domingo, 1 de julho de 2012

Criando o futuro

O pai cravou os pés na terra
e disse com ares carregados,
solene como o incêndio
que derrubou o mercado:
- vou criar família.

e aquele futuro verteu-se,
às vezes líquido, com gosto de café,
às vezes sólido, com gosto de feijão,
em anos de trabalho
e filhos, bastantes filhos.

o presente os observa agora
caminhar, o bojo apertado
às voltas com dietas
e outras saúdes do corpo.

dias de desejo extremo,
pôr a espuma de leite
no capuccino com deleite.

sentem o alvoroço,
os mesmos versos,
aquela frase: criar raízes 
que já foram imigrantes.

há um destemido estupor
ao se contemplar o futuro,
há umas queixas...
mas se caminha
e vai se firmando a luz. 

o remédio para gripe,
o espanto e a entrega,
a conversão a fiel
da complicada terra.

talvez a geração que vem 
seja capaz de mais,
enxergue nos olhos 
e nos cabelos brancos
a espécie de amor
vivo na gente;

talvez reconheçam 
que foram criados
com outros exemplos
para uma terra sem nome,
pra se desbravar
com as palavras que se há de dar,
semeá-las no corpo
e extraí-las da boca,
um rumor no ouvido
um comichão...
o mar na orelha.  

Nenhum comentário:

 
;