domingo, 12 de janeiro de 2014

Meu querido bonsai







"No mesmo lugar de nada
descalça desencontrada.
firmava o pé pelas eras
não amava não amava"


Acho que não tem mais jeito, suas folhas não reagem. Apesar das regas, a pequenina árvore na minha janela demonstra mágoa, como se chorasse e desperdiçasse a preciosa água diante deste tanto de verão. Quando a comprei, praticamente abandonada que estava em uma prateleira de supermercado, sonhei com sua beleza concentrada, guardada dentro de um vaso simples de plástico. Eu parecia levar para casa uma gigante dessas que vivem centenas, milhares de anos. O povo da rua não viu minha intenção: eu queria que ela fosse minha testemunha.

Sempre que me encanto por uma árvore, penso no assunto: quanto do mundo já passou por baixo desses galhos? Perto desse tronco? Quanta paixão, quanto ódio! Árvores são menos percebidas do que um cão, do que um mero gato faminto, certamente porque são imóveis. Não latem, não miam, não falam, mas isso é detalhe, nós não as notamos porque são enterradas no chão, não têm liberdade. Estamos acostumados a tê-las sempre no mesmo lugar, como se cumprissem um inevitável dever, para que assim possamos ignorá-las, não importa o que aconteça, a sombra delas estará lá, seus frutos irão cair e poderemos nos fartar.

Perdoe-me, querido bonsai, eu quis ser diferente. Queria te olhar e louvar tuas belas folhas, tua determinação nascida não sei quando. Que você fosse como qualquer árvore deste bairro que me viu crescer, que fosse feito as pessoas às quais desejo bom-dia e que me acompanham já há tanto tempo que notam minhas raízes fincadas através do concreto da rua. Você não quer ser minha testemunha?

Já estive desempregado e você não viu, andei de cabeça baixa e queimado de sol por este bairro inteirinho. Estive também apaixonado, vibrei imensamente com o amor, mas penei por aqui para esconder minhas desilusões, parece que é vergonha sofrer por amor. Vai ver que é por isso que a gente logo percebe, olha que dor no peito! Perdi também pessoas queridas, umas foram embora, você sabe o que é isso, e outras partiram mesmo, terá chegado a sua vez? Tivemos tão pouco tempo.

Suporte um pouquinho mais este calor, abril não está tão longe, poderá ver como é a vida aqui em casa, não é nada de mais, somos gente simples, generosa, útil. Conhecerá nossas necessidades, eu tenho tentado conhecer as suas, será que fracassei?

Eu não sei a sua idade, meu bonsai, não sei se é jovem ainda, mas este ano será agitado de se ver, planejaram bastante este ano, teremos copa do mundo, uma vergonha, mas quem sabe o Brasil não será campeão? Depois tem eleições, uma gritaria só, todo mundo fala, ninguém se entende. Teremos também o de praxe: beijos, abraços, brigas, você poderia experimentar tudo.

Mas o mundo é este mesmo, muita pobreza, muita fome, poucos são ricos, uma lógica autodestrutiva nos vence, não há quem saiba o que fazer. Ainda assim o pessoal vive, uns só pelo dinheiro, uns machucam, outros saem machucados, o pessoal todo ama e se dana. Tem quem se preocupe realmente com o próximo mas esses são minoria e vivemos numa democracia. Árvorezinhas como você estão metidas nessa encrenca toda, ninguém sabe como ela vai terminar, se vamos continuar por aqui. Pode ser que sim e que não, é difícil ter certeza, foi-se a época dessa sabedoria. A solução parece não ser fácil, dará um trabalho danado, bem maior que te regar e te afastar do sol forte todos os dias. O que mais posso fazer por você?
    
Vamos, meu bom, reaja.

Ainda mal começou o verão.

Nenhum comentário:

 
;