sábado, 8 de setembro de 2012

Maria Lúcia Dal Farra, poemas


AO LEITOR, MEU CANIBAL INQUIETO

Cada palavra
(aqui)
se obstina em silêncio.

Contigo devoro os frutos da noite:
lua caiada em agonia
alguma chuva esparsa do lado boreal
poeira de estrelas profanando
o negro.

Só nossos dentes
brilham
feito astros.

***

CANÇÃO PARA UMA CAMISA BRANCA
a Ipê Dourada

A camisa subtraída ao varal
abre um furo
na roupa branca estirada.
Ali quem sabe
(à noite)
a lua devasse
(com seu holofote)
as dolorosas cortinas da ausência.

Enquanto isso
meu cabelos crescem como campos de milho
só para acolher teu espantalho.
Enquanto isso
exploro com as mãos o grosso tronco da árvore
para abraçar nele

teu torso nu.

***

ARTES
ao Francisco José

Não distingo o que queres
e nem triunfo sobre
o enigma que nos atrai
(assim dessemelhantes).
Mas se adivinho o que há dentro do teu cenho
e se (acaso)
empreendo o que (querendo) não fazes por
consumar -
ganho (em troca)
a solidão patética de quem erra
por acertar.

O amor é isso:
cisco que tolda a vista
tão só pra se enxergar.

do livro Alumbramentos, editora Iluminuras 

2 comentários:

Luiz Alfredo disse...


Fico deslumbrado
com estes poemas
queria ser poeta
para escrever um destes
acho a coisa mais bela
do mundo
neste instante
fico feliz em saber
que existem poetas
na América Latina
uma poeta assim.

Luiz Alfredo .

Marco Antonio Martire disse...

Luiz, Maria Lúcia é uma poeta que nos últimos anos por aqui tem conseguido destaque. Ganhou o prêmio Jabuti em 2012 com este "Alumbramentos", uma grande premiação! Creio que, se já não é, em breve deve ser publicada por aí. Grande voz! Um abraço e obrigado pela feliz presença!

 
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