domingo, 12 de novembro de 2017 0 comentários

O aprendiz de bechamel e uma travessa de tiramisú

Olha que vivi para ver o dia em que aprenderia a cozinhar comida boa. Minhas habilidades no fogão nunca ultrapassaram o bife na chapa, o ovo frito, uma panela de arroz e outra de carne moída. A variedade do meu cardápio surge com o pão, faço sanduíche de queijo, de presunto cozido, de presunto cru, talvez um hambúrguer, com certeza um cachorro-quente. Mais que isso fica difícil, se me exigirem preciso dos heróis da culinária na tevê para me ajudar. Assisto a muitos deles, porque minha curiosidade é grande, mas infelizmente não tomo notas, nem decoro as receitas. Para agradar uma mesa redonda de esfomeados, portanto, eu teria de recorrer a técnicas de ficção científica: teria de conectar meu cérebro à chef internet e baixar um pacote onisciente de dados, com tudo quanto é tipo de informação necessária para comandar uma cozinha.

Conectar meu cérebro? Putz, ainda bem que existe o YouTube.

Mas não recorri aos vídeos. Fui convidado a receber aulas práticas, e a receita do domingo foi o famosíssimo bechamel — molho de origem francesa que no Brasil recebeu o simples nome de molho branco. Eu sei que renomados chefs de cozinha cultivam grau de exigência alto no preparo e no sabor desse molho gostoso. Acompanhei a cisma deles com o bechamel em vários programas. Trata-se de um clássico e os aprendizes sofrem. Fui aprender então.

O bechamel cobriria umas porções de bacalhau desfiado, e depois tudo seria gratinado no forno. Começamos a preparar o molho com a base de manteiga e cebola no fogo. Acrescentamos farinha e em seguida o leite, sempre mexendo. Juntamos na mistura o queijo parmesão e esperamos tomar consistência, ou seja, engrossar. Pronto! Quase nem pusemos sal, porque o parmesão é salgado. Tem receita que leva pimenta do reino e noz moscada.

Conto mais? Resultado da aula: almoço de domingo! Domingo que pela manhã andava se abanando, avançando pelas beiradas das horas sem chance de novidade. A novidade foi meu bechamel, mexido a quatro mãos, receita que não vou esquecer.
             
E ainda o tiramisú, esse por sua vez preparado por mãos exclusivas, craques na feitura de doces mil. Tivemos que esperar para devorá-lo, pois a travessa de tiramisú precisava de um tempinho na geladeira, para ser servida na temperatura correta, como se deve. Decidimos provar o doce mais tarde, depois de um cochilo reparador no pós-almoço.

Foi assim: travessa de tiramisú na mesa da cozinha, a serviço da dona gula, foi o doce para os pratinhos, e espalhou-se pelas nossas bocas, com gosto forte de cacau, no topo do creme suave e da camada de biscoito.

Sem mais. Comer bem é mergulhar no céu.

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sexta-feira, 3 de novembro de 2017 0 comentários

Resenha de “Amoridades”, de André Salviano

É o livro do Sal.

Ou melhor dizendo: André Salviano, que estreia em livro com este feliz “Amoridades”, 134 páginas, lançado com muito capricho pela Rubra Editora.

Preciso dizer que se destaca no país uma gente jovem talentosa, decidida a enfrentar os reveses da crise econômica e política, reunida não é de hoje em volta de uma ideia genial: publicar bons livros. Refiro-me à turma que atende pela vibe de editoras independentes. Um desses bons livros publicados é justamente este de André Salviano, autor de zelo tão especial pela criação que evita de forma admirável o que seria fatal no primeiro trabalho: fugir de si tristemente e escapar assim do que nos é relevante. Em “Amoridades” não há engano, a literatura vive da matéria-prima que é a existência, essa que nos inspira a continuar, a ir além das portarias e dos supermercados, já que mais interessada em criar do que destruir.

Tanto prazer em criar, em curtir o que a cidade tem de melhor para oferecer, não poderia gerar contos de outro tema que o amor. Sal arranca de si tantas histórias de amor, que resgata para nós o prazer de conhecê-las. Surpreende como autor, porque vivemos tempos em que parece inexistir espaço para o proveito de fortuitos romances, amores importantes de inesperados, amores cheios de gozos mas esquecidos, que nunca foram planejados, amores que apenas partem, amores que por destino surgem. Não parece ser o tempo de tais amores.

Esta é para mim a vocação de “Amoridades”. Nessas páginas se reafirma um jeito de ser da cidade que andava meio sumido, cabisbaixo, caminhando nas sombras, de impressionado com o entra-e-sai de gente se estranhando em tudo quanto é bar, praia, praça e lugar. O autor propõe um retorno carinhoso ao coração de nossos afetos, retorno que funcionaria como chamado à memória de uma já desprezada cidadania. Em seus contos, Sal sente a cidade do Rio de Janeiro. Vive amores enquanto sente o Rio.

