sábado, 22 de julho de 2017 0 comentários

Sem ofensa


Fraudes podem ocorrer em qualquer lugar do mundo, inclusive a 8.848 metros de altitude, no topo do Monte Everest, a montanha mais alta do planeta. Um belo casal de alpinistas indianos — Dinesh e Tarakeshwari Rathod — decidiu abandonar toda a discrição e repercutiu sua suposta conquista na imprensa de seu país: teriam sido o primeiro casal indiano a alcançar o cume do Everest, isso em 2016. Ficaram famosos, mas a alegria durou pouco: a fraude foi descoberta e denunciada por um outro alpinista da Índia, quando ele constatou que as fotos usadas pelo casal para comprovar a façanha eram na verdade fotos de sua própria escalada, alteradas digitalmente.

A fraude, neste caso, teve efeito contrário ao que desejava o casal. Em vez da fama alcançada por realizar um feito notável, ficaram célebres por tentar enganar e tirar proveito da boa vontade da sociedade indiana. A internet não costuma perdoar esses erros, se o leitor tem alguma dúvida experimente digitar o nome dos dois no Google. O fato está documentado com muitas fotos.

É impossível avaliar o que houve com o casal depois desse evento. Os dois não são nem mesmo alpinistas profissionais, penso no que tiveram e terão ainda de enfrentar como desconfiança junto aos colegas de trabalho, junto à família. Poderão alegar que a fraude em nome da façanha não é novidade, o que é bem verdade. Há uma preocupação das autoridades nepalesas e chinesas — na fronteira dos dois países fica o Everest — em fiscalizar quem realmente consegue atingir o topo da montanha. O desejo de fama era tão grande, diria o casal fascinado, que não suportamos enfrentar o frio extremo e intenso, a extenuante carga física e a falta angustiante de oxigênio, chegar na beira da terrível montanha já foi incrível e nós achamos que merecíamos algum reconhecimento. Daí o alarde.

O quase espanto. 

E a solução. Que este cronista tem: sugiro ao humilde pessoal do Himalaia que providencie o desenvolvimento de um game onde se possa experimentar a escalada sem os riscos inerentes à tarefa. O problema é muito claro: as pessoas querem subir a montanha, mas não querem arriscar a própria vida para isso. Hoje em dia existe game de futebol, de tênis, de basquete, de esqui, eu sugiro então um game de escalada. Fazendo uso dos últimos avanços nas técnicas de realidade virtual, a simulação teria tudo para ser um sucesso.

Que frio o quê! O sujeito põe uma sunga diante da piscina, debaixo de um sol brando, e mergulha virtualmente nos climas do Nepal e da China. Depois diz assim: escalar o Everest é fascinante, eu prefiro a face norte, mas há quem prefira a face sul, eu demorei dois dias para conseguir, você demorou quanto? Eu adorei a experiência, as fotos ficaram ótimas, sem ofensa.

Sem ofensa.
    
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domingo, 9 de julho de 2017 0 comentários

A chance de ficar calado

Deu na imprensa. A cantora escocesa Annie Lennox, responsável por 75 milhões de discos vendidos, recebeu de uma rádio californiana uma peculiar proposta de trabalho: a coordenadora musical da rádio encontrou na rede uma seleção de canções da veterana cantora e gostou do que ouviu. Imediatamente teria enviado um email para a talentosa artista de 62 anos de idade, 40 anos de carreira, quatro prêmios Grammy, tratando-a como se fosse uma iniciante.

Cá do meu canto de mercado, a notícia nem parece tão espantosa. Penso no porquê de Annie se lixar a ponto de divulgar. Deve ser a nossa recorrente reclamação, a velha história da falta de respeito: somos sujeitos da precariedade das relações, não vale a prontidão dos laços de amizade e afeto, vigora sob o sol amarelo e nas rádios um toma-lá-dá-cá motivado por necessidades momentâneas e fugazes. Daí que não se experimenta o verdadeiro respeito, o que certamente a tal coordenadora musical teria experimentado se tivesse se dado ao trabalho de uma pesquisa básica sobre a artista que aprendia a admirar.

Repercuti a notícia aqui em casa e a turma passou outros exemplos. O estagiário chegou certa manhã no trabalho louco por apresentar a banda incrível que havia descoberto na rede, seu tom de voz era de incontestável novidade: a banda se chamava Dire Straits e a música era Sultans of Swing. Demos risada.

Acrescento que atribuem a Nelson Rodrigues uma frase cascuda sobre o assunto: “Jovens, envelheçam!”

Não sou nem um pouco a fim de radicalizar de pé diante do povo jovem, muito bom ser jovem, tanto que a onda colateral desse assunto proposto por Annie Lennox é a galera veterana — que acumulou um pouquinho mais de sorrisos nesta vida — passar a se considerar repentinamente antiquada, para não dizer velha. Não deixa de ser uma vingança da tal coordenadora musical, cuja carreira a vocalista do Eurythmics teria jogado na fogueira ao divulgar o conteúdo do desastrado email. Não sei o que aconteceu com Kylie (esse é o nome dela), se perdeu o emprego ou se foi até promovida. Mas fica nas nossas mãos de ouvintes um cartaz enorme onde anunciam sei lá que terrível idade. Quando a gente olha, debaixo do mesmíssimo sol, impossível não ver. Também por isso nós batemos palmas, Annie Lennox sabe. Já Kylie eu não sei, que tenha a chance de mostrar que aprendeu.
     
