sábado, 7 de dezembro de 2013

Resenha de "Conversa com leões", de Leonardo Marona

Passei por este livro de contos tomado por uma sede grande, que me levou às mesas dos bares desta cidade feito os personagens de Leonardo Marona. Neste CONVERSA COM LEÕES, 196 páginas, publicado pela Editora Oito e Meio, percebo vida que sua, que chora, que ri diante dos momentos sempre desejados, ambicionados quando em forma de uma experiência verdadeira. Não há como negar o bom caminho desses contos, não seguem a consagrada fórmula, o final precisa ser um nocaute? Leonardo Marona demonstra que não, entrega o relato de seus dias com bastante franqueza, e eu não me sinto poupado. Não é para ser poupado que se deve ler este autor, que compõe contos como quem completa um diário com as entrelinhas da temível existência rotineira. Marona combate os dias comuns com a mesma ferocidade com que se entrega a eles, os leões se agitam.

Não lembrar dos leões de Santiago é impossível, ainda mais quando se lê o conto em que o narrador delirando percebe rostos de Hemingway por toda parte na cidade. Muitas loucuras perigosas perseguem este escritor, escrever aqui é uma espécie de delírio onde a história se acomoda, para enfim despertar tomando conta da gente. Estas histórias de Marona pedem algo de nós, logicamente cumplicidade, mas uma cumplicidade terrível, que luta contra a nossa apatia. Talvez haja quem sinta um prazer perverso nas perambulações a esmo dos protagonistas, esses sofrerão com os xingamentos ressentidos, porque a vida não é só uma cor calma transparente, Marona os xinga muito bem.

Sejamos cruéis com os que prosperam feito erva daninha, sejamos cruéis. Nesses contos há uma vingança esperançosa, um dever consigo que não deve ruir, precisa de páginas e páginas pelos anos, onde esse sentimento irá parar? Talvez em uma praia paradisíaca repleta de pescadores, talvez em uma Paris que não reclama seja qual for o visitante. Talvez o conforto seja mesmo a companhia de uma mulher, elas sempre!, generosamente retratadas nas páginas deste livro, mesmo quando debaixo de tetos sujos e entre paredes carcomidas. São sua salvação. Mas seria interessante ver a crueldade feminina retratada, acho que foi o que faltou.

Eu gostei destas histórias, não sou fã da teoria dos contos, seduza, entretenha, arremate!, parecem tão teoria às vezes, mexer com essas regras faz parte do ofício. CONVERSA COM LEÕES se dá ao trabalho de não ligar a mínima, joga na cara que pode prescindir das regras e há um rigor admirável nisso. Afinal, os leões não precisam dessas jaulas. Pronto, não resisti a uma última frase - ah, Hemingway! - saiu quase sem querer.

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