Nem tudo corre às mil maravilhas. Os protagonistas em busca de paixões se machucam, sofrem pra valer, o que assusta. Mas procurar viver o amor é o melhor que um homem faz, pela vida, pela cidade, pelos amigos. Deixemos a razão para a rotina de nossos preciosos empregos. “Amoridades” alcança esse registro com honestidade.

Todo homem guarda consigo os anos em que se largou no território das paixões, encontrando nos beijos as alegrias, nos abraços apertados os gozos, em cada sorriso uma via inescapável para a vida. A rotina ajuda a esquecer, dizem. Por isso, escrever sobre o amor sempre. Tarefa difícil, às vezes quase impossível. Mas o Sal consegue.

sábado, 28 de outubro de 2017 0 comentários

Esses drones de outro mundo


Hospedei-me umas férias em um hostel onde pai e filho treinavam pilotar seu drone. Ambos brincavam enquanto eu lia um bom livro, sentado confortavelmente junto ao gramado da propriedade. O simpático aparelho sobrevoou-me à distância de uns oito metros, quase camuflado contra as nuvens brancas daquela tarde. Obviamente, possuía uma câmera acoplada.

Não fiz mais do que dar um aceno básico e escondi depois o rosto atrás da capa do livro. A educação que recebi não inclui regras de conduta na presença de tais aparelhos, a gente tem que aprender com a experiência mesmo. Confesso que fiquei magoado. Não houve da parte daquele drone qualquer sinal ou feedback que comentasse sobre meu comportamento. Será que fiz certo? Agi corretamente? Fiquei sem resposta. Os drones deveriam possuir forma de nos responder em caso de encontro imediato, porque senão passam por mal educados. Que ponham lá no casco do drone voador uns leds em tamanho razoável, de luz amarela ou vermelha, indicando essa ou aquela mensagem. Luz amarela: vim em paz. Luz vermelha: leve-me ao seu líder. Assunto encerrado.

Mas não. E os drones ficam a cada dia mais baratos, se tornam populares. Em pouco tempo uma providência será inevitável: a presença deles no céu terá de ser regulada. Talvez até proíbam o uso particular dos drones, assim como fazem com os balões atualmente. Uma queda de drone tem potencial para ser perigosa. Li que aves de rapina são treinadas para interceptá-los em caso de invasão de espaço aéreo restrito. Houve já um grave incêndio em que os bombeiros precisaram abater drones a tiros, pois os aparelhos em voo atrapalhavam o trabalho de combate às chamas e de resgate das vítimas.

Por enquanto, as queixas são poucas. Ficam limitadas às questões de etiqueta. Viver em nossa sociedade tem suas vantagens, mas o cidadão consciente sabe que deve urbanidade ao vizinho. Olha que logo os incríveis drones serão os super-heróis no céu, como hoje em dia o céu é da cor azul. Gigantes do varejo on line como a Amazon estudam pra valer como utilizá-los para entregar suas encomendas direto nas mãos do consumidor. Não demora e os drones educados pedirão licença batendo com dois dedinhos no vidro de nossas janelas. Em bom português, é claro, eu direi se é minha ou se não é minha a encomenda. E mais, direi também se é hora ou não de recebê-la. Problema do drone, que volte em trinta minutos! Chato que é chato de verdade sabe: de visita inconveniente o inferno está cheio. A dúvida que fica é: enquanto espera, onde o drone vai tomar o cafezinho?
     
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sábado, 30 de setembro de 2017 0 comentários

A rua está um brinco

Foi numa conversa durante um passeio pelo shopping. Paramos diante de uma vitrine a admirar as joias. Os brincos logo chamaram a nossa atenção, mas nós rapidamente nos conformamos: ainda que alguém tivesse a grana para adquirir a joia, não há lugares onde se poderiam usar aqueles brincos sem temer pela própria orelha. A concordância entre nós indicava uma unanimidade, quando em nome do brilho na vitrine veio o argumento: sim, claro que seria possível usar os brincos, existe um acordo que atesta a idoneidade dos brincos, são todos bijuterias baratas, para exibir nas ruas da cidade, não valem uma nota de vinte reais.

Não era obviamente o caso do par de brincos na vitrine do shopping e a sugestão inesperada ganhou ares de provocação. Caiu-me nas mãos a responsabilidade de fazer uma social: não se exibe mesmo nas ruas uma boa bijuteria, seja na orelha, no pulso ou no pescoço, que valha mais do que um lanche nutritivo no McDonald´s. A medida deve ser esta: a necessidade de devorar por completo o trio com hambúrguer de duas carnes, cebola, picles e molho especial, porção de batatas fritas e meio litro de refrigerante.