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sexta-feira, 23 de junho de 2017 0 comentários

Lote um metrô



O nosso metrô usa composições em que se pode passar de um vagão ao outro sem bloqueios. Não sei o que prefere o leitor, mas eu gosto de ir no primeiro vagão e experimentar o efeito: já que é possível enxergar do primeiro ao último dos vagões, desde que se vá em linha reta, percebe-se também do mesmo jeito as curvas que o metrô faz debaixo desta cidade, uma percepção de outra forma improvável — através das janelas, diante da escuridão do subsolo a sensação geral é de um túnel intrometido.


Em uma noite premiada por uma calma no peito, calma de estaca no couro deste vampiro, lembrei daquelas passarelas móveis que existem em algumas estações do metrô, aquelas passarelas que funcionam como esteira de academia a acelerar nosso passo. Dei-me conta de que o metrô é um parente daquelas passarelas dinâmicas e resolvi caminhar do primeiro ao último vagão, em vez de me acelerando, fazendo o contrário, na prática freando.


Toda a freqüência da estação de embarque ajudou muito, não era hora em que as pessoas costumam viajar com pressa para casa, mesmo o condutor da composição conspirou comigo, assinara contrato com o honesto salário, foi gentil. Naquele horário as pessoas costumam também ir para casa, mas é que o metrô seguia vazio, os seguranças a serviço, sobrou para os cantores e instrumentistas. Os lugares para sentar exibiam um poder de humor que a ninguém espanta. Nada sobre o ar condicionado. Somos uns frágeis tolos, sofremos com o preço da porção de pães de queijo, ou com a qualidade tosca das balinhas.

Os vagões estavam iluminados demais, eu enxergava tanto dentro deles quanto fora, os olhos tentavam compensar os excessos — o que deu certa onda. Faltou um som que me valorizasse o gogó. O boné eu trazia, quem me conhece sabe, sou um trouxa de boné. Boné faz um bem à minha careca que aos cabeludos fica difícil imaginar.

Mas de volta ao metrô... nossa gente vacila, fácil ver idosos em pé nos vagões, não há quem se exalte. Dizem que nos trens sobre trilhos é igual. É pior. Lote uma rodoviária e verá. Lote uma barca, ou aquela estrada. Lote um hotel cinco estrelas. Lote um ponto de ônibus abandonado, lote a piscina ou um bom restaurante. Lote os aeroportos. Lote um churrasco com molho barbecue. Lote um metrô.

Cheguei em minha estação na boa, funcionava calma e nem fui assaltado. O pessoal conseguia ouvir até música nos fones de ouvido. Sossego maior não há.

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domingo, 11 de junho de 2017 0 comentários

Bem-estar geral


Para a geração Z (a galera nascida entre os anos 1990 e 2000), não faz sentido algum ser escravo do trabalho. Por isso, especialistas acreditam que o circunspecto mercado passará nos próximos anos por mais uma transformação: a meta será evitar gastar infinitas horas do dia ou da noite dentro de uma empresa. Essa tendência de viver será tendência também de consumo e já foi mapeada, possui até nome entre os estudiosos: ela é chamada de wellness. Seu potencial global foi estimado este ano em três trilhões de dólares, o que supera inclusive as vendas mundiais da poderosa indústria farmacêutica.

É incrível imaginar que uma nova indústria como essa, interessada especialmente em oferecer bem-estar às pessoas, possa ganhar em poderio de gigantes como a indústria de medicamentos, justamente a indústria que é interessada em garantir nossa saúde. Não é? Para o mercado ainda são duas coisas diferentes: saúde e bem-estar, uma conclusão que pode iniciar várias conversas exatas. 

Uma delas diz respeito ao mundo que nossa espécie inventa. Que mundo será capaz de gerar o tal faturamento trilionário? No mundo em questão, as pessoas vão trabalhar menos, porque será mais importante aproveitar a vida e gozar tipos incontáveis de prazer associados ao entretenimento. Estamos falando de uma sociedade sofisticada, íntima da inteligência artificial, da robótica e das realidades virtuais.

Outra conversa que podemos ter é sobre o homeworking. O mundo do trabalho caminha para o exercício das tarefas profissionais em casa. O sujeito acorda, lava o rosto, faz o desjejum e em videoconferência com seus colegas inicia suas atividades produtivas. Há quem ache bizarro, mas prosseguimos rumo à sagrada individualização faz tempo. O engraçado é que nunca deixamos de ser manada.

