domingo, 3 de novembro de 2013

Resenha de "Perto do coração selvagem", de Clarice Lispector

Clarice Lispector (1920-1977) estreou com PERTO DO CORAÇÃO SELVAGEM. Posta aqui essa afirmação, poderia até parecer uma estréia qualquer, como tantas outras, mais uma informação perdida na blogosfera deste planeta ainda azul, não fosse de conhecimento geral que a autora de origem ucraniana, naturalizada brasileira, ergueu aqui a partir de si um belo monumento literário. Eu disse: a partir de si, mas também fora de si mesma, não deixa de ser esta uma ironia: que aquela de nossas escritoras a investigar tanto o eu que seu interior se declara íntimo, tenha esse mesmo interior multiplicado nos corações selvagens de todos os brasileiros pela popularidade de sua obra.

Este PERTO DO CORAÇÃO SELVAGEM, Editora Rocco, 202 páginas, foi publicado primeiramente em 1943 e como estréia já anunciava seu projeto, apresenta ao leitor a interessante vida de Joana, uma mulher de solenes extremidades, não tão bonita, mas proprietária de uma intensa consciência de si mesma, que ora vibra alegre, ora chora triste, incapaz de entregar-se completamente porque já totalmente entregue a si, aos meandros da própria existência, ressentida, pressentida, abraçada. Joana percorrerá na vida o mesmo caminho de qualquer mulher de sua época, orfã desde pequena, não escapará à obrigação de um casamento, desejado de verdade, mas que se transformará com rapidez em fracasso: Joana e Otávio não conseguem alcançar-se e dessas tentativas frustradas é a protagonista que ergue o corpo em triunfo, luminosa, qual homem capaz poderia tolerá-la, ainda que infelizmente apaixonado?

Joana é uma protagonista a quem cabem uma medalha, um prêmio, celebrações. O esplendor de seu universo interior revelado traduz-se em um extenso exercício de investigação que preenche as páginas sem deixar lacunas de enredo, a história prossegue muito bem dentro de seus claros enigmas, guardados por vontade própria no seu coração de mulher, prova de que se pode ser alguém para dentro, realizando no mundo apesar de cada necessária contradição. Não é preciso ser perpétuo, não é preciso ser diáfano. Ser podemos nós, transparentes ou não, bebamos dessa taça quase venenosa.

Ouso dizer: este livro repercutirá no leitor com certeza. Sou daqueles a pensar que o interesse inicial por uma obra vive perto do acaso, da capa ou da orelha, de um letreiro, de uma página, do nome do autor repentinamente adiante, inevitável. É impossível prever os caminhos que um livro tomará no rumo do coração, mas PERTO DO CORAÇÃO SELVAGEM tem grandes chances de cumprir com êxito essa tarefa, não é um livro à toa, é uma doação, um carinhoso livro áspero e corajoso.               

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