Daí a dizer que devemos pleitear outra fé, a ensinar que o pouco ou nenhum valor dos brincos alheios permitiria ao pedestre iludir os trouxas, exibindo pelas ruas um par de brincos preciosos que passariam por bijuterias, é crer em um talento inato para os quinze minutos de fama. Olha o brinco! Olha o brinco! Imagino o telejornal local investigando a notícia, esquadrinhando o centro da cidade atrás dos detalhes. Ali na beira da Avenida Presidente Vargas, um grupo de curiosos metidos debaixo de coloridos headphones desmentiria as informações: foi só boato, foi só boato, não vão perder o sono por isso.

Deixamos a sugestão ali na vitrine. Difícil é entender essa gente ansiosa por tempos e brincos melhores. Acho que a galera quer verdade de vez em quando, só para variar. Mas fica complicado crer em tudo que é história hoje em dia. O homem deste milênio alimenta demais a vocação para a calúnia, para a difamação e para a injúria. Não são outros estes tempos de egos superinchados e estimas hiperbólicas. Das calçadas, qualquer um assiste ao espetáculo: ponha a melhor roupa e vá para a rua, conferir de perto a performance dos artistas. Não exagere nos brincos. Não esqueça a grana do lanche.
                          
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segunda-feira, 25 de setembro de 2017 0 comentários

Assuntando

Vem chegando o segundo semestre e com ele os temas do ano começam a tomar conta da imaginação, Copa do Mundo e eleição ameaçam monopolizar os diários de notícias, os telejornais e as rodas de conversa. Nós ficamos sem conseguir escapar, outro dia mesmo tive uma discussão ríspida a respeito dos candidatos a presidente, já no outro dia a discussão foi sobre a convocação da seleção brasileira.

Penso no leitor que tentará fugir da tsunami de informações atrás de certo alívio, vai ser difícil, por onde for, lá estará o grupinho comentando os lances de uma partida ou as novidades sobre as eleições. E os dois assuntos tendem a se misturar, vamos discutir política durante a Copa e vamos falar de Copa quando tratarmos de política. 

A gente sofre por não querer se alienar e a salvação será o cronista, esta raça em extinção, que se apega a temas desimportantes com ares de quem conhece a vida. Um ou outro até vai falar de voto e futebol mas a grande maioria fará o impossível para que o leitor experimente uma reflexão diferente, os tais grandes temas serão só parte do cenário.

Teremos crônicas que serão verdadeiras pérolas, essas ocasiões são propícias às revelações, aos achados, descobrir uma intenção inesperada no meio de tanto falatório é tarefa mesmo de quem anda sempre procurando assunto. É a grande área do cronista, caminhamos por ela com fama de peladeiros, como se não nos importássemos com o gol. Mas, na verdade, quando menos se espera, olha que estamos lá, prontos para o lance que vai tirar o zero do placar.

Outro dia assisti ao belo "Ladrões de bicicleta", de Vittorio de Sica. É um filme em preto e branco de 1948, difícil de achar nestes tempos em que as locadoras sucumbiram ao poder da pirataria e do on demand. Quem gosta desses tesouros não conta mais com a colaboração do pessoal que alugava as novidades, eram eles que bancavam a receita das nossas queridas locadoras. Sem o seu precioso auxílio, as opções diminuem e achar os clássicos é cada vez mais difícil.

Falo do filme porque ele é para quem gosta de fugir do planeta, foi rodado na primeira metade do século passado, é preto e branco e a história é de uma aparente banalidade que espanta qualquer um: roubam a bicicleta de um sujeito e ele sai pela cidade de Roma à procura dela. A beleza do filme é aquela que todo cronista procura quando escreve, quando se olha mais de perto se percebe que não é uma história comum. O cenário é o pós-guerra italiano e os homens lotam as filas de desempregados querendo uma solução do governo como paliativo para a miséria que bate à porta. Antonio Ricci consegue um valioso emprego e para trabalhar precisa mais do que nunca de sua bicicleta. Já no primeiro dia ela é roubada e por aí a história vai. É comovente, é um filme que brilha e que não tem pudor de assumir a tristeza como assunto. Os desempregados eram a parte que a Itália preferia esconder enquanto tentava sair da penúria depois da guerra.

Eu pergunto: que assuntos se escondem sob a sombra larga da Copa do Mundo? Em breve o futebol tomará o lugar de nossos problemas, que serão por algum tempo saber se fulano joga ou não joga, se foi falta ou pênalti. E sobre o quê vamos falar depois, durante as duras eleições que se aproximam? "Ladrões de bicicleta" fica levinho, levinho, feito uma crônica.

Aquele leitor mais apaixonado, que se entrega aos temas da ocasião, está certamente me reprovando enquanto lê. Pareço mesmo o cara que em pleno Carnaval diz não gostar de Carnaval, pareço o cara que não gosta de samba, futebol, mulata e caipirinha. Mas eu penso é em nossa vocação para o exagero e faço a minha propaganda: durantes esses eventos, se cansar dos assuntos, espero que haja um bom cronista de plantão. Vou precisar. 
quarta-feira, 20 de setembro de 2017 0 comentários

Resenha “Mi maior”, de Milena Rodrigues

“Mi maior” é o livro de contos de Milena Rodrigues, 95 páginas, publicado em 2017, pela Editora 7 Letras. Trata-se de obra de estreia e como sempre uma curiosidade me intriga: qual será o tema?
  
