sábado, 14 de abril de 2012

A loja

agora o perfume dos peixes
vem de cartas amarelas,
abandonou a loja apagada;

diante da banca de jornal
o balcão de aço
pergunta do sorriso
mas o pó evidente
assusta minha história.

respirei por ali,
ganhei o lápis,
o corpo largo,
as pernas francas
que me carregaram.

tem quem caminhe por ali
e não perceba a ausência;
poucos mandariam flores
e recados escritos a mão
retirados de gavetas cinzas
com velhos documentos.

ele foi jovem, imperecível
beijo na boca rica,
nua, louca ou vestida

e eu debaixo da sombra
do letreiro comprado
conheci o sabor
esperança com palavras

nestes dias de vastos supermercados,
o sinal de trânsito não para fechado
e o saber de quem conhece o peixe
reluz com o pouco valor condenado.

muita gente nasce ainda
com o destino bom de ser filho
de uma loja como esta.

tive brinquedos
tenho irmãos
tenho umbigo

sentia o exame
por trás da balança
e os pêlos crescidos,
meus parabéns previstos em dezembro;

não se sabe mais onde vive
a família dos peixes neste bairro;
não há mais bons dentes
nem a foz do imigrante;

a calçada é o mesmo pedaço.
o mundo gira
a cidade persevera
o futuro encanta

mas caiu o chefe do meu mar
e sua equipe de profetas
que me contavam dos continentes;

prato na mesa quando como
reclama demais que é breve esta página
em que as aventuras das facas,
brandidas por especialistas,
logram ocupar com êxito
um cantinho dos corações.

outra balança me afere,
os lucros pesam
meus ombros e mãos;

antes daquela vidraça imponente,
poderosa sala de troféus,
se trabalhava com cestas e bicicletas.
a loja era a rua sem asfalto
os fregueses o coração puro.

2 comentários:

mari disse...

emocionante ler a história da peixaria... e lembrar da imagem daquele senhor de olhos azuis detrás do balcão...

Marco Antonio Martire disse...

Valeu, Mari! Ele deixou muitas saudades. Um abraço!

 
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