quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Subi as escadas uma vez e o sol curtiu minha pele

Vários andares acima das cabeças mais felizes que vi
- havia mesmo poucas debaixo desses meus olhos -
perto dos vôos e dos jorros de água pura,
vivendo lá como se o céu a tivesse impressionado,
caminha uma gente vestida, vestida com tremendo jeito.

Pois enquanto nós caminhamos quase nus durante a busca
entre as raízes e as vigas... olha, naqueles agitados andares erguidos
pela força de uns trocentos companheiros, vive uma gente vestida
com linho, seda, algodão, eles vestem muros, vestem mais de dez anos.

É sério: não existem câmeras curiosas que os queiram filmar
(mesmo estas linhas tentam não dizer),
sei que sopra um vento de lá, um perfume morno e distante,
chega por aqui com cheiro de presente novo...
Aquela folha dourada que guardo entre às páginas de um livro,
a permanente lembrança de um passadiço, um chamego.

Essa gente pinta as vigas como se pintar representasse utilidade.
e cobre os vãos como se disfarçasse o medo, como se cair fosse pecado.
uma de suas salas tinha o verde promissor da primavera,
um véu branco flutuava e reinava  nas janelas, através do branco
não existia espelho, a matemática fumava charutos.

somos rasos demais diante da gentileza que derrama daquelas cachoeiras:
um caldo cru de legumes plantados com nossa expressão mais contente,
uma gargalhada, um exílio de nascimento, uma cruel desesperança.

Há quadros de madeira que assombram, as portas incomodam. o banho reluz.
encontro uma prece incomum, escondida que nem coração de gente:
esta vão massacrar, meterão prata por dentro dela, vai inchar,
as unhas crescerão com sentido novo, entre as carnes pelos dentes de puta.

só os escritores conhecem a verdade que comanda aqueles andares,
quase os poetas... os que enxergam uma luz virgem à força. Uma sóbria [imagem.]

chegar lá é tão difícil quanto passar do último degrau, sobrevive o manual,
umas páginas estranhas ensinam a se comportar entre os carrinhos de [compras,]
entre as prosas invencíveis, no meio do doloroso socorro feito uma pomba [branca.]

quanto de nós poderá resistir conosco? quantos passos poderemos dar
por cima daquele pavimento adornado? assim que um dos olhos abrir
já seremos diferentes, teremos uma capa nova com que brincar,
seremos chuva fora da chuva, mar fora do mar, nós fora de nós.

arrisco dizer... nosso nome será outro...

nosso nome será quem? comida será prato, o ar será perfume.
terei erguido o monumento correto daquele dia às seis da tarde?
É a hora que mais gosto daqueles andares, no perigoso lusco-fusco
todos podem ser outros, com as capas, quando o sol já não diz nada.

Ouça o poema em mp3:

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