Haja história! Neste livro, a autora apresenta quarenta e duas. Quarenta e duas histórias compiladas que representam o início de seu projeto literário. Se acreditarmos que uma estreia trará para o mundo o tanto de busca que em si promete, sonhemos com a habilidade de Milena. A boa quantidade de contos em um único volume impressiona e confere profundidade a esta voz.

Dona de uma escrita clara, de fé em parágrafos bem estruturados, Milena elaborou estes contos com frases de elegante cinismo, onde aqui e ali sobressaem as ironias, com as quais, contudo, não demonstra estar ainda muito à vontade, mas que sugerem para a sua criação um brilho original.

Outra ideia também se impõe: de quarenta e duas histórias, ela poderia certamente ter destacado duas ou três, para maior desenvolvimento. A qualidade dos contos exibe o dom da invenção, mas peca pela sensação de improviso.

“Mi maior” é uma força como primeiro livro. E Milena Rodrigues a recobre com camada fina de reticente otimismo. O exemplo está no conto que entrega o título da obra. O protagonista se resolve na forma de música, a solução está em seguir para o próximo conto. A gente pede bis.
segunda-feira, 18 de setembro de 2017 0 comentários

O dicionário

Lendo um romance surge uma palavra inesperada, que me leva ao dicionário e à surpresa: no dicionário, a frase que serve de exemplo para o verbete é exatamente a mesma que eu lia no romance.

Não sou um homem que acredita em coincidências. Sou um tolo de voz fraca, que por maldade põe mais fé nos livros lidos que na rotina de sua vida. Confesso não querer interpretar o que vivi descrito no parágrafo lá em cima. Alguém talvez sorria, enxergando na coincidência uma trama de feliz destino, ter encontrado entre as palavras a sorte de uma vocação essencial. Outro leitor talvez me considere uma espécie de fanático, um dos que certamente inventam a coincidência, tentando achar para sua crônica um assunto.

Que sinistro.

Porém, o dicionário continua lá, com suas centenas de milhares de verbetes, brilhando para o fascínio das eras. Não posso reprovar a surpresa que preencheu naquela hora minha percepção do dicionário. Posso contar a história à minha moda, usando o alfabeto como instrumento de informação e aprendizado. Enquanto isso, interpreto as coincidências, as metáforas.

Eu gosto muito de dicionários. Se tivesse disposição o bastante, eu leria dicionários inteiros. Considero simplesmente incrível o trabalho de elaborar dicionários. De um instante para o outro, uma palavra qualquer vira verbete e o verbete adquire um significado. Esse significado fica registrado para todo o sempre, gravado como atestado de talento da palavra para a memória.

Mas dicionários não deixam de ser também submetidos de vez em quando ao teste do tempo. Fico imaginando como seja: suspeito que venha uma banca de especialistas, experimenta dar uma lida, uma boa examinada, depois decreta: o pobre dicionário deve ser revisto, quando não reescrito por completo. É uma responsabilidade. Quem nunca precisou estudar o sentido dessa ou daquela palavra boba?

Corretor ortográfico não resolve. Não se pode dizer que o caso está na precisão de escrever, ainda que se espere dos corretores ortográficos que em dado momento passem a escrever corretamente. O caso está na precisão do saber. Ou seja, na curiosidade de conhecer o vocabulário. Sem essa curiosidade não existiriam os dicionários.

Parece uma pesquisa reles. Garanto que não é.

Gosto inclusive de brincar com a palavra do dia, função que existe em dicionários para celulares. Abre-se o aplicativo grátis e surge como sugestão a palavra do dia. O jogo consiste em usar essa palavra quantas vezes conseguirmos no espaço de curtas vinte e quatro horas. Joga-se em grupo ou individualmente.

Eu comecei um dia com a palavra “euforia”.

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sábado, 2 de setembro de 2017 0 comentários

Vendem-se balas


Na base da escadaria, a menina de rua vende balas e lembro-me de quando a expressão que a define aqui era quase apenas masculina. Existiam somente “meninos” de rua. As meninas escapavam desse destino ou então fugiam de minha vista de pedestre. Não lembro quantas meninas faziam parte da turma de “Capitães de areia”, romance de Jorge Amado, sei que neste início de século XXI as meninas parecem tomar parte igual desse time de abandonados, meninas e meninos de rua a quem nós imaginamos que o acaso empreste as refeições das manhãs e das noites.

