quarta-feira, 20 de setembro de 2017 0 comentários

Resenha “Mi maior”, de Milena Rodrigues

“Mi maior” é o livro de contos de Milena Rodrigues, 95 páginas, publicado em 2017, pela Editora 7 Letras. Trata-se de obra de estreia e como sempre uma curiosidade me intriga: qual será o tema?
  
Haja história! Neste livro, a autora apresenta quarenta e duas. Quarenta e duas histórias compiladas que representam o início de seu projeto literário. Se acreditarmos que uma estreia trará para o mundo o tanto de busca que em si promete, sonhemos com a habilidade de Milena. A boa quantidade de contos em um único volume impressiona e confere profundidade a esta voz.

Dona de uma escrita clara, de fé em parágrafos bem estruturados, Milena elaborou estes contos com frases de elegante cinismo, onde aqui e ali sobressaem as ironias, com as quais, contudo, não demonstra estar ainda muito à vontade, mas que sugerem para a sua criação um brilho original.

Outra ideia também se impõe: de quarenta e duas histórias, ela poderia certamente ter destacado duas ou três, para maior desenvolvimento. A qualidade dos contos exibe o dom da invenção, mas peca pela sensação de improviso.

“Mi maior” é uma força como primeiro livro. E Milena Rodrigues a recobre com camada fina de reticente otimismo. O exemplo está no conto que entrega o título da obra. O protagonista se resolve na forma de música, a solução está em seguir para o próximo conto. A gente pede bis.
segunda-feira, 18 de setembro de 2017 0 comentários

O dicionário

Lendo um romance surge uma palavra inesperada, que me leva ao dicionário e à surpresa: no dicionário, a frase que serve de exemplo para o verbete é exatamente a mesma que eu lia no romance.

Não sou um homem que acredita em coincidências. Sou um tolo de voz fraca, que por maldade põe mais fé nos livros lidos que na rotina de sua vida. Confesso não querer interpretar o que vivi descrito no parágrafo lá em cima. Alguém talvez sorria, enxergando na coincidência uma trama de feliz destino, ter encontrado entre as palavras a sorte de uma vocação essencial. Outro leitor talvez me considere uma espécie de fanático, um dos que certamente inventam a coincidência, tentando achar para sua crônica um assunto.

Que sinistro.

Porém, o dicionário continua lá, com suas centenas de milhares de verbetes, brilhando para o fascínio das eras. Não posso reprovar a surpresa que preencheu naquela hora minha percepção do dicionário. Posso contar a história à minha moda, usando o alfabeto como instrumento de informação e aprendizado. Enquanto isso, interpreto as coincidências, as metáforas.

Eu gosto muito de dicionários. Se tivesse disposição o bastante, eu leria dicionários inteiros. Considero simplesmente incrível o trabalho de elaborar dicionários. De um instante para o outro, uma palavra qualquer vira verbete e o verbete adquire um significado. Esse significado fica registrado para todo o sempre, gravado como atestado de talento da palavra para a memória.

Mas dicionários não deixam de ser também submetidos de vez em quando ao teste do tempo. Fico imaginando como seja: suspeito que venha uma banca de especialistas, experimenta dar uma lida, uma boa examinada, depois decreta: o pobre dicionário deve ser revisto, quando não reescrito por completo. É uma responsabilidade. Quem nunca precisou estudar o sentido dessa ou daquela palavra boba?

Corretor ortográfico não resolve. Não se pode dizer que o caso está na precisão de escrever, ainda que se espere dos corretores ortográficos que em dado momento passem a escrever corretamente. O caso está na precisão do saber. Ou seja, na curiosidade de conhecer o vocabulário. Sem essa curiosidade não existiriam os dicionários.

Parece uma pesquisa reles. Garanto que não é.

Gosto inclusive de brincar com a palavra do dia, função que existe em dicionários para celulares. Abre-se o aplicativo grátis e surge como sugestão a palavra do dia. O jogo consiste em usar essa palavra quantas vezes conseguirmos no espaço de curtas vinte e quatro horas. Joga-se em grupo ou individualmente.

Eu comecei um dia com a palavra “euforia”.

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sábado, 2 de setembro de 2017 0 comentários

Vendem-se balas


Na base da escadaria, a menina de rua vende balas e lembro-me de quando a expressão que a define aqui era quase apenas masculina. Existiam somente “meninos” de rua. As meninas escapavam desse destino ou então fugiam de minha vista de pedestre. Não lembro quantas meninas faziam parte da turma de “Capitães de areia”, romance de Jorge Amado, sei que neste início de século XXI as meninas parecem tomar parte igual desse time de abandonados, meninas e meninos de rua a quem nós imaginamos que o acaso empreste as refeições das manhãs e das noites.

