sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Uma manhã qualquer

          Qualquer coisa que não seja a chuva... foi a frase que me disse o personagem do sonho, logo antes que eu abrisse os olhos e pudesse enfim sentir meus pés na costumeira realidade. Nos meus lábios, tal como ficaria durante todo o longo dia e parte da noite, a frase queimava um pouco, que nem vela de aniversário recém-apagada, querendo sentir-se acesa, útil. O sol lá fora recomendava que eu saísse, disposto e preparado para alguma aventura, mas os membros deixavam-se ficar, entretidos com a peçonhenta preguiça principiando a tomar conta. Nem mesmo o café, quase meio litro!, parecia capaz de interromper a programação em branco do fim de semana. A cama vencia tudo, mesmo o juízo que, alertado pela sentença dos meus sonhos, começava a tomar consciência da ausência de planos. Pasmo com minha penitência, liguei a televisão.
          Tenho certeza que muitos já se sentiram assim, espremidos entre as refeições como um rato de laboratório e fadados a perpetuar a espécie sem sonhos, sem desejos maiores do que ir à geladeira buscar um doce ou abrir uma cerveja. Se você tem cerca de vinte, vinte e cinco anos é provável que não pense muito nisso mas o comodismo é algo que nos afeta com o passar do tempo, transforma-se em manias, vícios, que cedo ou tarde achamos difíceis de largar. Uns óbvios, como o cigarro, senhor da vida sedentária, outros nem tanto, como assistir televisão, a senhora. É mais fácil concluir que não há nada a fazer, fazer o quê?, e render-se ao hábito de estar ali deitado, consumindo horas de programação elaboradas por profissionais cujo trabalho é justamente manter você ali, cabeça no travesseiro. Isso mesmo, não é que você seja fraco, irremediável. Na verdade, sofremos os efeitos de uma sociedade que busca o entretenimento, que o deseja cliente, fidelizado a uma proposta. O segredo está justamente aí, na proposta. Sua tarefa é escolher como deseja viver. Se não o fizer, em algum lugar, um expert de terno o fará por você, porque é seu trabalho, não há o que lamentar nisso. Lamentar, nesta altura do desenvolvimento da indústria do entretenimento, é como a chuva para quem deseja um dia de verão. Totalmente desnecessária.
          Entreter-se faz parte dos prazeres do nosso calendário, mas a vida é maior do que isso. E quem não está contente com seu emprego, com o amor que tem, com as relações que cultiva? Dar mole nesse aspecto é igualmente comum, mudar é igualmente difícil. Não está aqui nenhum exemplo que possa ser seguido, estou longe do meu ideal. Escrever é fácil... admito.
          Espero que meus planos tenham êxito. Sou alguém que ainda sonha, que já caiu nessas armadilhas e se deixa dominar de vez em quando. Mas nada me tira a vontade de querer algo diferente. Se você quiser, verá que existe um caminho pra vencer o comodismo, seja qual for a forma que ele assuma em sua vida. A sociedade está cheia de belos exemplos. Mãos à obra! Façamos daquele primeiro parágrafo apenas uma memória feia, que enfrentamos poderosamente, da qual queremos nos livrar.

4 comentários:

Marcelo Oliveira disse...

É bem isso mesmo! As vezes parece que o mundo corre para se tornar um texto do Aldous Huxley...

Parabéns por mais este texto, Marco!

Grande abraço!

Marcelo oliveira

Marco Antonio Martire disse...

Valeu, Marcelo! Vou dar uma sacada no página do Social Rock Club e bolar um texto! Depois te apresento.

Anônimo disse...

Oi, Marco
Uma leitora da India apreciando suas palavras.
Belo texto, tudo que 'e sincero e simples tem tanto valor!
A tarefa 'e escolher como se deseja viver!
:) bjs
Lilian

Marco Antonio Martire disse...

Lilian, bom te encontrar por aqui. Seus comentários sempre me deixam bem. Tem coisa nova, lá da India no blog? Vou dar uma passada lá. Beijo.

 
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