Papo insano? Nem tanto, pois a verdade é fácil de admitir: saúde e bem-estar já são o mesmo tópico na cabeça das pessoas. Vivemos com vontade de perdurar, o que muda é a receita. Tem quem tome comprimidos das mãos de geriatras, tem quem aposte nos exercícios com personal ao ar livre, tem quem ponha fé nas receitas da chef natureba. Entendo que apenas uma verdade é prejuízo, principalmente para a geração Z, só uma verdade não serve à diversidade. Daí que hoje eu quero aquela receita, amanhã eu tento a outra, depois eu quero mais uma. O cobertor é que continua curto.

Falo de cobertor curto porque o leitor sabe, essa história fantástica de trabalhar menos — porque o que importa é consumir de acordo com nosso bem-estar — carrega em si contradições importantes. Juro que uma galera vai ficar fora dessa utopia consagradora do engenhoso sapiens sapiens. A espécie humana não me decepciona, sei que ninguém vai querer faltar nessa farra, então haja competição, tome hora extra e terceirização, tome trabalhar e tratar de ganhar muito dinheiro, que no fim das contas é o que garantirá lugares nesse parque de diversões. Estresse. Estresse demanda necessidade de bem-estar. Ponto para a civilização, por enquanto a maquininha, passa o cartão. Amanhã a gente vê.

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sexta-feira, 26 de maio de 2017 0 comentários

Chove, chuva


Enfim depois do nosso verão caiu a chuva. Veio tímida, mas ainda assim eu me peguei reclamando. Fui mesquinho mesmo, contra o bem-estar do meu cotidiano, que adivinhem: às vezes se volta por obra de ideias tortas contra as chuvas de momentos necessários. Perdoem-me se sou desajeitado ao tratar do assunto cotidiano, mas não me ocorre outra forma de comentar sobre meus desacertos.

É assim: se faz sol, reclamo, se chove, reclamo também.

Sei que na vida preciso encontrar o caminho por onde escoar meu humor de francesinha. Esculachar o valor da estação é um deles. E eu fraco converto-me em super pau-mandado das emoções chulas, imaginando estupidamente que só porque é emoção tem valor.

Tem emoção que não vale uma segunda-feira, tem emoções que não valem um meio lábio. Abraço a chuva sem esquecer que merecemos muito mais que mágoas, somos um tanto melhores que a melancolia barata de um cigarro, somos feitos de matéria mais valiosa que bolores.
     
Chato talvez seja o adjetivo certo para o estado em que me regozijo de fúria, disposto a delatar toda a crueldade que usam como fantasia por aí. Retaliação. Eu deveria revidar. Ser, por que não?, a resposta das questões tropicais que teimam em negar a chuva e o sol.

É claro que sol demais faz mal e a chuva alaga por aqui. Não são detalhes, mas queimaduras e inundações também podem nos preencher de invenções descartáveis ao coração. Este mundo caminha tão vou sob a marquise hoje, a reclamação volta sempre espantada amanhã: sol em brasa, reclamarei de você. Hoje a chuva é refrigeração, poupo o meu mar.

Chove, chuva.

Não faz três anos e me preocupava o nível dos reservatórios de água. Lembro que na ocasião pensei em como seriam duas calçadas de uma cidade como o Rio de Janeiro a sofrer vizinhas com a falta de água. Era essa a história.

Chove, chuva.

Enquanto isso, penso nas palavras da moda. Saudade do tempo em que os verbos eram bons. A gente mudava de casa, conservava a natureza, arrumava um emprego. Hoje o verbo conservar virou apenas metáfora de canalhice e safadeza. Não se engane, os verbos mudar e arrumar também.

Olha que me escondo na chuva.

Mas teria de ser um dilúvio.

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quinta-feira, 11 de maio de 2017 0 comentários

Parar o quê

— Eu não sei parar.
— Simplesmente pare.
— Não é tão simples.
— Não é fácil, mas é simples, basta parar.
— Tenho medo.
— Medo do quê?
— O que faço quando parar?
— Você dá um jeito.
— Minha vida é um tédio.
— O tédio não é invencível.
— Não sei fazer outra coisa.
— Terá que aprender.
— Aprender como?
— Não consegue?
— Desculpe a minha burrice...
— Burrice é uma coisa que dá e passa.
— Não tenho como, parar é impossível. 
— Muita gente já parou.
— Mas não eram fracos como eu.
— Eram fracos igualzinho.
— Tem que ser muito forte para parar.
— É preciso querer muito.
— Eu quero muito.
— Então você vai parar. 
— Quando?
— Cedo ou tarde você vai parar.
— Tem que ser hoje.
— Que seja hoje.
— Não, talvez amanhã.
— Amanhã então.
— Tá vendo? Não rola.
— Mas se já marcou a data...
— Amanhã, né? Mas não vai dar...
— Amanhã você vai saber.
— Amanhã está muito longe.
— Amanhã está no lugar certo, apenas espere.
— Esperar é muito difícil.
— Muito difícil é parar, até que esperar é fácil.   