Penso em uma esperança. A menina de rua vendia balas na base de uma escadaria e um homem passa apressadamente, percebe o que a menina vende e entrega a ela dez reais. Ele não quer a bala e a menina esboça uma expressão de surpresa enquanto o homem prossegue. Alguns metros depois, o sujeito se arrepende: percebe que não ensinou nada com seu gesto, valorizou a mendicância, o ato vicioso de pedir, e não o trabalho. Portanto, retorna. Mudou de ideia, pede a mesma bala de antes, pela qual pagou dez reais. E a menina implacável responde: se quer a bala, precisa pagar os dois reais.

Para um boçal como esse, não resta outra alternativa que pagar os dois reais pela bala, entender que gastou doze reais ao todo no doce e seguir em frente. Da próxima vez, será tão esperto quanto aquela criança, quanto qualquer um. Na entrada do show, ocupará a fila com redobrada atenção, para que não roubem o lugar cativo diante de seus ídolos. Vai também respeitar quem prepara o jantar com cuidados de enfeitar a travessa de comida sobre a mesa. Quem sabe poderá um dia admitir que a menina de rua lhe deu uma lição, neste momento não pode, porque pagar o aluguel do apê pressupõe que o chefe tenha poderosa confiança no seu faro para o gol. Talvez admita a velha lição quando subir uma escadaria e perceber que uma jovem sobe a mesma escadaria mais rápida, mais leve e mais alegre. E viver esse dia talvez seja frear os próprios passos que sobem junto ao corrimão, para não enxergar o casal abraçado depois das catracas, realizando um beijo difícil de suportar se alguém na estação não tem setenta anos.

No dia em que a menina de rua vendia balas, ele pagou primeiro dez reais, depois mais dois reais, agradeceu pela bala que estava à venda e foi embora para casa. Quando cruzou o espaço diante da loja de pães de queijo, reparou que saía uma travessa quentinha do forno, recordou-se da fome e esboçou um sorriso irritante.
         
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sábado, 19 de agosto de 2017 0 comentários

No lugar


Uma palavra no lugar realiza algumas coisas. Talvez não consiga mudar o mundo, talvez não sirva para salvar uma floresta, talvez não consiga apagar nem mesmo um incêndio ou tampouco evitar uma traição. Mas uma palavra colocada é um instrumento, que usamos às vezes bem, outras mal. Uma palavra bem no lugar, por exemplo, cederia gentilmente o assento no metrô, uma palavra no lugar pediria timidamente um beijo. Uma palavra no lugar exigiria justiça e respeito às diferenças. Uma palavra no lugar rejeitaria a trajetória fatal da bala, uma palavra no lugar existiria só por acaso no verso de um cardápio ou na beira de um precipício estranho. Uma palavra no lugar realiza coisas, realiza casamentos, separações, realiza sonhos e pesadelos. Uma palavra no lugar muitas vezes é um tremendo palavrão. Uma palavra no lugar é matemática e realiza naves gigantes no espaço, realiza drones fazendo entregas pelos céus das cidades e realiza também mísseis nucleares desativados. Mas uma palavra no lugar não resolve a fome, mostra no lugar o quanto estamos errados. Uma palavra no lugar reflete o tempo, seja o tempo qual for. Uma palavra no lugar nomeia filhos, nomeia povos, nomeia culturas e nações, no lugar explica este planeta e a sua lua. Uma palavra no lugar descreve, descreve o que é visão para os cegos, o que é som para os surdos, uma palavra no lugar pode ajudar quem precisa, ajuda com a despesa do condomínio, ajuda com o problema da TV a cabo. Uma palavra no lugar também não é perfeita. Mas vence a teimosia do amigo, vence também de lavada a ignorância. Talvez não seja uma palavra bonita escrita, de um jeito que a todos agrade e para que todos fiquem sabendo. Ainda assim uma palavra no lugar está na página ou na tela entre dezenas, centenas, milhares de outras. E uma palavra no lugar frequentemente se repete, reverbera, se multiplica e por encanto transforma. Ela é instrumento que gera e regenera. Uma palavra no lugar é nossa.

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quarta-feira, 9 de agosto de 2017 0 comentários

Almoço grátis


A base da pirâmide não sabe, mas piloto e copiloto de aviões nunca recebem a mesma refeição quando em serviço. Há sempre para eles duas opções de refeição a bordo das aeronaves, o piloto escolhe uma e o copiloto a outra. A razão é óbvia: previne-se dessa forma que os dois comam juntos comida estragada e passem mal ao mesmo tempo durante o voo. Essa lei também se aplica à tripulação, por igual motivo, metade come a opção um, metade come a opção dois.


