sábado, 21 de abril de 2012

Fantasiar é bom

E o sol despachou seu abraço pelo espaço e me alcançou na borda da janela. Do café sinto o aroma vindo da caneca, da cama o sabor do suor dela, já pouco no meu corpo. Algo me diz que foi embora a dona do sorriso, e o quarto vazio não é mais que sombra em pleno dia. A alegria se foi, sobra agora uma singela fantasia, a perdurar e crescer enquanto aguardo outra vez o som daquela voz.

Difícil retratar o amor de hoje. Um parágrafo assim remete muito mais ao passado romântico da espécie do que aos tensos dias atuais. Quando é que o estresse do trabalho dá uma folga e nos permite o tempo de viver uma fantasia? A fantasia do amor morreu, enterrada pela magia prática da publicidade e pelo sexo casual cultivado pelas celebridades. Fantasiar virou moda dos fracos que se comprazem diante dos filmes pornô. Não é mais gênese da criatividade nem alimento dos poetas.

A cartilha do bom ser humano ensina que devemos nos ater à realidade, às contas do mês, à lista do supermercado. Esse é o tempo bem gasto. Perdê-lo com a fantasia de um encontro que se dará ou com as palavras que se quer ouvir é remar contra a maré. Pobres de nós, submetidos a esse comando que vem de toda parte.

Imaginar hoje só é desejável  quando sujeito às exigências profissionais. É o esboço da máxima especialização, somos somente aquilo que nos pensaram. Até que ponto essa obrigação limita nossas vidas? Tem quem não ache seu caminho por falta de sonho, sonho que é a matéria-prima da fantasia. Não aprendeu que imaginar é tão importante quanto conhecer, falta-lhe o quase essencial.

Chego a pensar o que será do amor, nossa maior fantasia, no mundo prático que nos leva para a cama. É mais fácil ver tevê ou assistir ao Facebook do que criar uma histórinha que salve nosso romance. Assim ele escorre das mãos cotidianas para fora do nosso alcance, relegado ao papel de coisa lesa, ridícula, que não alimenta a chama. O que nos abre o olho, você sabe o quê, é a vida mais arrumadinha do vizinho, do amigo. Isso sabemos imaginar, é a pretensão de sermos para sempre os mais bem sucedidos. A cara do amor neste século XXI.

2 comentários:

Márcia Lopes disse...

Toda razão, Marco! Ter um sonho é um combustível fundamental. Uma pessoa que não tem um sonho, segue vazia, sem rumo.
Adorei!! Parabéns!

Marco Antonio Martire disse...

Valeu, Marcia! Que bom que gostou. Bom te ver por aqui!

 
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