domingo, 22 de dezembro de 2013

Resenha de "Eles eram muitos cavalos", de Luiz Ruffato

Ter lido esta obra me trouxe uma satisfação especial: fico sempre assim quando leio um livro que dá voz a personagens quase excluídos, eles os perdidos na arena gigantesca que é São Paulo. ELES ERAM MUITOS CAVALOS, de Luiz Ruffato, 130 páginas, Editora Companhia Das Letras, é desse jeito: tempo ruim o tempo todo, é a espécie humana, o prato de sopa rala que conseguimos sobre este planeta maravilhoso. Não sei se é possível chamar este livro de romance, a verdade é que não possui os elementos fundamentais do gênero, mas tais elementos não lhe fazem a menor falta. Não há trama central, este livro é uma coletânea de dezenas de relatos narrados com vontade ferrenha, que mergulha na escuridão de Sampa e extrai dela histórias perturbadoras. Não vemos só as costumeiras putas do mundo cão, os tradicionais viciados, Ruffato põe diante de seus holofotes uma legião de desvalidos, de sofredores, pessoas desamparadas sem quase nenhum recurso para sobreviver. Na adversidade extrema elas prosseguem, suas paixões no palco destas páginas, elas morrem, elas mal comem, elas se ferem, são agredidas, são ignoradas, sem descanso, a jornada sobre o asfalto é pedra dura, maltrata em troca do mínimo, e que mínimo é esse? Às vezes um canto pra passar a noite, ou uma palavra branda quase amiga, São Paulo entrega pouco, quê fortuna cabe a cada um? Ruffato conta pra nós, ele é o juiz, é quem distribui e aplica as sentenças, com crueldade reconhecível que é a marca de ELES ERAM MUITOS CAVALOS. Ninguém veste cor nas suas histórias, elas são o confronto possível com o real, livro e vida gêmeos registrados, é o registro que poucos conseguem. Requer discernimento e preparo, quem quer ser assombrado pelos destinos de uma gente de tão pouca sorte? Essa gente caminha como nós pelas calçadas, estão por aí, escritores têm que amá-las. São maioria da população e raras nas páginas de nossos romances, algo está errado, muitos hão de concordar. Ruffato não se contenta com o debate interminável, mãos à obra, alguém precisa de seu eco. Faz porque precisa do retrato, a verdadeira vida de São Paulo, é a nossa gente! Tem quem deveria receber ELES ERAM MUITOS CAVALOS na cara, quem merece este livro como porrada no peito. O mundo lá fora é sordidez e escuridão, sabe-se muito bem. Sou por isso grato à luz que me cabe. Parabéns ao autor.  

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