto da colisão contra o carro de trás. Minha taxista prosseguiria, não fosse a proprietária do carro atingido, que se colocou à frente do nosso veículo e vociferava impropérios, disposta a não nos deixar fugir impunes. Foi um conflito que irrompeu do nada, a taxista querendo prosseguir e aquela mulher agressiva, escandalosa, exigindo providências. Eu tinha um treino em meia hora e ela berrou que chamaria a polícia, então tomei minha decisão: paguei dez pratas à taxista e saltei do carro no meio do viaduto, entre os sons perturbadores das buzinas. A furiosa senhora me questionou:

- Você viu tudo, não foi?
- Não vi nada, senhora.

Ela não vacilou:

- Não quer falar porque é um covarde.

Virei as costas, desci o viaduto e tomei o rumo do metrô do Cantagalo. Covarde! Será mesmo? Eu só tinha escolhido o táxi, merecia uma noite na delegacia? Precisava treinar. Estava na estação do metrô quando decidi retornar, corri, mas sobre o viaduto tudo em ordem, o trânsito fluía e nem sinal das litigantes. Aborrecido, tomei o caminho de volta e entrei no vagão do metrô.

Naquele dia, eu não sabia, o metrô seguia somente até a próxima estação e retornava até o Cantagalo. Fiquei quase meia hora indo e voltando, preso ao meu drama. Que remédio, precisava ir em frente, percebi que tinha de saltar na estação seguinte, fui embora.

Tive que esquecer o incidente por um tempo, esta crônica é mesmo para confessar: faltou coragem, eu não quis me envolver, ainda que o dano ao veículo daquela senhora tivesse sido mínimo. A reação dela foi desproporcional e certamente funcionava como catarse de problemas cotidianos. Mesmo assim, repudio minha atuação no episódio. Droga! Minha linda menina afegã, não sou o super-herói de que me lembro. 

Um comentário:

Iced Heart disse...

Agradeço a homenagem. Uma vez que indique o autor, não vejo problema algum.

Artemaurano

 
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