Rígidos protocolos de segurança como esse sobrevivem porque são indispensáveis. Ninguém está livre de uma falha no controle da cozinha, mesmo de uma cozinha profissional, responsável por milhares de refeições diariamente.

Quando o almoço é grátis então, a responsabilidade é ainda maior. O cara paga pela passagem de avião imaginando uma viagem pacífica, no máximo aquele friozinho na barriga, característico da aventura fora da zona de conforto. Chega a hora do almoço e ele ataca o prato sem dó nem piedade, sai de perto que o apetite é quem manda. De graça é mais apetite ainda.

Diz o patrocinado ditado: não deixe para amanhã o que pode fazer hoje. Carpe diem, portanto. O almoço grátis deve ser examinado à luz dessa sabedoria. Quem oferece tem que estar preparado para a lógica do camelo, o que sobrar é lucro.   

Volto ao papo sobre comando de aeronaves. Pilotos e copilotos de aviões já viram muito almoço grátis na vida. É claro que as tripulações também, sempre no interior dos Boeings superseguros. Como última salvaguarda, o que tranquiliza todos é o protocolo de segurança: piloto e copiloto jamais almoçarão juntos. São convidados indesejados nos almoços um do outro. Nessa mesa posta entre as nuvens, afeto não resolve. Afinal, pensa o despreocupado comandante: se ele come junto comigo, quem pilota o bendito avião?

Com certeza, fora o garçom. Que tem família, não é bobo nem nada, em terra firme declara que não responde pela cozinha. Na dúvida, mostra até a carteira.  
  
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sábado, 22 de julho de 2017 0 comentários

Sem ofensa


Fraudes podem ocorrer em qualquer lugar do mundo, inclusive a 8.848 metros de altitude, no topo do Monte Everest, a montanha mais alta do planeta. Um belo casal de alpinistas indianos — Dinesh e Tarakeshwari Rathod — decidiu abandonar toda a discrição e repercutiu sua suposta conquista na imprensa de seu país: teriam sido o primeiro casal indiano a alcançar o cume do Everest, isso em 2016. Ficaram famosos, mas a alegria durou pouco: a fraude foi descoberta e denunciada por um outro alpinista da Índia, quando ele constatou que as fotos usadas pelo casal para comprovar a façanha eram na verdade fotos de sua própria escalada, alteradas digitalmente.

A fraude, neste caso, teve efeito contrário ao que desejava o casal. Em vez da fama alcançada por realizar um feito notável, ficaram célebres por tentar enganar e tirar proveito da boa vontade da sociedade indiana. A internet não costuma perdoar esses erros, se o leitor tem alguma dúvida experimente digitar o nome dos dois no Google. O fato está documentado com muitas fotos.

É impossível avaliar o que houve com o casal depois desse evento. Os dois não são nem mesmo alpinistas profissionais, penso no que tiveram e terão ainda de enfrentar como desconfiança junto aos colegas de trabalho, junto à família. Poderão alegar que a fraude em nome da façanha não é novidade, o que é bem verdade. Há uma preocupação das autoridades nepalesas e chinesas — na fronteira dos dois países fica o Everest — em fiscalizar quem realmente consegue atingir o topo da montanha. O desejo de fama era tão grande, diria o casal fascinado, que não suportamos enfrentar o frio extremo e intenso, a extenuante carga física e a falta angustiante de oxigênio, chegar na beira da terrível montanha já foi incrível e nós achamos que merecíamos algum reconhecimento. Daí o alarde.

O quase espanto. 

E a solução. Que este cronista tem: sugiro ao humilde pessoal do Himalaia que providencie o desenvolvimento de um game onde se possa experimentar a escalada sem os riscos inerentes à tarefa. O problema é muito claro: as pessoas querem subir a montanha, mas não querem arriscar a própria vida para isso. Hoje em dia existe game de futebol, de tênis, de basquete, de esqui, eu sugiro então um game de escalada. Fazendo uso dos últimos avanços nas técnicas de realidade virtual, a simulação teria tudo para ser um sucesso.

Que frio o quê! O sujeito põe uma sunga diante da piscina, debaixo de um sol brando, e mergulha virtualmente nos climas do Nepal e da China. Depois diz assim: escalar o Everest é fascinante, eu prefiro a face norte, mas há quem prefira a face sul, eu demorei dois dias para conseguir, você demorou quanto? Eu adorei a experiência, as fotos ficaram ótimas, sem ofensa.

Sem ofensa.
    
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domingo, 9 de julho de 2017 0 comentários

A chance de ficar calado

Deu na imprensa. A cantora escocesa Annie Lennox, responsável por 75 milhões de discos vendidos, recebeu de uma rádio californiana uma peculiar proposta de trabalho: a coordenadora musical da rádio encontrou na rede uma seleção de canções da veterana cantora e gostou do que ouviu. Imediatamente teria enviado um email para a talentosa artista de 62 anos de idade, 40 anos de carreira, quatro prêmios Grammy, tratando-a como se fosse uma iniciante.

