sábado, 17 de novembro de 2012

O pássaro

Enquanto via o pássaro azul e branco
pousar displicente na beira, na beira de algo
que mais tarde identificou como um buraco,
retirou do copo os lábios
e se esfregou com eles
de dentro pra fora.

um mar de gente quis sair dali pela boca,
atravessar as distâncias e caminhar
livre de dores pelas calçadas
pelas mesas pelas ruas.

por um segundo procurou contê-las
feito o mesmo pássaro,
argumentando que estavam na borda
na borda de qualquer coisa
que podiam chamar de buraco.

era uma inundação de gente
que lhe pressionava a garganta
o céu da boca, os dentes,
atiçavam a língua.

ao saírem,
porque era impossível contê-las
na gaiola improvisada de seu corpo finito,
deixou o silêncio de lado
enquanto se empolgavam
com as missões do povo do bar.

ninguém notou o pássaro
o azul e o branco
as asas que condensavam
o frescor da noite
entre os vapores do buraco.

havia uma semi-poesia
em se deixar levar
pelos humores dos frequentadores,
do arquivo em cores
que se espalhava pelo salão vermelho.

uma gente que saía pela boca
e trabalhava por salários obscuros
que não faziam parte das estatísticas;

elas vinham de um país de dentro,
de dentro do peito dele,
onde se perdoavam verrugas
e veias saltadas,
embriaguez e falsos venenos;

uma gente torta
que não queria saber de pássaros
nem de sóis amarelos
ou vastidões de verdes;
em cima do chão
desfilavam na atmosfera imperdoável
compartilhada pela multidão.

o pássaro via o buraco
e lá embaixo havia uma seca
já que o rio descendo a encosta
por baixo da calçada
deixara de existir por cinco minutos.

aquela gente se fartava
e as cores se multiplicavam
conforme ele abria a boca:
mais gente saía, mais sedentos;

ele queria o pássaro
e toda a extrema coragem de seu gesto
parado na beira de um buraco.

o que conseguia era aquela gente
que lhe saltava dos dentes,
presas de sua voz corrente,
de seu alcance limitado.

largou uma imprecação,
por intrepidez na vida!

sempre que aquela gente saía,
com gosto de chope gelado e
mesquinhez na noite.

outra vez o pássaro.
Voou invencível
entre os arranha-céus
desistindo do chão.

o azul e o branco
se misturaram com o fervor do céu,
e os sinos badalaram suas notas sobre o palco.

aquela gente ficou.
e deram por si curiosos
na frente de estranhos.

nem dele eram mais,
eram vultos sofridos
uma vez alegres
alegres como nunca mais.

quiseram ser pássaro?
ou era mero desejo,
inteligência que se perdia?

as gritarias, elas seguiam
seu olhar incontido.
voltavam-se para ele
o rebelde, o pássaro.

vasculharam seu coração de fora
agora que viviam ali
e pouca coisa foi dita
além da constatação fria:

ele era uma beira de coisas escuras,
indizíveis que ameaçavam saltar,
engolir quem não tinha asas.

outra insensatez e ele fechou a boca.
encaminhou-se para a saída em neón,
defeituoso, pálido.

um esquivo frequentador de bordéis
um malabarista da noite e dos perrengues;
um homem que observava pássaros
e conferia vida a uma gente entre os dentes.

passou do buraco a resvalar na beira.
perambulou mais uma vez solene.
o céu negro, tão negro que o escondia nas mãos.

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