domingo, 27 de outubro de 2013

Uma terra calada

Assustei-me com a vastidão prometida pelas vigas erguidas como colunas
do mundo, de onde se podia enxergar quase tudo.

é que embaixo a gente se move que nem se possuísse pés de cal sobre o [mármore,]
embora o mármore seja mais que perfeito porque também não se vê, não está [aqui.]

é que embaixo se come fora das mesas sobre balcões de aço com cheiro de [tinta,]
ainda que o aço seja mais que perfeito porque também não existe, só ferro-[velho.]

e os anos começam a pingar das nuvens labaredas, caem do céu e escorrem [pelas vigas]
e formam verdadeiras cachoeiras azuis anunciando que esta Terra está mais [velha.]

as estruturas afundam no lodo misturado com cimentos, as poças onde se [salvam os idosos.]
as crianças vão no seco brincar, ao lado dos canteiros arremessados como [bolas de futebol.]

nasce uma árvorezinha nos canteiros, querendo ser perene, tentando ser [verde e ser água,]
é meiga nos olhos dos adultos, é grande nos olhos das crianças, reluz na fresta [de prata.]

diante de mim, vive um coração de manga, mas ele é vivo de páginas [consumidas]
que me perguntam duas vezes por dia quando é a hora assombrosa do jantar.

as portarias estão simplesmente fechadas, mal se pode entrar, o elevador é [caro,]
cobram pela força elétrica que já funcionou tanto que não é mais artéria, é [veia.]

as pessoas gostam de lembrar, ainda que não faça bem, sou eu que digo: se [esconda.]
talvez os marginais venham à noite em busca dessas memórias, venham [emprestá-las.]

tudo continua azul, o ar é amarelo quando a noite não é negra, está como [deixaram:]
confortável aos pés da dama fabulosa que assisti negar na cama amor pela [televisão.]

os animais vivem bem longe, se não são os cães e os gatos que passeiam pelas [ruas.]
os animais de quatro patas ainda lutam por comida, ainda lutam como [qualquer um.]

tem quem sonhe com aves, ainda se entende o que são asas, o que são [roedores.]
toda essa gente adora aparelhos, são de plástico, são de plástico!

debaixo de mim há uns três, três mil milhões, eu me equilibro nas pontes [suspensas e]
consigo passar pelos guardas, eles conhecem o meu paraíso e às vezes sinto [medo.]

tenho umas roupas que considero bonitas, os pares de sapatos mais novos, [um telefone,]
um carro na garagem e muitas ruas adiante, uma vida pela frente promete ser [espetacular.]

eu estou no controle, ensino os pequenos, ensino charadas aos adultos, eu [mostro!]
mostro às pessoas as imagens das coisas que elas desejam, elas comem.

eu estou no controle, sei que não se deve ouvir palavras ásperas perto de [microfones,]
meço as alturas dos seres porque altitudes valem muito, são passaportes que [crescem.]

há uma extensão inteira de terra onde caminhar, os pátios são todos [vermelhos,]
são quentes, são praças, são avenidas, nisso não se deve pensar, que o dia é [calor.]

sopra um vento morno enfim, de sabor acalentado, vem depois dos fins de [tarde,]
vem entregue como se viesse envolvido por toalha branca, vem feito [presente de natal.]
o mundo então pode acusar o fenômeno, dar-lhe nomes e defeitos, são [poucos minutos.]
a esperança sacode o pó, que se acomoda valentemente em cima e debaixo do [chão.]

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