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sexta-feira, 28 de abril de 2017 0 comentários

Sim, concordo

Eu é que peço: por favor, me convença. Olha que eu peço com jeito, peço por gentileza, porque preciso, preciso que as pessoas se preocupem em me convencer. Quero poder dizer, com a certeza de quem cresceu em uma das maiores cidades do mundo: eu sou alguém.

Por isso, se tem o próprio valor em alta conta não se sinta inibido, tenta me convencer. Eu consigo horário, trabalho muito mas ouvirei a argumentação, vou admirar o raciocínio. Fico bobo de ver como as pessoas são boas em encontrar formas de convencer. Eu confesso que tais processos me fascinam. Com a calma dos fãs, paro para aprender com a habilidade. Sem discussão: é a maior prova de estima que podem me dar.

No trânsito, por exemplo. Convença-me de que há isenção de culpa, que ninguém bebeu ou olhou o celular, que se calava inocente enquanto dirigia. Nada nada tão difícil, uma pessoa de talento consegue fácil convencer até as autoridades.

Na balada também, ninguém se nega. O papo será com certeza o melhor, mesmo ela já sabe, é tanto conhecimento, tão bem conectado que espanta, é uma enciclopédia, nasceu com a Wikipédia na mente. Eu digo, muitas pessoas ao redor se espantam, mas exagero, não há com o que se espantar, um sujeito que passou pelo que passou, que viveu o que viveu, convencer-me é um favor que faz.

Eu queria ter mais mãos, para bater palmas e ainda cumprimentá-lo ao mesmo tempo, porque esse lance de ter razão é uma qualidade original do gênio. Como se as palavras da pessoa fossem obra da boa vontade de Deus, é uma sabedoria iluminada, um orador, quando esse orador fala, convence qualquer um. De qualquer coisa. 

Sei que não se nasce assim, quem convence dessa maneira costuma enfrentar muitas dificuldades, mas geralmente é um humilde, não tira onda. Convence porque sabe mesmo, estudou para isso, aprendeu a convencer, sou forçado a admitir. Se por acaso ligar, melhor atender, é sorte grande chegando. Excelente negócio na certa, oportunidade, dica preciosa, esteja pronto: o que é bom no mundo sorriu para você.

Só não vá responder errado, dizendo que não concorda. Para que criar um contratempo desse tamanho? Discordar de pessoa como esta... faz até mal para a saúde, capaz de você se preocupar demais sem necessidade, quando ela já veio com a solução.

Bem que me disseram, infelizmente existe quem não tolera o que é perfeito. Sério, não faz assim comigo, não insiste, insistindo desse jeito vai que você me convence. Sempre. Sabe que concordo de graça com você.

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sexta-feira, 14 de abril de 2017 0 comentários

Tesla na pole

A companhia Tesla ultrapassou a General Motors como montadora de carros mais valiosa dos EUA. Seu valor de mercado chegou a 51 bilhões de dólares por lá, o maior entre as montadoras americanas. No ranking global, a Tesla fica agora atrás somente da Toyota, da Daimler, da Volkswagen, da BMW e da Honda.

O caso em si não teria vocação alguma para vencer o noticiário econômico não fosse o fato de que a Tesla é uma montadora diferente, especializada em montar e vender carros elétricos de alto rendimento. Isso mesmo: carros elétricos. Carros elétricos valem portanto como a novidade da vez, nada de cheiro de petróleo e gasolina, o carro que queremos a partir de hoje poderia ser com certeza movido a eletricidade.

A tristeza fica por conta do mau destino do petróleo, antes o nosso querido ouro negro. Destinado a ser em breve superado pela onipresença da eletricidade em nossas vidas, o petróleo deixará de ter esse valor todo capaz de criar, segurar ou derrubar governos. Certos rincões do planeta perderão o eterno motivo de suas brigas, penso eu, imaginando aqui que dinheiro seja a única razão pela qual se briga neste mundo. Santa inocência!
  
Seria simplesmente espetacular assistir sentado ao petróleo jorrando de volta para o interior da Terra, de onde saiu um dia para impulsionar nossa espécie rumo não se sabe para onde ainda. Quem disser que sabe merece um caixote de madeira e um lugar próximo à entrada do metrô da esquina, para alardear suas fascinantes descobertas, providenciemos.

Eu brinco, mas é claro que uma influência tão poderosa quanto a da centenária indústria do petróleo não desaparecerá assim do nada do nosso convívio. Haverá um descompasso, algum tipo de estertor ou meio-termo, e o imenso e precioso fluxo de interesse e capital vai migrar, provavelmente para o setor de meias.

Meias sim, por que não? É a minha aposta. Esqueçam os motores elétricos da Tesla, caminharemos ao ar livre graças à aposentadoria do petróleo, serão muitas as comemorações, precisaremos de meias, muitas meias, para evitar o famigerado chulé nos pés do povo. Chulé ninguém quer, aposto nas meias.