Cá do meu canto de mercado, a notícia nem parece tão espantosa. Penso no porquê de Annie se lixar a ponto de divulgar. Deve ser a nossa recorrente reclamação, a velha história da falta de respeito: somos sujeitos da precariedade das relações, não vale a prontidão dos laços de amizade e afeto, vigora sob o sol amarelo e nas rádios um toma-lá-dá-cá motivado por necessidades momentâneas e fugazes. Daí que não se experimenta o verdadeiro respeito, o que certamente a tal coordenadora musical teria experimentado se tivesse se dado ao trabalho de uma pesquisa básica sobre a artista que aprendia a admirar.

Repercuti a notícia aqui em casa e a turma passou outros exemplos. O estagiário chegou certa manhã no trabalho louco por apresentar a banda incrível que havia descoberto na rede, seu tom de voz era de incontestável novidade: a banda se chamava Dire Straits e a música era Sultans of Swing. Demos risada.

Acrescento que atribuem a Nelson Rodrigues uma frase cascuda sobre o assunto: “Jovens, envelheçam!”

Não sou nem um pouco a fim de radicalizar de pé diante do povo jovem, muito bom ser jovem, tanto que a onda colateral desse assunto proposto por Annie Lennox é a galera veterana — que acumulou um pouquinho mais de sorrisos nesta vida — passar a se considerar repentinamente antiquada, para não dizer velha. Não deixa de ser uma vingança da tal coordenadora musical, cuja carreira a vocalista do Eurythmics teria jogado na fogueira ao divulgar o conteúdo do desastrado email. Não sei o que aconteceu com Kylie (esse é o nome dela), se perdeu o emprego ou se foi até promovida. Mas fica nas nossas mãos de ouvintes um cartaz enorme onde anunciam sei lá que terrível idade. Quando a gente olha, debaixo do mesmíssimo sol, impossível não ver. Também por isso nós batemos palmas, Annie Lennox sabe. Já Kylie eu não sei, que tenha a chance de mostrar que aprendeu.
     
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sexta-feira, 23 de junho de 2017 0 comentários

Lote um metrô



O nosso metrô usa composições em que se pode passar de um vagão ao outro sem bloqueios. Não sei o que prefere o leitor, mas eu gosto de ir no primeiro vagão e experimentar o efeito: já que é possível enxergar do primeiro ao último dos vagões, desde que se vá em linha reta, percebe-se também do mesmo jeito as curvas que o metrô faz debaixo desta cidade, uma percepção de outra forma improvável — através das janelas, diante da escuridão do subsolo a sensação geral é de um túnel intrometido.


Em uma noite premiada por uma calma no peito, calma de estaca no couro deste vampiro, lembrei daquelas passarelas móveis que existem em algumas estações do metrô, aquelas passarelas que funcionam como esteira de academia a acelerar nosso passo. Dei-me conta de que o metrô é um parente daquelas passarelas dinâmicas e resolvi caminhar do primeiro ao último vagão, em vez de me acelerando, fazendo o contrário, na prática freando.


Toda a freqüência da estação de embarque ajudou muito, não era hora em que as pessoas costumam viajar com pressa para casa, mesmo o condutor da composição conspirou comigo, assinara contrato com o honesto salário, foi gentil. Naquele horário as pessoas costumam também ir para casa, mas é que o metrô seguia vazio, os seguranças a serviço, sobrou para os cantores e instrumentistas. Os lugares para sentar exibiam um poder de humor que a ninguém espanta. Nada sobre o ar condicionado. Somos uns frágeis tolos, sofremos com o preço da porção de pães de queijo, ou com a qualidade tosca das balinhas.

Os vagões estavam iluminados demais, eu enxergava tanto dentro deles quanto fora, os olhos tentavam compensar os excessos — o que deu certa onda. Faltou um som que me valorizasse o gogó. O boné eu trazia, quem me conhece sabe, sou um trouxa de boné. Boné faz um bem à minha careca que aos cabeludos fica difícil imaginar.

Mas de volta ao metrô... nossa gente vacila, fácil ver idosos em pé nos vagões, não há quem se exalte. Dizem que nos trens sobre trilhos é igual. É pior. Lote uma rodoviária e verá. Lote uma barca, ou aquela estrada. Lote um hotel cinco estrelas. Lote um ponto de ônibus abandonado, lote a piscina ou um bom restaurante. Lote os aeroportos. Lote um churrasco com molho barbecue. Lote um metrô.

Cheguei em minha estação na boa, funcionava calma e nem fui assaltado. O pessoal conseguia ouvir até música nos fones de ouvido. Sossego maior não há.

