quinta-feira, 6 de junho de 2013

Para onde vão os ônibus?

A rua inteira parece pertencer a ele, àquele monstro de toneladas, metido sobre quatro rodas imensas e vagando pelos bairros da cidade feito um zumbi feroz, a repetir incessantemente o vaivém de seu percurso diário. O ônibus novinho em folha não quer nada com ausências, não tem quem pergunte quem mudou de emprego ou quem foi pra outra vizinhança. Os passageiros se entretêm como podem, o motorista espera pela noite, o cobrador sonha com o almoço. A rua serve de reino ao ônibus, sobre o asfalto ele se move perigosamente, seu peso é demasiado, gira à esquerda e à direita, o equilíbrio do trânsito é delicado. O som de suas partes de metal se tocando é agudo e grave, dá pra ouvir o óleo nas partes.

Não sabemos para onde este ônibus vai, sabemos apenas que ele funciona e quando não tiver mais utilidade será tirado sabiamente de circulação, será vendido a preços módicos a quem puder arcar com as despesas do veículo, será assim até que suas partes realmente sirvam apenas de estorvo, um monte de metal, plástico e óleo diante de nossa vista em nosso mundo perfeito. Então, o que será feito dele? Vai pra um lixão e fim de papo, some.

Seria bom se isso fosse uma verdade mas sabe-se que é uma grande mentira, serve apenas para que possamos pousar serenamente sobre a cama e o travesseiro durante a noite, afinal é preciso trabalhar, deve-se evitar o estresse, que é totalmente desnecessário. Assim seguimos ignorando o problema que queremos evitar: o nosso lixo, o escandaloso monte de lixo que a civilização produz, o lixo que não gostamos de ver e que mandamos então pra longe. Mas não tem jeito, ele tem se acumulado no planeta ao longo do tempo, incrivelmente maior desde a revolução industrial e do advento da sociedade de consumo. É tanto lixo, tanto dejeto que já lutamos para não ter de lidar com ele, quem pode procura praias cada vez mais distantes, as mais seguras, para não perceber o tamanho do estrago nos rios e mares. Fazemos de conta que o lixo some como se num passe de mágica.

Sabemos que não é o planeta que está em perigo, ele já sobreviveu a catástrofes maiores do que o homem, o que está em jogo é a nossa sobrevivência a partir desse modelo onde viver significa consumir, consumir, consumir. E produzir lixo, produzir lixo e produzir lixo. Infelizmente somos assim, ignoramos o que nos incomoda até que suportar não seja mais possível, talvez seja para sempre assim, talvez seja neste caso, afinal o ser humano é o mesmo, praticamente igual nos últimos séculos: feito de cobiça, inveja e egoísmo, superados vez ou outra por um pouco de amor e paixão.

Fico pensando naquele ônibus, naquela massa de metal, plástico e óleo que um dia vai ser lançada fora e não consigo evitar os cálculos: serão dezenas, serão centenas, serão milhares descartados sobre a superfície do planeta, nosso planeta, que devia ser povoado de belos jardins, lagos cristalinos e praias límpidas. Pelo menos foi esse o espelho que a natureza nos deu por milênios. Mas o homem subverteu esse espelho, diante dele estamos cada vez mais parecidos com o lixão que tanto odiamos. Ou será que amamos?

4 comentários:

Bruno Moreira Lima disse...

Pensando nisso, lembra das aulas de artes, com sucata... Poderíamos ser muito mais inventivos do que consumistas, não é não, Marcão?
Corroboro por completo com suas palavras. Sigamos como o sabiá apagando o incêndio... Quem sabe um dia não provocamos uma Tsunami? Hehehehe Grande abraço!

Marco Antonio Martire disse...

Quem sabe quando virá essa tsunami... por enquanto ser esse sabiá é mesmo o que dá pra fazer, é a incrível lucidez contra a loucura destes nossos tempos. Escrevi esta crônica pensando muito na palestra de terça-feira, bateu forte. Um abraço, amigo.

Kamilla disse...

Boa crítica, Marco. Eu também me pergunto para onde vão os lixos que produzimos todo dia, já que o "jogar fora" não existe! Gostei da sua sitação sobre a sociedade de consumo. Consumo este que na maioria das vezes é desnecessário... Mas o que vão fazer as pessoas deprimidas e desprovidas de qualquer senso crítico senão consumir? É, triste realidade. Parabéns pelo post! Gostei mesmo!

Marco Antonio Martire disse...

Infelizmente, há pessoas para quem viver é tão somente isso: esperar pelo próximo modelo, pela novidade que as vai preencher, desde o vazio até o umbigo. Obrigado pelo comentário, apareça sempre!

 
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