sábado, 4 de fevereiro de 2012

Pra cada fã capricho meu sorriso

As horas são seu passatempo.
tem autógrafos na bolsa,
e faz vigília, seus olhos cobrem a portaria.

Quer seus ídolos,
os escândalos que atravessam o cordão de isolamento
e não dormem diante das câmeras.

Tomou cedo dois ônibus
para vencer ali e ser a primeira

Ninguém vai roubar-lhe o posto.
Pode até tocar os sortudos se quiser,
falarão com ela.
Conseguirá abraços, beijos.

No universo de seus remotos prazeres
busca a recompensa.
Seu trabalho não leva a nada,
os amigos são poucos.
Tem só aquela tevê gigante
e prestações.

Quem se destaca vai pra tevê!
Mesmo que a causa dessa imagem compartilhada
seja o tamanho dos glúteos e os seios amotinados.
É a recompensa.
Também procura a sua, na forma de um carinho
e quem sabe um autógrafo no caderno.

Não é sacrifício, é sonho.
Tomar parte um pouquinho do mundo.

A dona da imagem que idolatra
passa por instantes sobre os pés pequenos
sobre o tapete vermelho.
Derrama beijos distantes

Ainda há minutos para ter mais daquilo,
uma garoazinha morna pica os pelos dos braços,
admite:
precisa do trabalho amanhã.

e perde o juízo:
salta o alambrado, cai nos braços do segurança.
quer também um pouco de champanhe

Mas essa recompensa é impossível.
Hoje só poderá gozar com o chocolate
e o reality que adora.

Sofre de pudores quentes,
os braços daquele homem.

casa com ele
tem filhos

Mas não esquece de onde sua felicidade veio.
Fora da ilha tropical
quando ouviu uma canção.

A música toca no rádio e ela faz coreografia
com o caderno onde acumulava autógrafos.
Ainda se lembra de cada um deles,
da exatidão de cada pedido

Poderá dá-lo de presente,
seu destino

Não sabe o valor que a filha dará pra ele
tem medo que junte formigas
ou desapareça nas gavetas.

Na sala da mulher
tanto trabalho
vale como um troféu

2 comentários:

Alexandre Ferreira disse...

Muito bom! Conseguiu dar sentimento a tamanha futilidade.

Marco Antonio Martire disse...

Valeu, alexandre! Acho que você definiu bem o trabalho de poeta: revelar sentimentos por trás dos gestos, mesmo os aparentemente mais fúteis. Um abraço!

 
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