sábado, 21 de setembro de 2013

Pelas plataformas

Eles seguem angustiados para as belas plataformas (os parques),
aqueles viveiros de aço e terra e sol e água e cor.
Vicejam em seus rostos ora umas expressões duras, ora uns sorrisos frouxos,
graças à constatação fria que não admite clemências:
sua permanência depois das portas é apenas garantida por minutos,
eles têm por assim dizer, sussurrando, o tempo lá de um baixo salário.

somente o contracheque, aquele calhamaço de páginas e descontos
revisado trinta vezes por mês, concede acesso ao privilégio que é
beber daquela água escandalosa acumulada em leitos bem cuidados.

arrastam-se para as entradas com as conversas na ponta da língua,
pretendem arriscar, quem sabe assim não saem de lá, depois das filas pretas,
das filas imensas em tons de azul e amarelo, mais azul e menos amarelo.

cães guardam as entradas, catracas frias exigem os passes
diante da precisão das câmeras. Eles têm que ostentar uma carga ligeira,
o equilíbrio daquelas plataformas ensinaram, é sensível. Só o sol vale a [multidão.]

Pelo menos duzentas e oitenta vigas sustentam aquelas plataformas,
ao longo de quilômetros e desejadas vaidades, e os valentes na base
fazem dinheiros com as imagens geradas que espalham pelas telas do mundo.

os sortudos engenheiros, arquitetos, médicos, enfermeiros?, jornalistas,
fotógrafos, administradores, comerciantes?, farmacêuticos, advogados!,
bombeiros sim, policiais não, lutadores, artistas, pseudocelebridades,
motoristas não, microempresários, servidores?, gente cruel e gente boa,
políticos e negociantes de todo tipo, dentistas, jogadores...

até as portas das plataformas aquela travessia, aquela gente que se despede
dos primos, dos netos, dos filhos. Metem nas costas pai e mãe.
o indecoroso patrimônio! uma vez lá perto do presidente... pedem muito [mais.]

os retratos deles não requerem especialista, são sempre os mesmos,
são feitos da mesma justificativa explicativa: ser alguém.
da natureza humana, ser alguém, mas que alguém se enxerga?
aqueles se esgueiram pelas filas pretas, pelas filas imensas em tons de azul
e amarelo, às vezes mais azul e menos amarelo, exibem-se para as fotos dos [valentes]
durante centenas de passos ligeiros, corriqueiros, feito uma manada, [mamada.]
  
o dia em que atravessam as portas, quando se deitam sem muito critério nos [rios,]
alcançaram o lugar sem muito discernimento!, e as longas pradarias,
será pra sempre todo sempre o dia de seus novos aniversários, a partir de [então]
ganharão valiosos presentes na data, direitos humanos, que poder!, a serem [exercidos]
diante dos atenciosos guichês cheirando a lavanda com perfeito ar-[condicionado.]

sobram umas faces que não querem entrar, já mandaram até chamar,
não querem entrar, não adianta meu bom!, não têm desejos, não querem [usufruir,]
sofrem de um mal terrível libertado na Terra aos poucos, durante reuniões.

são uns poucos, mal entram nas estatísticas, dizem que têm retardo mental.
Saem de casa com cheiro de laranja, voltam com gosto de fruta. Detestam [filas.]
40 por cento são homens, 60 mulheres,
são 0,2 por cento da população economicamente ativa.
80 por cento têm curso superior, 68 são jovens entre 21 e 30 anos.
cultivam dentes e os usam para mastigar boa comida,
possuem olhos de quem não é normal, olham, não param, olham.

enquanto naquelas plataformas se bafejam escândalos, é o que dizem as filas,
cumprimenta-se com as mãos higienizadas e se faz amor com capas.
dorme-se com a razão e acorda-se com uma paixão de novo, é renascer,
só uns sabem, só uns foram, quem possui tempo pra visitar o lugar?

ouve-se um doce murmúrio e as palavras são estas, dormem alguns, sonham
mas há por aí uma gente que vai, com certeza resoluta e franca.

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