segunda-feira, 27 de maio de 2013

"Diário de um retorno ao país natal", de Aimé Cesáire




Terminei a leitura do poema DIÁRIO DE UM RETORNO AO PAÍS NATAL, obra fundamental do martinicano Aimé Cesáire, finalmente publicada no Brasil em edição bilíngue pela Edusp, traduzida do francês  por Lilian Pestre de Almeida. No posfácio, Lilian diz que esta obra inaugura poeticamente a negritude, é nela que uma definição de negritude aparece pela primeira vez. A seguir, um trecho que destaquei.

DIÁRIO DE UM RETORNO AO PAÍS NATAL

(...)

162.
E eu procuro para o meu país não corações de tâmara, mas corações de homem que, para entrar nas cidades de prata pela grande porta trapezoidal, cunhem o sangue viril, e meus olhos varrem meus quilômetros quadrados de terra paterna e conto as chagas com uma espécie de alegria e empilho-as umas sobre as outras como espécies raras, e minha conta aumenta sempre com imprevistos comércios de baixeza.

E eis os que não se consolam de não serem feitos à semelhança de Deus mas do diabo, os que consideram que se é negro como funcionário de segunda classe: esperando algo melhor e com possibilidade de subir mais alto; os que capitulam diante de si mesmos, os que vivem num fundo de fossa de si mesmos; os que se drapejam de pseudomorfose altiva; os que dizem à Europa: "Vede, sei como vós fazer reverências, como vós apresentar os meus respeitos, em suma, não sou diferente de vós; não presteis atenção à minha pele negra, foi o sol que me queimou".

E há o rufião negro, o ascari negro, e todas as zebras se sacodem a seu modo para fazer cair suas zebruras num orvalho de leite fresco.
E no meio de tudo isso, digo hurra! meu avô morre, digo hurra!
a velha negritude progressivamente se cadaveriza.
Não há muito a dizer: era um bom negro.
Os Brancos dizem que era um bom negro, um verdadeiro negro de alma branca, o bom negro do seu bom senhor.
Eu digo hurra!
Era um negro bom, muito bom.
A miséria lhe ferira o peito e as costas lhe inculcaram na pobre cabeça que sobre ele pesava uma fatalidade que não se pode enfrentar; que não tinha poder sobre seu próprio destino; que um Senhor malvado escrevera para todo o sempre leis de interdição na sua natureza pélvica; e para ser o bom negro; acreditar honradamente na sua indignidade, sem curiosidade perversa de verificar um dia os hieróglifos fatídicos.

163.
Era um negro muito, muito bom.

164.
e não lhe ocorria a ideia que poderia revolver, cavar, cortar outra coisa, outra coisa além da cana insípida

165.
Era um negro muito, muito bom.

166.
E jogavam-lhe pedras, pedaços de ferro, cacos de garrafa, mas nem essas pedras, nem esses ferros, nem essas garrafas...
Ó quietos anos de Deus sobre esse torrão terráqueo!

167.
E o chicote disputou ao voejar das moscas o orvalho açucarado das nossas chagas.

168.
Eu digo hurra! A velha negritude
progressivamente se cadaveriza
o horizonte se desfaz, se retira e se alarga
e eis entre os rasgões de nuvens a fulgurância de um signo

(...)

tradução do francês por Lilian Pestre de Almeida

ouça o poema em mp3

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