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domingo, 11 de junho de 2017 0 comentários

Bem-estar geral


Para a geração Z (a galera nascida entre os anos 1990 e 2000), não faz sentido algum ser escravo do trabalho. Por isso, especialistas acreditam que o circunspecto mercado passará nos próximos anos por mais uma transformação: a meta será evitar gastar infinitas horas do dia ou da noite dentro de uma empresa. Essa tendência de viver será tendência também de consumo e já foi mapeada, possui até nome entre os estudiosos: ela é chamada de wellness. Seu potencial global foi estimado este ano em três trilhões de dólares, o que supera inclusive as vendas mundiais da poderosa indústria farmacêutica.

É incrível imaginar que uma nova indústria como essa, interessada especialmente em oferecer bem-estar às pessoas, possa ganhar em poderio de gigantes como a indústria de medicamentos, justamente a indústria que é interessada em garantir nossa saúde. Não é? Para o mercado ainda são duas coisas diferentes: saúde e bem-estar, uma conclusão que pode iniciar várias conversas exatas. 

Uma delas diz respeito ao mundo que nossa espécie inventa. Que mundo será capaz de gerar o tal faturamento trilionário? No mundo em questão, as pessoas vão trabalhar menos, porque será mais importante aproveitar a vida e gozar tipos incontáveis de prazer associados ao entretenimento. Estamos falando de uma sociedade sofisticada, íntima da inteligência artificial, da robótica e das realidades virtuais.

Outra conversa que podemos ter é sobre o homeworking. O mundo do trabalho caminha para o exercício das tarefas profissionais em casa. O sujeito acorda, lava o rosto, faz o desjejum e em videoconferência com seus colegas inicia suas atividades produtivas. Há quem ache bizarro, mas prosseguimos rumo à sagrada individualização faz tempo. O engraçado é que nunca deixamos de ser manada.

Papo insano? Nem tanto, pois a verdade é fácil de admitir: saúde e bem-estar já são o mesmo tópico na cabeça das pessoas. Vivemos com vontade de perdurar, o que muda é a receita. Tem quem tome comprimidos das mãos de geriatras, tem quem aposte nos exercícios com personal ao ar livre, tem quem ponha fé nas receitas da chef natureba. Entendo que apenas uma verdade é prejuízo, principalmente para a geração Z, só uma verdade não serve à diversidade. Daí que hoje eu quero aquela receita, amanhã eu tento a outra, depois eu quero mais uma. O cobertor é que continua curto.

Falo de cobertor curto porque o leitor sabe, essa história fantástica de trabalhar menos — porque o que importa é consumir de acordo com nosso bem-estar — carrega em si contradições importantes. Juro que uma galera vai ficar fora dessa utopia consagradora do engenhoso sapiens sapiens. A espécie humana não me decepciona, sei que ninguém vai querer faltar nessa farra, então haja competição, tome hora extra e terceirização, tome trabalhar e tratar de ganhar muito dinheiro, que no fim das contas é o que garantirá lugares nesse parque de diversões. Estresse. Estresse demanda necessidade de bem-estar. Ponto para a civilização, por enquanto a maquininha, passa o cartão. Amanhã a gente vê.

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sexta-feira, 26 de maio de 2017 0 comentários

Chove, chuva


Enfim depois do nosso verão caiu a chuva. Veio tímida, mas ainda assim eu me peguei reclamando. Fui mesquinho mesmo, contra o bem-estar do meu cotidiano, que adivinhem: às vezes se volta por obra de ideias tortas contra as chuvas de momentos necessários. Perdoem-me se sou desajeitado ao tratar do assunto cotidiano, mas não me ocorre outra forma de comentar sobre meus desacertos.

É assim: se faz sol, reclamo, se chove, reclamo também.

Sei que na vida preciso encontrar o caminho por onde escoar meu humor de francesinha. Esculachar o valor da estação é um deles. E eu fraco converto-me em super pau-mandado das emoções chulas, imaginando estupidamente que só porque é emoção tem valor.

Tem emoção que não vale uma segunda-feira, tem emoções que não valem um meio lábio. Abraço a chuva sem esquecer que merecemos muito mais que mágoas, somos um tanto melhores que a melancolia barata de um cigarro, somos feitos de matéria mais valiosa que bolores.
     
Chato talvez seja o adjetivo certo para o estado em que me regozijo de fúria, disposto a delatar toda a crueldade que usam como fantasia por aí. Retaliação. Eu deveria revidar. Ser, por que não?, a resposta das questões tropicais que teimam em negar a chuva e o sol.