A que ponto chegamos: sinto-me à vontade para comparar petróleo com chulé, uma tolice que poderia me custar um bom emprego trinta anos atrás. Todos então precisavam muito do petróleo e ainda precisam. Ou alguém em sã consciência acha que o padrão global de consumo se sustenta hoje sem petróleo? Atingimos um ponto do qual não há volta, sinto dizer. A solução está adiante, ou não. Por isso, a performance da montadora Tesla é ainda mais impressionante e importante, preocupa é o prejuízo: 5 bilhões de dólares apenas no ano passado. Seu proprietário é o ricaço sul-africano Elon Musk. Eu pergunto: quem de nós conseguiria descansar a cabeça no travesseiro à noite sabendo que é dono desse prejuízo colossal? Definitivamente, a classe dos bilionários é de uma gente que desafia as minhas boas intenções. Nasceram do ventre de uma mãe, assim como nós, morrem mais ou menos com a mesma idade, é verdade, certamente não das mesmas coisas, mas se vão, se vão. Que estranheza imaginá-los do meu canto. Melhor é tratar do meu chulé.

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sábado, 1 de abril de 2017 0 comentários

Compartilhar a vida


O senhor resolveu sentar-se na mesa mais externa da lanchonete, e dali passou a admirar o movimento da rua, bebericando um suco de acerola com laranja, mordiscando pães de queijo. A moda de ficar por ali nem teria sido notada, não fosse um camelô de bugigangas, que ao passar por aquele senhor assumiu ares de profissional muito surpreso e fez questão de cumprimentar o homem, a quem chamou insistentemente de “compositor”. Os dois tiraram duas ou três selfies animados, quem frequentava o lugar passou a enxergar o homem, sentado naquela mesma mesa quase todos os dias de sol.

O cara foi virando atração. Desavisados apontavam da calçada, a garçonete ia atender o homem sempre rapidamente, pegou fama entre os camaradas sobretudo o apelido: o compositor. Mas compositor de quê, ora essa? De música, mas que músicas? Queria eu saber a qual gênero musical o nosso artista se dedicava. Seria um sambista de primeira? Seria um letrista de pop/rock? Seria o roteirista daqueles sertanejos? Ninguém conseguia me responder, mas a imagem sobrevivia, o povo dos sucos gostava de vê-lo sentado à mesa, preocupado com a existência dos pombos e com o passeio dos cães.

É claro que reclamo do cara feito um enciumado, de apreciar aquela estada na lanchonete e não ter que me apressar para casa, atrás de mais uma leva de capítulos daquela série nova de ação. Na rua, sob as ordens da lei, ficam sós os vagabundos pela manhã, e os bêbados à noite! Que engano.

Tem uma turma que considera dever de cidadania ocupar a rua, berra com razão de cima dos coretos das praças que a cidade é nossa. Sim que a cidade é nossa, mas ocupá-la não é projeto de cidadania, é viver, é viver, amigos, é viver. O compositor lá da mesa da lanchonete concorda, talvez crie mesmo uma canção, que na voz de uma fina intérprete de nossa MPB — seja samba, rock ou sertanejo — ocupará as horas dos ouvintes. Estará criada a trilha sonora de nossas ruas, as calçadas serão o cenário polivalente, os pedestres os personagens sem vergonha. Os heróis e heroínas. A vida da gente servirá de saga, servirá de drama, servirá de comédia, quem vai rir, quem vai chorar, e nossas histórias terão sido contadas e ouvidas. Saberemos de nós mesmos então mais do que os marqueteiros nos escritórios, mais do que os jornalistas nas redações.

Todo esse movimento porque se resistiu a ficar apenas em casa, entre quatro paredes fortuitas. Fugiu para descansar na rua, foi fazer hora, fui tomar sol, fui espairecer e encontrou quem? Nem que seja um pálido olhar, quiçá uma conversa com palavras! E se tornaram amigos. Compartilharam a vida.

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domingo, 19 de março de 2017 0 comentários

No sol sou de assar as coxas


Por causa de uma corrida sob sol forte contraí assaduras. Elas atacaram-me na parte interna das coxas, como sinal de que elas — minhas coxas — atingiram um perímetro proibido, em que se tocam durante meus exercícios.

Ora, ora, que notícia! Vejam como sou: não poderei mais correr sossegado em toda a cidade. Em qualquer pista onde arriscar meus passos sobre tênis de corrida lá estarão meus detratores, a gargalhar de minhas futuras assaduras como quem vê da própria janela um dinossauro ainda vivo. Eles existem, não tenham dúvida, não os dinossauros, os que riem de meras assaduras. Só de imaginar meu andar assado e enviesado, as pernas tortas na calçada, a boca contraída em um efeito de quase espasmo, esses bárbaros ególatras sorriem. Se me veem na rua tomar a direção da farmácia mais próxima certamente disparam uma foto para o celular do amigo, em segundos a comunidade descobre o meu problema. Nada mal!

Foi para isso que inventaram a internet: para rir com mais eficiência da vida dos outros, não sabiam? Até as assaduras, não escapam nem as minhas assaduras, o que devo fazer a respeito? Mudo-me para a ilha de Páscoa. Parece que junto das famosas cabeças gigantes da ilha de Páscoa a internet não pega. No caso nem seria necessário mudar-me, nesta cidade a vantagem é a mesma.