Penso em uma esperança. A menina de rua vendia balas na base de uma escadaria e um homem passa apressadamente, percebe o que a menina vende e entrega a ela dez reais. Ele não quer a bala e a menina esboça uma expressão de surpresa enquanto o homem prossegue. Alguns metros depois, o sujeito se arrepende: percebe que não ensinou nada com seu gesto, valorizou a mendicância, o ato vicioso de pedir, e não o trabalho. Portanto, retorna. Mudou de ideia, pede a mesma bala de antes, pela qual pagou dez reais. E a menina implacável responde: se quer a bala, precisa pagar os dois reais.

Para um boçal como esse, não resta outra alternativa que pagar os dois reais pela bala, entender que gastou doze reais ao todo no doce e seguir em frente. Da próxima vez, será tão esperto quanto aquela criança, quanto qualquer um. Na entrada do show, ocupará a fila com redobrada atenção, para que não roubem o lugar cativo diante de seus ídolos. Vai também respeitar quem prepara o jantar com cuidados de enfeitar a travessa de comida sobre a mesa. Quem sabe poderá um dia admitir que a menina de rua lhe deu uma lição, neste momento não pode, porque pagar o aluguel do apê pressupõe que o chefe tenha poderosa confiança no seu faro para o gol. Talvez admita a velha lição quando subir uma escadaria e perceber que uma jovem sobe a mesma escadaria mais rápida, mais leve e mais alegre. E viver esse dia talvez seja frear os próprios passos que sobem junto ao corrimão, para não enxergar o casal abraçado depois das catracas, realizando um beijo difícil de suportar se alguém na estação não tem setenta anos.

No dia em que a menina de rua vendia balas, ele pagou primeiro dez reais, depois mais dois reais, agradeceu pela bala que estava à venda e foi embora para casa. Quando cruzou o espaço diante da loja de pães de queijo, reparou que saía uma travessa quentinha do forno, recordou-se da fome e esboçou um sorriso irritante.
         
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sábado, 19 de agosto de 2017 0 comentários

No lugar


Uma palavra no lugar realiza algumas coisas. Talvez não consiga mudar o mundo, talvez não sirva para salvar uma floresta, talvez não consiga apagar nem mesmo um incêndio ou tampouco evitar uma traição. Mas uma palavra colocada é um instrumento, que usamos às vezes bem, outras mal. Uma palavra bem no lugar, por exemplo, cederia gentilmente o assento no metrô, uma palavra no lugar pediria timidamente um beijo. Uma palavra no lugar exigiria justiça e respeito às diferenças. Uma palavra no lugar rejeitaria a trajetória fatal da bala, uma palavra no lugar existiria só por acaso no verso de um cardápio ou na beira de um precipício estranho. Uma palavra no lugar realiza coisas, realiza casamentos, separações, realiza sonhos e pesadelos. Uma palavra no lugar muitas vezes é um tremendo palavrão. Uma palavra no lugar é matemática e realiza naves gigantes no espaço, realiza drones fazendo entregas pelos céus das cidades e realiza também mísseis nucleares desativados. Mas uma palavra no lugar não resolve a fome, mostra no lugar o quanto estamos errados. Uma palavra no lugar reflete o tempo, seja o tempo qual for. Uma palavra no lugar nomeia filhos, nomeia povos, nomeia culturas e nações, no lugar explica este planeta e a sua lua. Uma palavra no lugar descreve, descreve o que é visão para os cegos, o que é som para os surdos, uma palavra no lugar pode ajudar quem precisa, ajuda com a despesa do condomínio, ajuda com o problema da TV a cabo. Uma palavra no lugar também não é perfeita. Mas vence a teimosia do amigo, vence também de lavada a ignorância. Talvez não seja uma palavra bonita escrita, de um jeito que a todos agrade e para que todos fiquem sabendo. Ainda assim uma palavra no lugar está na página ou na tela entre dezenas, centenas, milhares de outras. E uma palavra no lugar frequentemente se repete, reverbera, se multiplica e por encanto transforma. Ela é instrumento que gera e regenera. Uma palavra no lugar é nossa.

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quarta-feira, 9 de agosto de 2017 0 comentários

Almoço grátis


A base da pirâmide não sabe, mas piloto e copiloto de aviões nunca recebem a mesma refeição quando em serviço. Há sempre para eles duas opções de refeição a bordo das aeronaves, o piloto escolhe uma e o copiloto a outra. A razão é óbvia: previne-se dessa forma que os dois comam juntos comida estragada e passem mal ao mesmo tempo durante o voo. Essa lei também se aplica à tripulação, por igual motivo, metade come a opção um, metade come a opção dois.


Rígidos protocolos de segurança como esse sobrevivem porque são indispensáveis. Ninguém está livre de uma falha no controle da cozinha, mesmo de uma cozinha profissional, responsável por milhares de refeições diariamente.

Quando o almoço é grátis então, a responsabilidade é ainda maior. O cara paga pela passagem de avião imaginando uma viagem pacífica, no máximo aquele friozinho na barriga, característico da aventura fora da zona de conforto. Chega a hora do almoço e ele ataca o prato sem dó nem piedade, sai de perto que o apetite é quem manda. De graça é mais apetite ainda.