É claro que sol demais faz mal e a chuva alaga por aqui. Não são detalhes, mas queimaduras e inundações também podem nos preencher de invenções descartáveis ao coração. Este mundo caminha tão vou sob a marquise hoje, a reclamação volta sempre espantada amanhã: sol em brasa, reclamarei de você. Hoje a chuva é refrigeração, poupo o meu mar.

Chove, chuva.

Não faz três anos e me preocupava o nível dos reservatórios de água. Lembro que na ocasião pensei em como seriam duas calçadas de uma cidade como o Rio de Janeiro a sofrer vizinhas com a falta de água. Era essa a história.

Chove, chuva.

Enquanto isso, penso nas palavras da moda. Saudade do tempo em que os verbos eram bons. A gente mudava de casa, conservava a natureza, arrumava um emprego. Hoje o verbo conservar virou apenas metáfora de canalhice e safadeza. Não se engane, os verbos mudar e arrumar também.

Olha que me escondo na chuva.

Mas teria de ser um dilúvio.

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quinta-feira, 11 de maio de 2017 0 comentários

Parar o quê

— Eu não sei parar.
— Simplesmente pare.
— Não é tão simples.
— Não é fácil, mas é simples, basta parar.
— Tenho medo.
— Medo do quê?
— O que faço quando parar?
— Você dá um jeito.
— Minha vida é um tédio.
— O tédio não é invencível.
— Não sei fazer outra coisa.
— Terá que aprender.
— Aprender como?
— Não consegue?
— Desculpe a minha burrice...
— Burrice é uma coisa que dá e passa.
— Não tenho como, parar é impossível. 
— Muita gente já parou.
— Mas não eram fracos como eu.
— Eram fracos igualzinho.
— Tem que ser muito forte para parar.
— É preciso querer muito.
— Eu quero muito.
— Então você vai parar. 
— Quando?
— Cedo ou tarde você vai parar.
— Tem que ser hoje.
— Que seja hoje.
— Não, talvez amanhã.
— Amanhã então.
— Tá vendo? Não rola.
— Mas se já marcou a data...
— Amanhã, né? Mas não vai dar...
— Amanhã você vai saber.
— Amanhã está muito longe.
— Amanhã está no lugar certo, apenas espere.
— Esperar é muito difícil.
— Muito difícil é parar, até que esperar é fácil.   

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sexta-feira, 28 de abril de 2017 0 comentários

Sim, concordo

Eu é que peço: por favor, me convença. Olha que eu peço com jeito, peço por gentileza, porque preciso, preciso que as pessoas se preocupem em me convencer. Quero poder dizer, com a certeza de quem cresceu em uma das maiores cidades do mundo: eu sou alguém.

Por isso, se tem o próprio valor em alta conta não se sinta inibido, tenta me convencer. Eu consigo horário, trabalho muito mas ouvirei a argumentação, vou admirar o raciocínio. Fico bobo de ver como as pessoas são boas em encontrar formas de convencer. Eu confesso que tais processos me fascinam. Com a calma dos fãs, paro para aprender com a habilidade. Sem discussão: é a maior prova de estima que podem me dar.

No trânsito, por exemplo. Convença-me de que há isenção de culpa, que ninguém bebeu ou olhou o celular, que se calava inocente enquanto dirigia. Nada nada tão difícil, uma pessoa de talento consegue fácil convencer até as autoridades.

Na balada também, ninguém se nega. O papo será com certeza o melhor, mesmo ela já sabe, é tanto conhecimento, tão bem conectado que espanta, é uma enciclopédia, nasceu com a Wikipédia na mente. Eu digo, muitas pessoas ao redor se espantam, mas exagero, não há com o que se espantar, um sujeito que passou pelo que passou, que viveu o que viveu, convencer-me é um favor que faz.

Eu queria ter mais mãos, para bater palmas e ainda cumprimentá-lo ao mesmo tempo, porque esse lance de ter razão é uma qualidade original do gênio. Como se as palavras da pessoa fossem obra da boa vontade de Deus, é uma sabedoria iluminada, um orador, quando esse orador fala, convence qualquer um. De qualquer coisa. 

Sei que não se nasce assim, quem convence dessa maneira costuma enfrentar muitas dificuldades, mas geralmente é um humilde, não tira onda. Convence porque sabe mesmo, estudou para isso, aprendeu a convencer, sou forçado a admitir. Se por acaso ligar, melhor atender, é sorte grande chegando. Excelente negócio na certa, oportunidade, dica preciosa, esteja pronto: o que é bom no mundo sorriu para você.

Só não vá responder errado, dizendo que não concorda. Para que criar um contratempo desse tamanho? Discordar de pessoa como esta... faz até mal para a saúde, capaz de você se preocupar demais sem necessidade, quando ela já veio com a solução.

