domingo, 5 de janeiro de 2014

O homem-duplo






"avistei a forma dela ao longe
as asas mudadas em braços
confortáveis como telhados.
nos pulmões um grito firme!"

Tempo passado, tempo presente, tempo futuro. Desses três tempos, aquele do qual gosto mais é o presente, depois o futuro e por fim o passado. Explico logo minha preferência, embora não haja muito o que dizer: viver o instante, apreciar o momento, estas são frases que pertencem ao senso comum de tão batidas, o leitor já terá com certeza esbarrado com elas hoje pela internet, estão aí aos montes. O presente então é o nosso campeão, não resta dúvida, mas e quanto ao futuro e ao passado? Qual deles é maior merecedor de nossa atenção? Descobrir não é tarefa fácil, uns preferem a memória, outros fazem planos.

Eu que lanço esta dúvida, confrontado, obrigado à escolha, fico com o futuro, sou do time que faz reverência a sonhos, que investiga ideais, considero essas forças bonitas. Vê-las exercendo seu poder devagar sobre o presente, estabelecendo-se pouco a pouco até a realização, provoca em mim uma satisfação sempre desconcertante, como se o fato fosse na verdade fortuito, viesse do nada. Sabemos que não é assim, nada surge ou acontece por acaso, nós é que fomos distraídos, nossa percepção insuficiente. Gostamos de achar que houve uma surpresa.

Mas o passado também tem seus mistérios, aprende-se com os dias a lidar cada vez melhor com ele, não se engane, o passado também exerce uma força sobre o presente, poderosíssima, muitas vezes insidiosa, traiçoeira. É uma força de outra ordem, mais real, ainda que normalmente oculta nas construções, e eu desconfio bastante de suas ilusões estranhas.

Passado e futuro, ambos se fundiram semana passada quando encontrei um amigo que chamarei nesta crônica de homem-duplo. Foi durante muito tempo um rapaz de pensamento rápido, que não permitia queixas perto de si, caminhava com a destreza do vento e projetava uma aura admirável de futuro. Não tinha quase passado atrás de si, evidente, portanto prosseguia ávido só pelos desafios, vencia. Um dia então perdi o contato.

Pois foi ao reencontrá-lo que obtive a surpresa. Toda a natureza dele hoje se inverteu, ele é o homem daquelas promessas cumpridas, ele as realizou, sem dúvida, mas está indiscutivelmente diferente. Falamos dos anos que foram, daquelas glórias, mesmo das mais pequenas, com a mais terrível das reverências. Terrível porque de sua boca elas partiam para a conversa com uma direção inevitável: foi, fomos, aconteceu, não acontecerá outra vez. E o futuro, que pra mim é sempre radioso, transformou-se com a conversa em espera pragmática, um tópico abandonado. Vive-se.

Ficaram claros para mim os dois papéis. O passado cresceu, como cresce sempre cada vez mais e para trás, e o futuro sumiu, perdeu espaço na agenda, migrou para o coração de outros protagonistas. Quando será que se deu a mudança para o meu amigo? No coração do homem-duplo talvez o sabor do futuro sobreviva de uma forma que eu desconheça, mas em algum lugar de sua história, eu suspeito, ocorreu a dessemelhança monumental: foi um homem de futuro, hoje é um homem de passado. Talvez ele seja diante de mim o homem adaptado, uma evolução que força a mão sobre minha cabeça. Mas talvez tenha perdido algo, pergunto-me o que seria.

Naquele passado que cultivamos, vive a maior parte do que é hoje o homem-duplo, não é mesmo impossível viver assim. E a nossa memória compartilhada, tão chocante quando ladeada pelo presente, reafirma mais e mais minha impressão da duplicidade, pensa que não perguntei do futuro? O futuro a Deus pertence, foi o que ele me respondeu sem um pingo de amargura. Sem um pingo de amargura, eu poderia jurar, meus amigos.

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