sábado, 27 de julho de 2013

Resenha de "O som e a fúria", de William Faulkner

Ler "O som e a fúria" não é uma tarefa qualquer, exige vontade que não se costuma encontrar no leitor acostumado com as linhas retas dos jornais matutinos e com a brevidade indecente dos portais de notícias. O estadunidense William Faulkner (1897-1962) defende com brilhantismo neste romance a técnica do fluxo de consciência, também utilizada por outros grandes escritores de sua época, entre eles Virginia Woolf e James Joyce, aqui Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Faulkner fez uma escolha ousada ao optar por essa técnica, pois é o uso dela nos dois primeiros capítulos que torna esta obra tão difícil e singular, ainda mais se é a primeira leitura que arriscamos do universo deste autor, agraciado com o Nobel de 1949, vinte anos depois de publicar "O som e a fúria" nos Estados Unidos. O leitor não deve desanimar com o início deste volume de 384 páginas em edição de bolso da Editora Cosac Naify. O prêmio vem a seguir nos terceiro e quarto capítulos, quando o autor estabelece uma narrativa mais sensata, que empresta sentido à carga emocional que abre o livro. Este romance é estruturado a partir de quatro dias diferentes, a partir dos quais tomamos conhecimento do destino decadente da tradicional família Compson no sul dos Estados Unidos durante o início do século XX. Cada um desses dias possui narrador próprio e a ação dos dois primeiros capítulos vai e vem se deslocando no tempo sem maiores explicações durante o fluxo de consciência dos narradores, tudo que podemos fazer é acompanhar as emoções que as palavras exprimem, a confusão, o raciocínio prejudicado e sem saída nos labirintos da mente. Leva algum tempo pra se acostumar mas uma vez que conhecemos os personagens fica difícil abandoná-los, Faulkner não nos poupa de sua ficção, página por página ele introduz o leitor no fictício universo do Condado de Yoknapatawpha, terra natal de sua fértil imaginação.

"O som e a fúria" tem este efeito interessante: ele nos preenche de incertezas quanto à nossa formação humana, resgata do coração um tantinho das nossas verdades familiares clandestinas, o drama às vezes mesquinho compartilhado até a vida adulta. A decadência dos Compson pode ser também a nossa decadência, silenciada pelo deslocamento obrigatório e rotineiro de casa para o trabalho, do trabalho para casa. Temos direito a um lugar na história, as gerações se sucedem e o papel que desempenhamos se firma lentamente sem que tenhamos dado a ele a devida importância. A partir deste livro qualquer papel ganha importância, a própria vida ganha importância, a grandeza dela, a beleza, as fraquezas e as vilanias. Yoknapatawpha então conquistou espaço em nosso imaginário, Faulkner sabia que conquistaria, fez da sua vida como escritor o extenso conto desse condado. Conhecê-lo mais é ler outros livros dele, a história imaginada de seus impossíveis personagens atravessa várias famílias, gerações inteiras desse condado certamente inesquecível. 

Nenhum comentário:

 
;