Bem que me disseram, infelizmente existe quem não tolera o que é perfeito. Sério, não faz assim comigo, não insiste, insistindo desse jeito vai que você me convence. Sempre. Sabe que concordo de graça com você.

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sexta-feira, 14 de abril de 2017 0 comentários

Tesla na pole

A companhia Tesla ultrapassou a General Motors como montadora de carros mais valiosa dos EUA. Seu valor de mercado chegou a 51 bilhões de dólares por lá, o maior entre as montadoras americanas. No ranking global, a Tesla fica agora atrás somente da Toyota, da Daimler, da Volkswagen, da BMW e da Honda.

O caso em si não teria vocação alguma para vencer o noticiário econômico não fosse o fato de que a Tesla é uma montadora diferente, especializada em montar e vender carros elétricos de alto rendimento. Isso mesmo: carros elétricos. Carros elétricos valem portanto como a novidade da vez, nada de cheiro de petróleo e gasolina, o carro que queremos a partir de hoje poderia ser com certeza movido a eletricidade.

A tristeza fica por conta do mau destino do petróleo, antes o nosso querido ouro negro. Destinado a ser em breve superado pela onipresença da eletricidade em nossas vidas, o petróleo deixará de ter esse valor todo capaz de criar, segurar ou derrubar governos. Certos rincões do planeta perderão o eterno motivo de suas brigas, penso eu, imaginando aqui que dinheiro seja a única razão pela qual se briga neste mundo. Santa inocência!
  
Seria simplesmente espetacular assistir sentado ao petróleo jorrando de volta para o interior da Terra, de onde saiu um dia para impulsionar nossa espécie rumo não se sabe para onde ainda. Quem disser que sabe merece um caixote de madeira e um lugar próximo à entrada do metrô da esquina, para alardear suas fascinantes descobertas, providenciemos.

Eu brinco, mas é claro que uma influência tão poderosa quanto a da centenária indústria do petróleo não desaparecerá assim do nada do nosso convívio. Haverá um descompasso, algum tipo de estertor ou meio-termo, e o imenso e precioso fluxo de interesse e capital vai migrar, provavelmente para o setor de meias.

Meias sim, por que não? É a minha aposta. Esqueçam os motores elétricos da Tesla, caminharemos ao ar livre graças à aposentadoria do petróleo, serão muitas as comemorações, precisaremos de meias, muitas meias, para evitar o famigerado chulé nos pés do povo. Chulé ninguém quer, aposto nas meias.

A que ponto chegamos: sinto-me à vontade para comparar petróleo com chulé, uma tolice que poderia me custar um bom emprego trinta anos atrás. Todos então precisavam muito do petróleo e ainda precisam. Ou alguém em sã consciência acha que o padrão global de consumo se sustenta hoje sem petróleo? Atingimos um ponto do qual não há volta, sinto dizer. A solução está adiante, ou não. Por isso, a performance da montadora Tesla é ainda mais impressionante e importante, preocupa é o prejuízo: 5 bilhões de dólares apenas no ano passado. Seu proprietário é o ricaço sul-africano Elon Musk. Eu pergunto: quem de nós conseguiria descansar a cabeça no travesseiro à noite sabendo que é dono desse prejuízo colossal? Definitivamente, a classe dos bilionários é de uma gente que desafia as minhas boas intenções. Nasceram do ventre de uma mãe, assim como nós, morrem mais ou menos com a mesma idade, é verdade, certamente não das mesmas coisas, mas se vão, se vão. Que estranheza imaginá-los do meu canto. Melhor é tratar do meu chulé.

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sábado, 1 de abril de 2017 0 comentários

Compartilhar a vida


O senhor resolveu sentar-se na mesa mais externa da lanchonete, e dali passou a admirar o movimento da rua, bebericando um suco de acerola com laranja, mordiscando pães de queijo. A moda de ficar por ali nem teria sido notada, não fosse um camelô de bugigangas, que ao passar por aquele senhor assumiu ares de profissional muito surpreso e fez questão de cumprimentar o homem, a quem chamou insistentemente de “compositor”. Os dois tiraram duas ou três selfies animados, quem frequentava o lugar passou a enxergar o homem, sentado naquela mesma mesa quase todos os dias de sol.

O cara foi virando atração. Desavisados apontavam da calçada, a garçonete ia atender o homem sempre rapidamente, pegou fama entre os camaradas sobretudo o apelido: o compositor. Mas compositor de quê, ora essa? De música, mas que músicas? Queria eu saber a qual gênero musical o nosso artista se dedicava. Seria um sambista de primeira? Seria um letrista de pop/rock? Seria o roteirista daqueles sertanejos? Ninguém conseguia me responder, mas a imagem sobrevivia, o povo dos sucos gostava de vê-lo sentado à mesa, preocupado com a existência dos pombos e com o passeio dos cães.

