quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Natal na rua vazia sem carros em velocidade

Em torno do poste aceso amarelo
viram-se dois bêbados vermelhos
em seus aventais brancos de cozinha.

os morcegos executavam rasantes
sobre a rua perigosa e inocente
transformada em pista de corrida
para os que fugiam da lei seca.

Preocupava os bebuns
o gesto de atravessar
o espaço percorrido
pelos carros velozes.

Mas não vinha carro algum
por longos minutos e
se vinha buzinava estridentemente
sem vontade de prejudicar
a festa com um triste acidente.

tinham saído para comprar cerveja
naquela tarde calorenta,
ficaram por causa de um chope,
depois mais um, depois outro.

As famílias e a ceia
desprezaram os ausentes.

Não falaram de trabalho
nem de entes queridos,
nem de amor nem de seguros.
Falaram da linda mulher
no início dos verões.

Desde os pés
às belas pernas,
da cintura
rumo ao peito.

Até mesmo o rosto pálido
serviu aos copos dos bêbados;
escorregaram diante da rua.
Sentaram-se sem conforto.

Era a mulher que eu queria na infância!
- disse um.
Foi a mulher que eu perdi já garoto!
- disse outro.

Combinaram assim o silêncio
enquanto o poste se movia,
atravessava os dois absurdos.

a mágoa os media
o resto de choro consola.
despediram-se feito cães.

Retornaram pra casa
com o rabo entre as pernas
em busca de perdão.
Afinal, era Natal.


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