Mas deixo as minhas assaduras para lá, tratei delas, já já brinco de bom. E o meu coxão? Este terei que partir em dois... brincadeira, de volta àquela dieta encomendada anos atrás, que deu certo de cara, mas que abandonei depois. O negócio é coxão duro, nada de coxão mole, coxa no tamanho certo e sem as assaduras, que ardem para burro, só que ninguém vê. Ainda bem, por isso conto e não mostro, não é bonito.

Bonito é o mar, são as pistas de corrida ideais para o meu exercício. Bonito é o horizonte aberto, largo diante dos olhos, desfazendo os focos de estresse. Gosto muito de correr, mas prefiro as ruas, fujo das esteiras, meu cenário é esta cidade em ação, as bicicletas passando, os pedestres da mesma vibe passando, os cachorros nas coleiras, até mesmo os carros. Em minha última viagem, arrumei um tempo para também correr, passeei.

Há para mim algo de vital nos exercícios ao ar livre. Academias funcionam, é claro, prestam serviço essencial. Mas eu decido me tratar nas ruas, sou da caminhada, sou do passeio, olho para baixo e olho para cima, para a frente é que se anda, vou descobrindo o comércio novo, as lojinhas e galerias. Os camelôs que surgem. Entro nos mercados, atravesso nos sinais, cuidado com os nossos buracos. Olha a cigana, os hare-krishnas sumiram, o pessoal toca flauta, guitarra, cavaco. Pede dinheiro para UNICEF, pede dinheiro, vende amendoim e paçoca, despista os pivetes. Sacode a ordem, sacode o caos. Cada assadura que arrumo é esta a história.

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domingo, 5 de março de 2017 0 comentários

Eu também sou folião


Não sou um folião típico. Dos que vão a blocos, vão à Sapucaí, dos que decoram os sambas-enredos das escolas, os sucessos da Bahia. Não sou o folião típico, minha folia é de outra ordem, que não cabe classificar aqui, sob pena de provocar desgostos e protestos. Neste sábado de carnaval eu voltava do cinema, onde conferia a programação pré-cerimônia do Oscar, cerimônia que este ano coincidiu com o desfile das nossas escolas de samba. Que dilema para os caseiros, acompanhar a transmissão em inglês da glamorosa festa americana ou assistir à farra majestosa e organizada de nossos desfiles. Este ano então, no Oscar teve gafe, uma gafe!, pode ter sido uma escolha difícil. Mas eu no sábado voltava do cinema.

As ruas no caminho para casa estavam vazias, a escuridão ajudava a refletir sobre o filme, eu cruzava direto com os alegres beberrões indo ou voltando de algum lugar, os encontros ajudavam a lembrar que a festa estava a um passo do meu caminho, um pequeno atalho e lá iria eu, povoar os blocos com mais uma fantasia, mais um contraste, mais uma danação.
  
Só que o filme era bom e a reflexão provava ser sedutora. Eu habitava a noite de carnaval trocando impressões com a rua irreverente, temendo encontros tristes, encontros medonhos, desencontros. Acompanhava os prédios e as portarias, os sinais verdes e as calçadas.

No final da rua escura, depois do mendigo no chão estirado como quem se aproveita do sono e reavalia os sonhos, vislumbrei o casalzinho. Sentavam na mureta que delimitava o início do condomínio, respiravam e observavam o nada. Este nada talvez fosse o horizonte de uma praia pacífica onde pudessem se esconder das confusões vizinhas. Apesar da noite, minha noite estava clara, repleta de personagens familiares, aqueles fantasiados que antes vira, a inquietude era igual. Já o casalzinho era estranho. Não haviam trocado a festa por uma sessão de cinema, haviam trocado a folia de nosso carnaval pelo prazer de uma noite básica, em que se olhava simplesmente para o nada.

De mãos dadas.

Tão fácil dizer agora, é certamente ostentar cinismo debochar daquela especialização: eu faria a mesma troca, e eu testemunhei, então vou pensar assim, que foi recado irônico, os dois seriam na verdade meus líderes. Chamem uma equipe de televisão, ou o hospício, conforme a versão. Mas não, os dois humildes correriam das câmeras, não recebi vídeo pelo whatsapp. Não desejavam ser líderes de ninguém, de nenhum bloco. Era somente uma ousada fantasia: estavam de mãos dadas no carnaval.

Eu passei por eles, vi aquela avenida. O filme muito bom, o almoço fora um churrasco supergostoso, na noite anterior eu dormira como se deve. E antes a sexta, antes a quinta, quando me dei conta era carnaval.
                 
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domingo, 19 de fevereiro de 2017 0 comentários

Me mostraram um filme de amor


Não quero entregar ao leitor nenhum spoiler de “La La Land”, nem mesmo repercutir demais o filme, já indicado ao Oscar e outros prêmios, mas nosso clima anda tão tropical e raivoso que aproveito qualquer chance para falar de amor. Confesso que "La La Land" me tocou, deu vontade de caminhar por aí depois de assistir, deu vontade de cantar uma canção, até de sapatear e amar deu vontade.