É claro que reclamo do cara feito um enciumado, de apreciar aquela estada na lanchonete e não ter que me apressar para casa, atrás de mais uma leva de capítulos daquela série nova de ação. Na rua, sob as ordens da lei, ficam sós os vagabundos pela manhã, e os bêbados à noite! Que engano.

Tem uma turma que considera dever de cidadania ocupar a rua, berra com razão de cima dos coretos das praças que a cidade é nossa. Sim que a cidade é nossa, mas ocupá-la não é projeto de cidadania, é viver, é viver, amigos, é viver. O compositor lá da mesa da lanchonete concorda, talvez crie mesmo uma canção, que na voz de uma fina intérprete de nossa MPB — seja samba, rock ou sertanejo — ocupará as horas dos ouvintes. Estará criada a trilha sonora de nossas ruas, as calçadas serão o cenário polivalente, os pedestres os personagens sem vergonha. Os heróis e heroínas. A vida da gente servirá de saga, servirá de drama, servirá de comédia, quem vai rir, quem vai chorar, e nossas histórias terão sido contadas e ouvidas. Saberemos de nós mesmos então mais do que os marqueteiros nos escritórios, mais do que os jornalistas nas redações.

Todo esse movimento porque se resistiu a ficar apenas em casa, entre quatro paredes fortuitas. Fugiu para descansar na rua, foi fazer hora, fui tomar sol, fui espairecer e encontrou quem? Nem que seja um pálido olhar, quiçá uma conversa com palavras! E se tornaram amigos. Compartilharam a vida.

Publicada na RUBEM - Revista da crônica. Leia esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com
domingo, 19 de março de 2017 0 comentários

No sol sou de assar as coxas


Por causa de uma corrida sob sol forte contraí assaduras. Elas atacaram-me na parte interna das coxas, como sinal de que elas — minhas coxas — atingiram um perímetro proibido, em que se tocam durante meus exercícios.

Ora, ora, que notícia! Vejam como sou: não poderei mais correr sossegado em toda a cidade. Em qualquer pista onde arriscar meus passos sobre tênis de corrida lá estarão meus detratores, a gargalhar de minhas futuras assaduras como quem vê da própria janela um dinossauro ainda vivo. Eles existem, não tenham dúvida, não os dinossauros, os que riem de meras assaduras. Só de imaginar meu andar assado e enviesado, as pernas tortas na calçada, a boca contraída em um efeito de quase espasmo, esses bárbaros ególatras sorriem. Se me veem na rua tomar a direção da farmácia mais próxima certamente disparam uma foto para o celular do amigo, em segundos a comunidade descobre o meu problema. Nada mal!

Foi para isso que inventaram a internet: para rir com mais eficiência da vida dos outros, não sabiam? Até as assaduras, não escapam nem as minhas assaduras, o que devo fazer a respeito? Mudo-me para a ilha de Páscoa. Parece que junto das famosas cabeças gigantes da ilha de Páscoa a internet não pega. No caso nem seria necessário mudar-me, nesta cidade a vantagem é a mesma.

Mas deixo as minhas assaduras para lá, tratei delas, já já brinco de bom. E o meu coxão? Este terei que partir em dois... brincadeira, de volta àquela dieta encomendada anos atrás, que deu certo de cara, mas que abandonei depois. O negócio é coxão duro, nada de coxão mole, coxa no tamanho certo e sem as assaduras, que ardem para burro, só que ninguém vê. Ainda bem, por isso conto e não mostro, não é bonito.

Bonito é o mar, são as pistas de corrida ideais para o meu exercício. Bonito é o horizonte aberto, largo diante dos olhos, desfazendo os focos de estresse. Gosto muito de correr, mas prefiro as ruas, fujo das esteiras, meu cenário é esta cidade em ação, as bicicletas passando, os pedestres da mesma vibe passando, os cachorros nas coleiras, até mesmo os carros. Em minha última viagem, arrumei um tempo para também correr, passeei.

Há para mim algo de vital nos exercícios ao ar livre. Academias funcionam, é claro, prestam serviço essencial. Mas eu decido me tratar nas ruas, sou da caminhada, sou do passeio, olho para baixo e olho para cima, para a frente é que se anda, vou descobrindo o comércio novo, as lojinhas e galerias. Os camelôs que surgem. Entro nos mercados, atravesso nos sinais, cuidado com os nossos buracos. Olha a cigana, os hare-krishnas sumiram, o pessoal toca flauta, guitarra, cavaco. Pede dinheiro para UNICEF, pede dinheiro, vende amendoim e paçoca, despista os pivetes. Sacode a ordem, sacode o caos. Cada assadura que arrumo é esta a história.

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