domingo, 24 de novembro de 2013

Foi o fim de semana










"há qualquer vento dentro hoje
que o impede de comprar rosas
nada se mexe por quilômetros
a cidade cinza muda de nome."


Quando eu pairava sobre a cidade, do alto de umas reflexões severas e perto do fim de semana, ficou claro que muitas vezes por vontade própria me transformo no adversário daqueles que usufruem do espaço urbano como cenário de seus ideais hedonistas e apolíneos. Não quero contradizer o que escrevi semana passada, na verdade quero ser dinâmico e estar longe de uma matriz racional estreita, busquemos então valorizar o que vai no coração: confesso que este fim de semana surgiu imperativa a necessidade de me cuidar em casa.
      
Não é que estive doente, depressivo, não quebrei qualquer osso, nem faltaram programas. O enlouquecido carioca então irá se levantar e questionar com indignação que charada é essa que me manteve preso na caverna. Desculpe desapontá-lo, ó leitor que procura o embate, a luta feroz, não atacarei com fúria vertiginosa os amigos que se vestiram com determinação consciente e partiram pelas calçadas do Rio atrás de entretenimento honesto. O filme estava bom? A comida boa? O passeio no parque funcionou? E o museu? A cerveja gelada? O shopping...

Tantas opções, das quais me lembro agora com até certa inveja dos felizes. Sinto o gostinho leve do que poderia ter aproveitado, interrompe-se o fluxo livre e misterioso dos pensamentos que inspiraram este finde complicado. Mergulhei em alguns filmes que não citarei aqui, em umas poucas páginas de livros também, reinou mesmo a vontade de estar  sozinho, estranhamente, como se ultrapassasse os limites de uma meditação vagabunda.

Confessar esta fraqueza aqui é não ter desculpas diante dos amigos ao comentar a ocasião, mas não é nossa casa o doce refúgio onde podemos recuperar as forças depois de uma semana mexida? Afinal, tivemos um feriado no meio e o desejo é senhor dos passos, sábado e domingo em casa, por que não? Não nego que apenas alcancei a segunda-feira. Às vezes somos tolos, só às vezes? Se sábado e domingo passarem sem que tenhamos feito algo incrível, sem que tenhamos compartilhado aquela foto certeira na rede, seremos a vitrine de um contemporâneo fracasso, alguém não mudará de assunto na segunda, por que mudaria? E nossa expressão será aquela terrível e sem jeito, precisamos mudar isso, deixe a conversa discretamente.

Assim a segunda será a extensão real do fim de semana, que se diluirá entre as centenas de links disponíveis no primeiro dia útil. Mergulharemos no universo virtual atendendo aos chamados, em busca da aprazível realização, nosso coração continuará batendo, o sangue corre sempre nas artérias. Em algum lugar beberemos um copo de água com uma breve noção do que nos manteve ocupados durante o sábado e o domingo, no fim do dia nossa consciência retomará seu papel, estaremos parados no ponto de ônibus. Quando chegar em casa, preciso fazer isso, preciso fazer aquilo. E prepararemos o caminho para o sono, depois do jantar e da academia, desabaremos sobre a cama e talvez dediquemos alguma atenção à televisão. O que é mesmo que eu estava pensando aquele dia, aquela hora, quando me chamaram? Sumiu, desapareceu da cabeça, exatamente como um sonho.

fotografia de Ana Carolina Barbosa de Carvalho (flickr - Estranha Euforia)

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