Diz o patrocinado ditado: não deixe para amanhã o que pode fazer hoje. Carpe diem, portanto. O almoço grátis deve ser examinado à luz dessa sabedoria. Quem oferece tem que estar preparado para a lógica do camelo, o que sobrar é lucro.   

Volto ao papo sobre comando de aeronaves. Pilotos e copilotos de aviões já viram muito almoço grátis na vida. É claro que as tripulações também, sempre no interior dos Boeings superseguros. Como última salvaguarda, o que tranquiliza todos é o protocolo de segurança: piloto e copiloto jamais almoçarão juntos. São convidados indesejados nos almoços um do outro. Nessa mesa posta entre as nuvens, afeto não resolve. Afinal, pensa o despreocupado comandante: se ele come junto comigo, quem pilota o bendito avião?

Com certeza, fora o garçom. Que tem família, não é bobo nem nada, em terra firme declara que não responde pela cozinha. Na dúvida, mostra até a carteira.  
  
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sábado, 22 de julho de 2017 0 comentários

Sem ofensa


Fraudes podem ocorrer em qualquer lugar do mundo, inclusive a 8.848 metros de altitude, no topo do Monte Everest, a montanha mais alta do planeta. Um belo casal de alpinistas indianos — Dinesh e Tarakeshwari Rathod — decidiu abandonar toda a discrição e repercutiu sua suposta conquista na imprensa de seu país: teriam sido o primeiro casal indiano a alcançar o cume do Everest, isso em 2016. Ficaram famosos, mas a alegria durou pouco: a fraude foi descoberta e denunciada por um outro alpinista da Índia, quando ele constatou que as fotos usadas pelo casal para comprovar a façanha eram na verdade fotos de sua própria escalada, alteradas digitalmente.

A fraude, neste caso, teve efeito contrário ao que desejava o casal. Em vez da fama alcançada por realizar um feito notável, ficaram célebres por tentar enganar e tirar proveito da boa vontade da sociedade indiana. A internet não costuma perdoar esses erros, se o leitor tem alguma dúvida experimente digitar o nome dos dois no Google. O fato está documentado com muitas fotos.

É impossível avaliar o que houve com o casal depois desse evento. Os dois não são nem mesmo alpinistas profissionais, penso no que tiveram e terão ainda de enfrentar como desconfiança junto aos colegas de trabalho, junto à família. Poderão alegar que a fraude em nome da façanha não é novidade, o que é bem verdade. Há uma preocupação das autoridades nepalesas e chinesas — na fronteira dos dois países fica o Everest — em fiscalizar quem realmente consegue atingir o topo da montanha. O desejo de fama era tão grande, diria o casal fascinado, que não suportamos enfrentar o frio extremo e intenso, a extenuante carga física e a falta angustiante de oxigênio, chegar na beira da terrível montanha já foi incrível e nós achamos que merecíamos algum reconhecimento. Daí o alarde.

O quase espanto. 

E a solução. Que este cronista tem: sugiro ao humilde pessoal do Himalaia que providencie o desenvolvimento de um game onde se possa experimentar a escalada sem os riscos inerentes à tarefa. O problema é muito claro: as pessoas querem subir a montanha, mas não querem arriscar a própria vida para isso. Hoje em dia existe game de futebol, de tênis, de basquete, de esqui, eu sugiro então um game de escalada. Fazendo uso dos últimos avanços nas técnicas de realidade virtual, a simulação teria tudo para ser um sucesso.

Que frio o quê! O sujeito põe uma sunga diante da piscina, debaixo de um sol brando, e mergulha virtualmente nos climas do Nepal e da China. Depois diz assim: escalar o Everest é fascinante, eu prefiro a face norte, mas há quem prefira a face sul, eu demorei dois dias para conseguir, você demorou quanto? Eu adorei a experiência, as fotos ficaram ótimas, sem ofensa.

Sem ofensa.
    
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domingo, 9 de julho de 2017 0 comentários

A chance de ficar calado

Deu na imprensa. A cantora escocesa Annie Lennox, responsável por 75 milhões de discos vendidos, recebeu de uma rádio californiana uma peculiar proposta de trabalho: a coordenadora musical da rádio encontrou na rede uma seleção de canções da veterana cantora e gostou do que ouviu. Imediatamente teria enviado um email para a talentosa artista de 62 anos de idade, 40 anos de carreira, quatro prêmios Grammy, tratando-a como se fosse uma iniciante.

Cá do meu canto de mercado, a notícia nem parece tão espantosa. Penso no porquê de Annie se lixar a ponto de divulgar. Deve ser a nossa recorrente reclamação, a velha história da falta de respeito: somos sujeitos da precariedade das relações, não vale a prontidão dos laços de amizade e afeto, vigora sob o sol amarelo e nas rádios um toma-lá-dá-cá motivado por necessidades momentâneas e fugazes. Daí que não se experimenta o verdadeiro respeito, o que certamente a tal coordenadora musical teria experimentado se tivesse se dado ao trabalho de uma pesquisa básica sobre a artista que aprendia a admirar.

