sábado, 21 de dezembro de 2013

Eu nomeio, tu nomeias, ele nomeia



"seu prazer o nome,
que a despossuía, 
seu nome era o rosto? 
seu nome quem era?"

Dar nomes é para mim tarefa digna de um Hércules das palavras, algo como mergulhar em um rio de águas torrenciais e de lá sair com um tesouro, uma chave, um pote de ouro. O tal rio no caso seria a linguagem representada pelo digníssimo alfabeto e o tesouro o prazer de ver a coisa nomeada, a pessoa, essa que carregará através do tempo a mesmíssima sequência de letras, que terá direitos sobre ela, ninguém poderá questionar, está lá nos costumes do povo, sai da boca de todos, está até na certidão de nascimento.

Nomes se transformam em marcas, se transformam em lendas, se transformam mas continuam os mesmos, a caneca do Jô é a caneca do Jô, mas uma caneca continua sendo uma caneca, estará o objeto ligado à palavra por incontáveis gerações. Em outro idioma ganhará uma tradução, talvez haja quem só conheça a palavra sem nunca ter visto seu objeto, talvez haja quem sonhe com ele e nem se dê conta do nome. Sendo assim, nomear algo ou alguém, sobretudo na sociedade que temos, onde é possível ser dono de uma palavra, constitui verbo para mim de importância. Estudei para publicidade, redação publicitária, e uma das tarefas na agência era justamente titular anúncios, conferir-lhes identidade, pagam gente pra isso. Tem algo de mágico nisso.

Deve existir uma sabedoria nesse ato de identificar por palavras, pode ser que em algumas sociedades o privilégio caiba aos mais velhos, em outras sociedades às crianças. Até pouco tempo atrás, o capoeirista ganhava um novo nome ao adentrar as rodas de capoeira, um apelido dado pelo mestre, soube que já não é mais assim. Achava o costume interessante, não sei porque foi abandonado. Muitos povos também, além do nome, conferem epítetos aos seus heróis, mas estes geralmente são terríveis: o famigerado, o sanguinário, o conquistador. Há muito pouco de heroísmo nessas alcunhas.

É uma pena que 99% de tudo que está à vista já tenha seu nome, o que faz do prazer de nomear uma satisfação rara. Fico imaginando os pais que pensam nos nomes dos filhos por semanas de ansiosa gestação, depois registram lá no cartório, põem no papel e a escolha está feita, será por toda a vida o Marcelo, a Alice, pelo menos até que um pilantrinha ouse desafiá-los e coloque no novo amigo um apelido. Deve ser engraçado, mas também pode ser carinho.

Àquele que mais se identificar com o verbo nomear, que tenha espírito jovem e que não tenha filhos, e queira se aprofundar nessas sensações mundanas dentro da língua, sugiro que faça uma viagem pelos cafundós do Amazonas, parece que mais de 400 novas espécies de plantas e animais foram descobertos na região nos últimos 3 anos, é a sua hora de pôr nome em uma dessas criaturas, sua chance de ser eterno! Vá mas vá logo, antes que não sobre por lá floresta alguma, só palavras, nomes extintos por falta de sujeito.

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