sábado, 4 de agosto de 2012

O retrato

Percebi que do retrato
saltavam pequenos respiros
como se a dor fosse honesta.

E o que doía
era não sentir mais
nunca mais
a emoção
que ele representava.

estou aqui e distante
e tão longe
do corpo retratado
que a promessa
encerrada no lábio claro
não é mais promessa,
é só a imagem
a mudança que
bendita deveria.

ficou tudo como está agora
a foto
um espaço de palavras
entreouvidas com surpresa.
Percebo outro
ao sabor do vento.

o que existe
no lugar da foto,
junto com as palavras
que se dizem,
às vezes é calmaria,
pois o vento,
às vezes tempestade,
implosão.
Se não é melancolia,
fora de moda, indesejada,
é vontade de encontrar
felicidade de um instante,
esta doce e permitida
premiada e sã.

espanto-me com minhas obrigações.
Nós que fomos incríveis.


2 comentários:

Tato Rickes disse...

Lindo! Poeta.
É por vezes cruel nossa tentativa de enquadrar os momentos vividos,principalmente, se neles fomos atuantes. Uma pálida imagem,talvez ainda persista em nós, mas que de tão esmaecida pelo tempo ou quiçá pelo inevitável abrandamento requer o esforço da adjetivação com maestria e ditada pelo tom. (vale o trocadilho rsrsrs...)
É possível pensar que a mágica da transcendência se opere justo pelo tom que empregarmos, afinal sua atuação revigora, reverbera e por que não dizer reaviva o que por nós esquecido foi.

Marco Antonio Martire disse...

Eu acredito que essa transcendência nos revela e ela é justamente a necessidade que forma o poema. Sinto essa força. Esses dias vi o filme NA ESTRADA e uma frase não saía da minha cabeça: me interessam as pessoas que queimam, queimam como fogos de artifício durante a noite! Impossível não lembrar daqueles dias. O que você esperava? Está registrado, como as fotos que nos queimam os olhos, não foi esquecido. Um abraço!

 
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