Repercuti a notícia aqui em casa e a turma passou outros exemplos. O estagiário chegou certa manhã no trabalho louco por apresentar a banda incrível que havia descoberto na rede, seu tom de voz era de incontestável novidade: a banda se chamava Dire Straits e a música era Sultans of Swing. Demos risada.

Acrescento que atribuem a Nelson Rodrigues uma frase cascuda sobre o assunto: “Jovens, envelheçam!”

Não sou nem um pouco a fim de radicalizar de pé diante do povo jovem, muito bom ser jovem, tanto que a onda colateral desse assunto proposto por Annie Lennox é a galera veterana — que acumulou um pouquinho mais de sorrisos nesta vida — passar a se considerar repentinamente antiquada, para não dizer velha. Não deixa de ser uma vingança da tal coordenadora musical, cuja carreira a vocalista do Eurythmics teria jogado na fogueira ao divulgar o conteúdo do desastrado email. Não sei o que aconteceu com Kylie (esse é o nome dela), se perdeu o emprego ou se foi até promovida. Mas fica nas nossas mãos de ouvintes um cartaz enorme onde anunciam sei lá que terrível idade. Quando a gente olha, debaixo do mesmíssimo sol, impossível não ver. Também por isso nós batemos palmas, Annie Lennox sabe. Já Kylie eu não sei, que tenha a chance de mostrar que aprendeu.
     
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sexta-feira, 23 de junho de 2017 0 comentários

Lote um metrô



O nosso metrô usa composições em que se pode passar de um vagão ao outro sem bloqueios. Não sei o que prefere o leitor, mas eu gosto de ir no primeiro vagão e experimentar o efeito: já que é possível enxergar do primeiro ao último dos vagões, desde que se vá em linha reta, percebe-se também do mesmo jeito as curvas que o metrô faz debaixo desta cidade, uma percepção de outra forma improvável — através das janelas, diante da escuridão do subsolo a sensação geral é de um túnel intrometido.


Em uma noite premiada por uma calma no peito, calma de estaca no couro deste vampiro, lembrei daquelas passarelas móveis que existem em algumas estações do metrô, aquelas passarelas que funcionam como esteira de academia a acelerar nosso passo. Dei-me conta de que o metrô é um parente daquelas passarelas dinâmicas e resolvi caminhar do primeiro ao último vagão, em vez de me acelerando, fazendo o contrário, na prática freando.


Toda a freqüência da estação de embarque ajudou muito, não era hora em que as pessoas costumam viajar com pressa para casa, mesmo o condutor da composição conspirou comigo, assinara contrato com o honesto salário, foi gentil. Naquele horário as pessoas costumam também ir para casa, mas é que o metrô seguia vazio, os seguranças a serviço, sobrou para os cantores e instrumentistas. Os lugares para sentar exibiam um poder de humor que a ninguém espanta. Nada sobre o ar condicionado. Somos uns frágeis tolos, sofremos com o preço da porção de pães de queijo, ou com a qualidade tosca das balinhas.

Os vagões estavam iluminados demais, eu enxergava tanto dentro deles quanto fora, os olhos tentavam compensar os excessos — o que deu certa onda. Faltou um som que me valorizasse o gogó. O boné eu trazia, quem me conhece sabe, sou um trouxa de boné. Boné faz um bem à minha careca que aos cabeludos fica difícil imaginar.

Mas de volta ao metrô... nossa gente vacila, fácil ver idosos em pé nos vagões, não há quem se exalte. Dizem que nos trens sobre trilhos é igual. É pior. Lote uma rodoviária e verá. Lote uma barca, ou aquela estrada. Lote um hotel cinco estrelas. Lote um ponto de ônibus abandonado, lote a piscina ou um bom restaurante. Lote os aeroportos. Lote um churrasco com molho barbecue. Lote um metrô.

Cheguei em minha estação na boa, funcionava calma e nem fui assaltado. O pessoal conseguia ouvir até música nos fones de ouvido. Sossego maior não há.

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domingo, 11 de junho de 2017 0 comentários

Bem-estar geral


Para a geração Z (a galera nascida entre os anos 1990 e 2000), não faz sentido algum ser escravo do trabalho. Por isso, especialistas acreditam que o circunspecto mercado passará nos próximos anos por mais uma transformação: a meta será evitar gastar infinitas horas do dia ou da noite dentro de uma empresa. Essa tendência de viver será tendência também de consumo e já foi mapeada, possui até nome entre os estudiosos: ela é chamada de wellness. Seu potencial global foi estimado este ano em três trilhões de dólares, o que supera inclusive as vendas mundiais da poderosa indústria farmacêutica.

