domingo, 14 de julho de 2013

Quebrado

Hoje ele está quebradiço
e seus membros também quebram,
repartem o chão com outros pedaços rasteiros de si mesmo,
com a boca que engole pedras atropeladas,
com o peito desinchado de coroamentos inúteis,
com os males exangues dos genitais;

quebrado é este que ele é
sem cor, pálido mesmo, na rua
adiante dos tons de cinza.
Mexia com os cimentos e com as vigas,
e medem as suas nádegas, riem disfarçadamente.

Porque houve época
em que seu vigor, retido nos músculos dourados,
extraía dos secos nervos de cada homem
uma expressão muda de perplexidade
percebida já às sete da manhã.

Movia-se entre as vigas de aço
feito um animal nas sombras do verde
e sua força viril servia de farol
às queixas matinais dos pedestres;
o povo tomava café nos balcões
sentindo a umidade de seu suor.

hoje ele está quebradiço e
não há promessa nem jura na sua colisão com o chão,
há um escândalo:
uma espécie de vingança perpetrada pela ignorância;

hoje gosta é das fontes,
pode um dia ter se apaixonado,
como qualquer homem, pode
ter lançado beijos a qualquer mulher,
uma que se lançasse aos seus braços seguros.

bebe das fontes quase cristalinas e toma banhos,
sem os seus amores, sem eles, sem nenhum.

Seus membros quebradiços varrem a rua,
não sabem mais do que prestar serviço,
este homem está quebrado, sabe?
seu reino foi o mundo sob o sol,
dos arranha-céus, das casamatas escuras.

sua noite foi a noite sobre a lua,
dos sonhos de infância,
das brincadeiras prateadas e telúricas.

Ficou uma marca dos seus pés no cimento fresco,
daqueles pés altaneiros na calçada dura.

Ficou indelével sua impressão extraordinária,
a contribuição que nos ladeia:
foi feito civilizado nesta parte queixosa do mundo.

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