segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Resenha de "Desejo", de Elfriede Jelinek

Difícil suportar DESEJO por 232 páginas. Todo o volume vive de uma crítica feroz que se espalha pelas frases de forma incontrolável, Elfriede Jelinek é oponente duríssima do ser que conseguimos pôr em prática, ser este que é evidentemente subjugado às possibilidades de consumo e do sexo. Seus ataques à sociedade austríaca de seu tempo podem ser remetidos quase que inteiramente a nós, tiremos a sensação perene de decadência e talvez a paralisia que não permite novas virtudes. O que resta? As palavras de Jelinek (prêmio Nobel de 2004) evocam nesta obra editada pela Tordesilhas uma indignação que parece perdida no tempo, pois é certo que uns mais, outros menos, foram contaminados pelo pragmatismo que só entende o capital, dentro dele cultivamos as imagens multiplicadas pelas telas, o hábito em perpétua construção mas repleto de velho conformismo.

A protagonista Gerti é uma dona de casa submissa ao marido, extremamente submissa. Ela se rende ao poder dele durante todos os minutos de sua vida, tornou-se então vítima de seu brutal apetite sexual. A autora não nos poupa das descrições, quantos sinônimos da palavra falo você conhece? Não é um romance erótico, nem mesmo sensual, essas cenas denunciam fielmente os efeitos de uma relação que estabelece claramente o dominador e o dominado. O poder está nas mãos do marido, manda-chuva da fábrica de papel, cujo domínio se estende também sobre toda a cidadezinha, dos seus funcionários ao seu filho único. A existência dessa criança, aliás, é o que consola Gerti, superar seus imensos dias tem a ver com olhar, acariciar, beijar o filho amado.

A essência deste romance é a crítica, o conteúdo das frases implacavelmente construídas. O enredo é simples: Gerti irá se apaixonar por um rapaz mais jovem e essa relação vai movê-la de uma forma inesperada, capaz de arrancá-la da submissão ao marido. Nos braços de seu amante ela vai descobrir como era terrível seu mundo, retornar é sempre uma tarefa difícil. Gerti precisa de seu amante mais do que ele precisa dela, será essa uma base desejável a gerar um sentimento sadio? Jelinek nos mostra porque o individualismo extremo a serviço das convenções sociais produz prejuízo imenso ao humano, sua protagonista é toda solidão. Não existe compaixão diante das possibilidades do desejo.

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