sábado, 6 de outubro de 2012

Resenha de "A vida de Pi", de Yann Martel


Não há promessa de uma boa história melhor do que explorar a inocência de uma criança. Histórias memoráveis já foram escritas sobre a infância, suas promessas, seus anseios. Difícil é ser original quando se usa essa voz tão apaixonante dos nossos primeiros anos. Yann Martel teve que ouvir críticas que o acusaram de plagiar com este A VIDA DE PI, Editora Nova Fronteira, 419 páginas, o romance MAX E OS FELINOS do brasileiro e membro da Academia Brasileira de Letras Moacyr Scliar. O espanhol, contudo, reconhece a inspiração quando agradece ao colega em nota nesta edição.

Polêmicas à parte, eis a história: menino náufrago divide um bote salva-vidas com uma fera assassina durante meses no mar. Será ela a sua única companhia sob o sol inclemente, a testemunha de seus esforços para salvar ambos, enquanto pesca, enquanto coleta água das valiosas chuvas.

A linguagem coloquial e os capítulos curtos, de duas, três páginas (bem adequados ao nosso costume contemporâneo) são instrumentos que o autor usa com boa inventividade, conferindo vigor incomum a uma história que poderia decididamente se arrastar dentro do bote em que estão confinados o protagonista Pi e o tigre-de-bengala. Afinal, o que impede a fera de devorar o menino? Existe a fome, a sede e a raiva de se ver em uma situação tão adversa. Pi não só nos explica como sobreviveu mas também nos presenteia com reflexões singulares sobre o medo e a ansiedade, ou ainda sobre nossas idéias preconcebidas a respeito dos animais. Ele teve muito tempo para pensar, sua narrativa se estende por incríveis 227 dias no oceano.

O desespero do náufrago assume neste romance diversas formas, a mais comovente delas quando Pi entende que precisa alimentar o formidável animal com quem compartilha a sobrevivência. Ambos enfrentam as vicissitudes da jornada com coragem, salvando-se um ao outro, a cada dia, durante cada tempestade, cada dia de sol. Estão condenados à gratidão mútua, tanto quanto ao fim da história. O diálogo inesperado com aqueles que duvidam de sua improvável experiência é uma luz sobre o enigma de Pi e fecha o romance com êxito admirável. Uma leitura franca e recomendável, que ganhou o Man Booker Prize em 2002, um ano depois de ser lançada nos Estados Unidos. Virou filme em 3D, produzido pela 20th Century Fox e dirigido por Ang Lee, a estrear no Brasil em 25 de dezembro com o nome de AS AVENTURAS DE PI. Assista ao belo trailer legendado em português no youtube em http://www.youtube.com/watch?v=h5nJkpEvNjE 

2 comentários:

Elder Ferreira disse...

O livro é muito bom e o filme deixa um pouco a desejar. Mas, leitores já estão acostumados com decepções cinematográficas.

O livro está longe de ser uma decepção como o filme e pra mim foi mais uma surpresa boa. Quando li a capa e vi a sinopse eu imaginava uma leitura tranquila e agradável, mas nada tão boa quanto a que encontrei.

O autor foi muito inteligente, tanto no quesito religião (parte I do livro), quanto no quesito ecologia. Quando terminei a obra me senti um perito em zoologia. Muito bom mesmo.

abraços,
http://oepitafio.blogspot.com.br/

Marco Antonio Martire disse...

Entendo bem a sua decepção, Elder. Acho que o filme buscou compensar a ausência de reflexão, sempre presente no livro, com belas imagens, realmente belíssimas, ainda mais com o efeito 3D. Já esperava por isso desde que vi o trailer. De qualquer forma, valeu o ingresso. Obrigado pelo seu comentário. Vou passar lá no seu blog em breve. Um grande abraço!

 
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