Falo de sapatear e o verbo me remete à parte dolorida da memória: quantas vezes sapatearam com sucesso no meu peito! Impossível contar os sacolejos, eu apenas sei que consegui perdurar. Reconheço também que sapateei também sobre corações, nunca por vingança, juro. Mas eu vou recordando... enganou-me outra emoção.

“La La Land” é um romance brilhando na superfície de um planeta que gira em torno de si arrasado pelos conflitos. Acontece que a nossa espécie tenta assimilar os desastres e daí arranca do peito um filme que fala de amor como se amor fosse papo de nossas mesas de jantar. O amor voltou às paradas, meus leitores, aproveitem porque não será para sempre, logo voltaremos àquela emoção pasteurizada e engana-trouxa dos ensaios filtrados. Em "La La Land" escapamos de ver o amor de mercado, esse é um filme de amor que nos ilude como a gente gosta.

Enquanto escrevo percebo que falar de amor nos constrange, mas o amor veste melhor que fantasia de carnaval. Ao simpático par de atores se permite representar para nós no escuro da sala de projeção um romance banal, ainda que holywoodiano. Seus protagonistas não se destroem, não se matam, não estão mentindo.

Que ilusão! Que presente.

Com “La La Land” na cabeça ouso sonhar com o amor, atravessar a rua, alcançar o metrô, saborear uma cerveja, estou no mesmo lugar de antes, mas posso falar de amor sem ouvir pragmatismos de autoajuda, não é véspera do meu casamento, ou véspera da minha separação.

Alguém falou de amor, falou sim e eu ouvi. Contou uma história com todo o cuidado, colocou até música para que melhor ouvíssemos. Não é uma história baseada em fatos reais, mas não tem de ser. Dizem, dizem, dizem. Parece que falar demais sobre o amor atrapalha esse lance de amar. Talvez. E se alguém ouve? Acontece o quê com quem ouve sobre o amor?

Enfim, quero apenas concluir sobre "La La Land": não que eu tenha gostado demais do filme, é um tanto mais que isso, gosto é pra valer do assunto.

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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017 0 comentários

Permissão de localização ativada
















Depois de instalar um desses aplicativos que promovem encontros, agora com base na proximidade entre os candidatos, o passo seguinte é vadiar pela cidade. Pois quanto mais o candidato anda e circula, mais chances de captar o perfil de seu possível par ele tem. A lógica é: cruzou com aquela mulher incrível, se ela também procura por alguém no aplicativo, certamente te perceberá na pista, uma examinada na tua foto é garantida.

Semana passada, com o aplicativo instalado, fui testar a novidade. É claro que ativei a permissão de localização, algo que antes não permitia, por que entregar onde me encontro? Nunca quis que me perguntassem: o que faz aí? Melhor fingir ao telefone que não escutou... você está onde?

Permissão de localização concedida, fui pela cidade a conferir de perto calçadas e monumentos. Não precisava mais admirar constrangido as mulheres lindas, podia ignorá-las com segurança, em minutos seus perfis estariam na tela do meu celular, entregando as melhores fotos, as frases de efeito e até as profissões.

Que maravilha.

Para tímidos como eu, é uma ironia.

Escolhi como destino uma cafeteria internacional, onde se vendem shakes de café. A fila enorme, mas o ambiente de eficiência prometia. No salão de sessenta metros quadrados, cerca de trinta pessoas bonitas se espremiam loucas por um café de cinema. A freqüência era bastante diversificada, perfis para todos os gostos.

Percebi que muita gente conferia o celular, será que já captaram meu perfil? Entrei na fila logo atrás de uma garota de peruca roxa, as mechas picotadas largadas com cuidado sobre a testa. Brincava no celular também. Eu preferi não mostrar o meu, fiz jogo duro. Fui lá saborear o shake. 

Meu problema é que estou gordo, mas não havia o que fazer, tinha de provar a torta red velvet, última fatia do balcão, não importa que velha. A caixa entendia do que estou falando, ela me representa: nome em inglês, torta estrangeira, trouxe a última fatia sem estardalhaço. Pôs na minha frente. Depois o copão de shake, decorado com chantilly por cima.

Uma vez sentado, resisti à tentação de conferir o aplicativo. E a caixa me entregara a senha do wi-fi, o que tornava a tarefa de me conter meio impossível: experimentar a velocidade da conexão naquele café era obrigação do programa. Foi difícil, meditação ajuda, acabou que deu certo: sentado à mesa de uma beldade esculpida em gente, preocupada à vera com as novidades do facebook, comi e bebi quase que serenamente.

Quinze minutos depois, terminado o lanche, fui embora. Não me despedi. O sol forte estava doce feito o meu sangue.

No metrô, também não saquei o celular. Eu desprezo o wi-fi do metrô, não sou tão promíscuo assim. Precisava da minha casa, na segurança de minha própria rede as empolgantes candidatas surgiram. Na tela do aplicativo. Mas não consegui ainda nenhuma combinação. Penso no passeio de amanhã, a permissão de localização continua ativada. Será que é muita exposição?
           
