terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Resenha de "Todo homem naufraga", de Flávia Iriarte

Flávia Iriarte, ao autografar-me este breve TODO HOMEM NAUFRAGA, Editora Oito e Meio, 94 páginas, acrescentou que este é um livro sobre os nossos abismos íntimos. Então pensei: se quer destacar os naufrágios, quer mergulhar comigo para ajudar a descobrir o que se salva, o que vem à tona depois dos desastres. É a tarefa de uma escritora, discordar do projeto é impossível, todo aquele que escreve - e que ao tentar naufraga inevitavelmente - está em busca da mesma coisa, atravessamos os anos em resgate constante de nós mesmos, do outro, quando escrevemos levamos essa obsessão importante para o alcance do público. Flávia concentra seus esforços em menos de cem íntimas páginas, poderiam ser duzentas e ainda assim elas não perderiam seu poder de conexão com o leitor. Sinto o calor de sua pesquisa pelos passeios, sobretudo porque não força a mão sobre os personagens, o texto fica quente dessa firmeza de fino trato, de curtas e relevantes exposições.

As formas de suas histórias evidenciam sobretudo o cuidado à serviço da técnica, as frases são bem construídas, sejam quando formam o conto, sejam quando formam o raro poema. Flávia pratica a concisão com vontade, não é delicadeza, é respeito ao que se costuma chamar de trama, que se estabelece nos contos de TODO HOMEM NAUFRAGA livre das costumeiras - e frágeis - digressões de nosso tempo. Flávia serve à narrativa, essa deusa cheia de caprichos e obscura, que os melhores escritores tentam agradar. Acredito nos seus finais, quase não são finais, são soluções cordiais atentas à civilização. Flávia as entrega como se quisesse a última palavra da conversa em forma de reflexão madura, imagino o seu ar de autora depois dessa conversa: um boa noite peremptório, televisivo.

Com o conto Soldado, contudo, Flávia Iriarte evoca desnecessariamente o Salinger de Um dia ideal para os peixes-banana. Exibe-se mesmo a partir de A notícia, conto que refresca nosso imaginário sobre as tediosas senhoras de classe média alta de Ipanema e Leblon. Prossegue bem na história seguinte sobre um bem-sucedido empresário japonês às voltas com sua amável esposa rebelde. Fabrica o auge de TODO HOMEM NAUFRAGA com o conto Três vidas, momento em que seus personagens passam a respirar com bravura original.

TODO HOMEM NAUFRAGA é a estréia de Flávia Iriarte. Uma bela estréia, aponta algumas direções e detém as qualidades de seus abismos, não é para conhecê-los também que nos aventuramos feito náufragos nas leituras? Nem que seja para ao final desejar ardentemente algum sinal de terra à vista, conseguiremos então contar direitinho como foi? Flávia consegue. 

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