sábado, 2 de junho de 2012

A cabeça dói

A ponta da cabeça dela
dói aos poucos
como se um prego
fosse martelado,
e a cada pancada
firme
que lhe entrega a sina
por obra do destino,
da genética
ou de algum surdo,
seu homem lamenta;

são palavras mudas
que chovem
nas paredes do quarto
e se entranham no assoalho
tanto, que uma vez visitada
pede-se ao visitante
que desfaça os cadarços
e se livre dos sapatos,
porque o medo vem
da precaução carinhosa
que os anfitriões tem
de não ver seus queridos
escorregarem até os braços
no chão úmido e limpo.

parece um cuidado demasiado
que a palavra à boca leva
já que cuidado
é o que para lá
os amigos carrega;

a dor não se trata assim...
quem sabe não é psíquica
um recado do fundo
mas bem do fundo
da mente doente?

severas são as carícias,
quem não põe defeito?
a dor é da minha amiga,
só ela a conhece,
só ela lhe dá peito.

já vem de tão longe
na história da memória
a dor da sua cabeça
que ela maldiz o puto médico
e as infâncias que se escondem,
escorregam perdidas.

e os filhos não mais tentam
pelo bem dela
gozar a bonita vida,
vida que a desmente.

poderia partir a dolorida
do espelho da própria casa,
assim se livrava
do nosso amor que parece
dura comida enlatada.

então meus olhos me voltam...
tenho carne, músculo e provo
os maus tratos desse martelo;

não é necessidade
a quase dor que dança na cabeça

é o que se ganha
quando se deseja o poema,
como se a dor emprestasse
através de quilômetros,
sem nunca se tê-la visto
ou melhor se preparado.
E o poema esparrama o retrato,
o retrato da condenada,
como se por sua vez emprestasse
à força de ingratidão,
que o consome
sob a coberta cálida,
o mais encantado abraço.

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