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sexta-feira, 20 de janeiro de 2017 0 comentários

Bela conversa na pequena fila do cinema

— E então? Qual filme?
— Que tal este? Tá quase na hora.
— Este não.
— Por que não?
— Tem aquela atriz, não gosto dela. 
— Mas ela sempre faz os filmes desse diretor.
— Pois é, desde que trabalham juntos não assisto mais a filme dele.
— Sabe que ela é muito boa, não sabe?
— E como, só que não consigo.
— Do que se trata essa rejeição?
— Que rejeição, não gosto dela, sou obrigada a gostar?
— Claro que não, mas você mesma admite que ela é boa.
— Sei lá, Freud explica. 
— Pensando bem, vocês duas até que são parecidas.
— Imagina.
— É verdade, incrível como nunca reparei antes.
— Parecida como? Quer dizer fisicamente?
— Fisicamente total, mas também a personalidade...
— Tá bom, você conhece a personalidade dela...
— Outro dia assisti a uma entrevista, é muito igual. 
— Não acho.
— Pode acreditar, vocês duas são gêmeas.
— Ela é muito bonita.
— Você também.
— A voz dela é um tesão.
— O timbre é o mesmo. 
— Tem corpão também.
— Que nem o seu, um pouco mais sarada.
— E eu não vou à academia faz tempo.
— Dizem que é super inteligente.
— Eu sou inteligente, não sou?
— Claro que é.
— Legal, vamos nessa então.
— Bacana, olha o cartaz do filme! 
— Espera um pouco, ela está loira!
— Sim, muito gata.
— Eu sou morena...
— Mas pode pintar...
— Não sei se quero ver esse filme. 
— Quê isso, por quê?
— Acabo de me lembrar da sinopse.
— O que tem a sinopse?
— Ela trai o marido besta com o professor barrigudo.
— E daí?
— Daí que estou vendo o meu professor logo ali na fila.
— Melhor outro filme então.
— Que tal Woody Allen?

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sábado, 7 de janeiro de 2017 0 comentários

A memória a quilo


Quando eu era criança não havia restaurantes de comida a quilo. A novidade surgiu um pouco mais tarde. De repente, em um instante dezenas de restaurantes passaram a vender comida na balança. Eu na época apenas estudava, comia sempre em casa, portanto não tirava vantagem da incrível invenção. Assistia de longe: em um só prato brilhavam juntos o bife de panela e a bolinha de queijo (típica das festas de casamento e aniversário), também cabiam no prato o arroz com feijão e o churrasco, a lingüiça frita ao lado da salada. Foi uma febre.

Outra coisa que não existia quando eu era criança são as grades protegendo as portarias dos edifícios. Nem tenho conta das vezes em que, voltando da escola, invadi em correria as portarias da rua, brincando de piques mil. As mães vinham em conversação no caminho, aproveitando o convívio, nós crianças corríamos para frente e para trás freneticamente, sempre sabendo que a brincadeira tinha prazo para acabar: quando as mães chegassem à nossa portaria teríamos que nos resignar e subir, chateados porque em seguida viriam obrigações como o dever de casa, o banho, a janta, deitar na cama quietos e dormir.

Outro lance que nessa era não existia é a fila única de banco, com senha ou sem senha. As filas de banco então imitavam as das caixas de supermercado. Sei porque ia ao banco sempre: meu pai foi comerciante, cartão de crédito se usava pouquíssimo, eu e meus irmãos é que fazíamos no banco o depósito dos cheques. Confesso que ir ao banco nunca deixou de ser essa tarefa aborrecida, papai pedia, tínhamos que discriminar na guia de depósito os cheques um a um, somar com velha calculadora, conferir, sair de casa depois do almoço e enfrentar as filas. Nos horripilantes dias 10 (depois dias 5), o banco enchia terrivelmente e sofríamos. Se déssemos a sorte de escolher uma fila boa, tudo se resolvia em 15 minutos, caso contrário a espera podia durar mais de hora. Enfrentar a fila longa às vezes podia ser jogo também, sabendo que o caixa trabalhava em ritmo acelerado. Lidávamos com uma espécie de ciência.

Cito estas memórias de forma sucinta, já que não é minha intenção sobrepesar ninguém de lembranças cascudas. Digo por curiosidade, talvez o leitor não seja tão nascido quanto eu e ainda passeie. Saber destes detalhes pode ajudar em algo, o que duvido. Estes detalhes mal servem até para memes, aposto que nem ao Google importam.

No calor deste verão importa mesmo a qualidade do aparelho de ar-condicionado, outra novidade que apenas o colega rico da escola gozava. Assim como o videocassete, que no século XXI sumiu da memória. Sumiram também os açougues de rua, tão numerosos antes quanto as farmácias hoje. Multiplicaram-se os carros, caminhões e aviões e tal e tal, et cetera e tal.

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