terça-feira, 29 de janeiro de 2013

"Os dias do sacre", de Adonis







Ando lendo o poeta sírio Ali Ahmad Said Esber, que assina simplesmente Adonis. Copiei aqui o longo poema OS DIAS DO SACRE, que nos conta do príncipe herói Abderramã, também conhecido pelos árabes como o Sacre de Coraix. O sacre é a águia dos desertos árabes, tida como a mais resistente dessa espécie.


OS DIAS DO SACRE

Entre a presa e o cavaleiro, diante do meu rosto
repousaram as lanças, meu corpo
descamba empurrado pela morte, e os ventos,
cadáveres pendentes, são-lhe elegia
e é como se o dia
empedrasse varando a vida
é como se o dia
fosse comboio de lágrimas

         muda teu tom ó voz
         ouço a voz do Eufrates:

- "Coraix...
cáfila rumo à ìndia
levando o fogo da glória..."

... e o céu se deita sobre a ferida, e as margens
murmuram estendidas:
entre mim e as margens
há uma língua, há um diálogo
que as garças envolvem a rodearem-no como velas
entre nós
        - ó Eufrates, seja para mim ponte e máscara.
Desci fundo
    muda teu tom ó voz, ouço a voz do Eufrates:

- "Coraix...
pérola a incender em Damasco
entre sândalo e olíbano, mais fina
que as finezas do Líbano, mais bela
que os contos sobre Oriente..."

e eu no vácuo dos gafanhotos, sob as nuvens feridas
sou pedra de asas mortas
sou pedra de plumas mortas
a morte encilha cavalos
e a vítima
é um pelicano a debater-se.

        Muda teu eco ó voz
        ouço a voz do Eufrates:

- "Coraix...
só resta de Coraix
o sangue corredio como lança,
só a ferida."

Escancarai vossas portas de ferrugem ó deserto: sou rei
meu tributo é o espaço, meu reino são meus passos
avanço, rei, e ergo sobre o que venço
sobre o gelo de cepa, a teimosia, ergo o pilar da conquista

Sei ferir a areia e plantar palmeiras nas fendas
sei despertar o espaço morto enquanto
o caminho desenrola os medos e estreita.
É de espelhos o caminho, livros e espelhos.

Percorro seus ocos perscruto tateio restos
de cavaleiro amante dos passos
leio o passo a erva a palmeira
um certo horizonte
tecido por curtos respiros onde
o fogo não extingue e onde
não findam os passos príncipes.

Acordei nas fendas
a apalpar os instantes
a sacudir os mamilos dos desertos
andei mais ágil que a flecha mais ágil
feri os feixes e o pó
a terra estreitava mais que a sombra da minha lança - morri
ouvi o sibilar dos escorpiões, guiei as gangas no espaço ignoto - morri
inclinei-me na terra em maior paciência que a da terra - morri

derribei-me nos ombros do vento
e rezei sussurrando às pedras
li as estrelas, tomei seus pontos, apaguei-os
meu desejo traçou um mapa
com meu sangue e as entranhas.
Sem dormir, entre minha raiz e seus ramos, a água a fluir
e as ninfas a plenar a fronte
com flores secas e tumbas cândidas
subo as torres da transformação
onde o terror, onde a cinza destila
onde o soluço desperta e se apaga Simbad.

Se soubesse como o poeta mudar as estações
se soubesse conversar com as coisas
enfeitiçava a tumba do pequeno cavaleiro no Eufrates
a tumba do meu irmão na ribeira do Eufrates
(morreu não teve bálsamos, não teve enterro e orações)
e eu dizia às coisas e estações:
Juntai-vos como se junta o ar
estendei-me o Eufrates
verta a água verde como oliva
no meu sangue enamorado, no meu tempo ancião.

Se soubesse como o poeta tomar as núpcias das plantas
eu cobria estas árvores nuas com crianças
se soubesse como o poeta domar o insólito
de cada pedra eu fazia uma nuvem
para chover sobre a Síria e o Eufrates.

Se soubesse como o poeta mudar a hora da morte
se soubesse ser profecia que adverte e sinaliza
eu gritava: Nuvens, condensai-vos, chovei
em meu nome sobre a Síria e o Eufrates
por Deus, nuvens...

Abriram-se os céus e
da poeira fizeram-se livros
e Deus estava em cada livro
e eu sem dormir, pedra alguma dorme em meu rosto
miragem alguma retém meu olhar -
um sinal vem do Eufrates:

Sou aquele que habita em teu colar ó pomba
em teu bando migratório ó andorinha
sou aquele, um adivinho,
que espalha seus signos e visões
no horizonte e em suas muitas línguas
sou o Eufrates, sou a Península.

Um sinal...
          devagar, minha saudade...

O Sacre no seco das veias, nas urbes do pensamento íntimo
o Sacre como halo gravado no portal da Península
o Sacre saudoso confuso, entre o sonho e o pranto
o Sacre em seu desespero criador, em seu labirinto
ergue no cume, no fundo do fundo
o Alandalus profundo
de Damasco ao Ocidente o Alandalus
levando a colheita do Oriente.

O Sacre escreve ao espaço, esse generoso desconhecido
e lhe pede um lugar limpo como as veias.

O Sacre acena a outros sacres -
cansado o levam os dédalos, o levam as rochas
ele se inclina, alimenta as rochas, alimenta os dédalos
o rosto avante, o sol por encalço
o espaço é fornalha
os ventos, velha a tecer um conto
os sacres, cortejo a abrir o céu.

Como se amante audacioso
juvenil de paixão audaz
ergue o Alandalus profundo
ergue-o para o mundo - esse novo santuário.

Todo espaço em seu nome é livro,
todo vento em seu nome é hino.

Do livro POEMAS, Companhia das Letras
tradução do árabe de Michel Sleiman

ouça o poema em mp3 

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