É incrível imaginar que uma nova indústria como essa, interessada especialmente em oferecer bem-estar às pessoas, possa ganhar em poderio de gigantes como a indústria de medicamentos, justamente a indústria que é interessada em garantir nossa saúde. Não é? Para o mercado ainda são duas coisas diferentes: saúde e bem-estar, uma conclusão que pode iniciar várias conversas exatas. 

Uma delas diz respeito ao mundo que nossa espécie inventa. Que mundo será capaz de gerar o tal faturamento trilionário? No mundo em questão, as pessoas vão trabalhar menos, porque será mais importante aproveitar a vida e gozar tipos incontáveis de prazer associados ao entretenimento. Estamos falando de uma sociedade sofisticada, íntima da inteligência artificial, da robótica e das realidades virtuais.

Outra conversa que podemos ter é sobre o homeworking. O mundo do trabalho caminha para o exercício das tarefas profissionais em casa. O sujeito acorda, lava o rosto, faz o desjejum e em videoconferência com seus colegas inicia suas atividades produtivas. Há quem ache bizarro, mas prosseguimos rumo à sagrada individualização faz tempo. O engraçado é que nunca deixamos de ser manada.

Papo insano? Nem tanto, pois a verdade é fácil de admitir: saúde e bem-estar já são o mesmo tópico na cabeça das pessoas. Vivemos com vontade de perdurar, o que muda é a receita. Tem quem tome comprimidos das mãos de geriatras, tem quem aposte nos exercícios com personal ao ar livre, tem quem ponha fé nas receitas da chef natureba. Entendo que apenas uma verdade é prejuízo, principalmente para a geração Z, só uma verdade não serve à diversidade. Daí que hoje eu quero aquela receita, amanhã eu tento a outra, depois eu quero mais uma. O cobertor é que continua curto.

Falo de cobertor curto porque o leitor sabe, essa história fantástica de trabalhar menos — porque o que importa é consumir de acordo com nosso bem-estar — carrega em si contradições importantes. Juro que uma galera vai ficar fora dessa utopia consagradora do engenhoso sapiens sapiens. A espécie humana não me decepciona, sei que ninguém vai querer faltar nessa farra, então haja competição, tome hora extra e terceirização, tome trabalhar e tratar de ganhar muito dinheiro, que no fim das contas é o que garantirá lugares nesse parque de diversões. Estresse. Estresse demanda necessidade de bem-estar. Ponto para a civilização, por enquanto a maquininha, passa o cartão. Amanhã a gente vê.

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sexta-feira, 26 de maio de 2017 0 comentários

Chove, chuva


Enfim depois do nosso verão caiu a chuva. Veio tímida, mas ainda assim eu me peguei reclamando. Fui mesquinho mesmo, contra o bem-estar do meu cotidiano, que adivinhem: às vezes se volta por obra de ideias tortas contra as chuvas de momentos necessários. Perdoem-me se sou desajeitado ao tratar do assunto cotidiano, mas não me ocorre outra forma de comentar sobre meus desacertos.

É assim: se faz sol, reclamo, se chove, reclamo também.

Sei que na vida preciso encontrar o caminho por onde escoar meu humor de francesinha. Esculachar o valor da estação é um deles. E eu fraco converto-me em super pau-mandado das emoções chulas, imaginando estupidamente que só porque é emoção tem valor.

Tem emoção que não vale uma segunda-feira, tem emoções que não valem um meio lábio. Abraço a chuva sem esquecer que merecemos muito mais que mágoas, somos um tanto melhores que a melancolia barata de um cigarro, somos feitos de matéria mais valiosa que bolores.
     
Chato talvez seja o adjetivo certo para o estado em que me regozijo de fúria, disposto a delatar toda a crueldade que usam como fantasia por aí. Retaliação. Eu deveria revidar. Ser, por que não?, a resposta das questões tropicais que teimam em negar a chuva e o sol.

É claro que sol demais faz mal e a chuva alaga por aqui. Não são detalhes, mas queimaduras e inundações também podem nos preencher de invenções descartáveis ao coração. Este mundo caminha tão vou sob a marquise hoje, a reclamação volta sempre espantada amanhã: sol em brasa, reclamarei de você. Hoje a chuva é refrigeração, poupo o meu mar.

Chove, chuva.

Não faz três anos e me preocupava o nível dos reservatórios de água. Lembro que na ocasião pensei em como seriam duas calçadas de uma cidade como o Rio de Janeiro a sofrer vizinhas com a falta de água. Era essa a história.

Chove, chuva.

Enquanto isso, penso nas palavras da moda. Saudade do tempo em que os verbos eram bons. A gente mudava de casa, conservava a natureza, arrumava um emprego. Hoje o verbo conservar virou apenas metáfora de canalhice e safadeza. Não se engane, os verbos mudar e arrumar também.

Olha que me escondo na chuva.

Mas teria de ser um dilúvio.

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